Catfish: Um cultivo tecnicamente viável no Rio Grande do Sul

Na busca de alternativas para o desenvolvimento da aqüicultura gaúcha, o channel catfish (Ictalurus punctatus), também conhecido como bagre de canal e bagre americano, foi introduzido no Estado do Rio Grande do Sul (RS) na primeira metade da década de 80, tornando-se uma das espécies mais procuradas pelos piscicultores. Atualmente é cultivado em praticamente todo o estado, tendo a EMATER-RS registrado a sua presença em 150 municípios, onde mais de um milhão de alevinos produzidos no próprio estado, ou trazidos de Santa Catarina, têm sido comercializados anualmente. Apesar dessa considerável dispersão, os produtores gaúchos de catfish se deparam com sérias restrições impostas pelo órgão ambiental do estado, a FEPAM – Fundação Estadual de Proteção Ambiental, que se baseia na Portaria 145-14-N, de 29 de outubro de 1998 do IBAMA, para se opor ao cultivo. A Portaria leva em conta que o catfish não ocorre em ambientes naturais da Bacia Hidrográfica do Leste, não cabendo, portanto, o licenciamento ambiental dos cultivos.

Este artigo, uma revisão sobre o tema, não tem o objetivo de argumentar contra as questões legais do impedimento da produção do catfish, e sim demonstrar que, ao menos sob o ponto de vista técnico, o cultivo poderia ser realizado com segurança, sem causar prejuízos para o meio-ambiente. O objetivo é que sirva de subsídio aos envolvidos nessa questão, desde aqueles que prezam pela preservação dos recursos naturais até aqueles comprometidos com o desenvolvimento da aqüicultura no Rio Grande do Sul, e seu conteúdo certamente poderá ser utilizado na análise de outras espécies exóticas também presentes na nossa aqüicultura.


Por:
Luís André Sampaio
Fundação Universidade Federal do Rio Grande
Laboratório de Maricultura
[email protected]

Sérgio Renato Noguez Piedras
Universidade Católica de Pelotas
[email protected]


Entre as muitas características desejadas para considerarmos uma espécie de peixe adequada para a aqüicultura, destacam-se o domínio da reprodução e da produção de alevinos e, o conhecimento das necessidades nutricionais, para minimizar o custo de produção e a eutrofização do ambiente vizinho. Já a introdução de espécies exóticas e a translocação de espécies nativas para fora de sua área de distribuição natural, têm como objetivo adicionar novos elementos (espécies ou cultivares) para os sistemas de produção. Espécies que apresentam ótima performance em cultivo são sempre boas candidatas para serem introduzidas em outras áreas, já que é possível aproveitar a tecnologia já desenvolvida e assim obter o retorno econômico com mais segurança e em menor tempo.

A aqüicultura, assim como a agricultura e a pecuária, também pode afetar o ambiente de várias maneiras. Entre os efeitos negativos que pode causar, se destacam a destruição e fragmentação de habitats naturais; mudanças no solo, água e paisagem; mudanças na abundância de espécies; empobrecimento da diversidade biológica e genética e, perturbação de processos ecológicos. A magnitude destes impactos varia de acordo com a natureza e a localização do cultivo (intensivo, semi-intensivo ou extensivo em água doce, estuarina ou salgada), os métodos de manejo utilizados e a espécie cultivada.

Independentemente do tipo de cultivo, é difícil impedir a fuga de animais para a natureza. Portanto, todas as formas de aqüicultura têm um impacto em comum: as conseqüências ecológicas adversas para a biota nativa e o ambiente natural, resultantes da fuga de animais cultivados (Arthington et al, 1996).

Segundo Bartley & Casal (1999), 17% da produção mundial de aqüicultura é de espécies exóticas, mas considerando os dados de produção da FAO (1993), a produção de espécies exóticas atinge quase 70% na Europa e na América. No Brasil, segundo o Ibama, do volume de pescados produzidos pela aqüicultura em 2003 (251 mil tolenadas), 83,72% (210 mil toneladas), é composto por organismos exóticos (camarão, tilápia, carpa, bagre africano, catfish americano, rã e truta).

A possibilidade de escape de espécies exóticas é reconhecidamente um risco no desenvolvimento da aqüicultura. Entretanto, o papel desta espécie no novo ambiente é geralmente imprevisível, pois dependerá de interações dinâmicas entre as características genéticas, fisiológicas e biológicas da espécie em questão e as características, a dinâmica e a história do corpo d’água invadido.

Os esforços para identificar espécies com potencial para se estabelecer em um novo ambiente e para identificar ambientes mais susceptíveis para invasão, não foram muito bem sucedidos, devido ao conhecimento limitado dos processos que regulam as comunidades aquáticas naturais.

Outro fator de confusão é que muitos ambientes invadidos foram perturbados por atividades antropogênicas, e o significado destas perturbações não é bem compreendido. Devido à falta de pesquisas apropriadas, incluindo estudos antes e depois das invasões, muitos dos efeitos atribuídos às espécies invasoras não são referendados por dados conclusivos (Clugston, 1990).

Existem várias razões para a introdução de espécies exóticas em aqüicultura, agricultura e pecuária. Apesar de existir um grande número de espécies cultiváveis, poucas espécies podem ser consideradas domesticadas no sentido da tecnologia disponível, para que a sua produção seja economicamente viável. Os principais impactos que podem ser observados após a introdução de uma espécie exótica são os de natureza ecológica, sanitária e genética, conforme descreve Pillay (1992), como segue.

a) Aspectos ecológicos

A influência que uma nova espécie pode exercer sobre a fauna e a flora local é o principal impacto ecológico a ser avaliado. Mesmo considerando que o cultivo seja realizado em um local seguro, é impossível garantir que não ocorrerão fugas sob quaisquer circunstâncias. Nesse caso duas situações podem ocorrer: (1) algumas espécies podem não encontrar condições adequadas para se reproduzir de modo a constituir uma população numerosa e, portanto, não se estabelecerá no ambiente; (2) outras espécies podem se estabelecer e reduzir a abundância ou eliminar espécies nativas através de competição ou predação.

Existem registros do desaparecimento de espécies nativas após a introdução de espécies carnívoras como a truta (Oncorhynchus mykiss) e também de espécies onívoras como o peixe-rei (Odontesthes bonariensis) no Lago Titicaca. Entretanto, deve ser enfatizado que os efeitos ecológicos causados simultaneamente por outras perturbações nem sempre são considerados e adequadamente estudados para que se conclua que os efeitos observados são exclusivamente devido à introdução das espécies exóticas.

É preciso ressaltar que na maioria dos exemplos sobre os problemas causados pela introdução de espécies exóticas, não há referência sobre a fuga de animais de cativeiro e sim sobre a introdução deliberada dos peixes no ambiente natural para fins de povoamento, ou seja, o estabelecimento das novas populações foi intencional.

b) Aspectos sanitários

O código de conduta da FAO (1997) para uma aqüicultura responsável, no seu artigo 9.3, parágrafo 9.3.3 sugere que devem ser tomadas medidas para minimizar os riscos de transmissão de doenças na introdução de espécies exóticas. Vários exemplos de doenças que se estabeleceram em outros países podem ser citados, entre eles o caso do cestoda Bothriocephalus acheilognathi que acompanhou a introdução da carpa capim na Europa nos anos 60. Outro exemplo é o aparecimento do monogênea Gyrodactylus salaris em populações de salmão da Noruega após a introdução de alevinos provenientes da Suécia. No Brasil a introdução do copépodo Lernea cyprinacea deveu-se a introdução de carpas importadas da Hungria.

c) Aspectos genéticos

A opinião da FAO sobre o cultivo de espécies exóticas

Welcomme (1988) organizou, a pedido da FAO, uma revisão sobre a introdução de espécies exóticas ao redor do mundo. Várias espécies foram avaliadas, entre elas carpas, tilápias, salmonídeos e o catfish. Ao examinar a introdução de várias espécies, Welcomme dividiu o padrão de resposta em seis categorias:

1) As espécies introduzidas nunca se estabelecem no novo ambiente (22% dos casos);

2) As espécies introduzidas não conseguem reproduzir sob condições naturais (18% dos casos);

3) As espécies introduzidas se estabelecem em ambientes diferentes do seu habitat natural (1% dos casos);

4) As espécies introduzidas se estabelecem no novo ambiente, mas em densidades muito baixas. Apesar de ser pouco provável que a inserção de um novo elemento em uma comunidade de peixes não cause alterações nas populações nativas, os casos inscritos nesta categoria (33%) não causam impactos positivos ou negativos;

5) As espécies introduzidas se estabelecem no novo ambiente, sua abundância aumenta rapidamente e se tornam um elemento dominante no ambiente (3% dos casos);

6) As espécies introduzidas se estabelecem no novo ambiente, tornando-se elementos significativos da fauna nativa (24% dos casos). Entretanto, destes casos, apenas 7% tiveram um impacto negativo no ambiente, pois o efeito dos outros 17% foi classificado como neutro ou positivo.

Além disso, Welcomme também fez uma análise sobre o papel de cada espécie, dividindo-as em três grupos:

I) espécies classificadas como “pestes” onde foram introduzidas, entre elas a tilápia Oreochromis mossambica e o Ictalurus nebulosus;

II) espécies cuja introdução é vista com certa desconfiança, entre elas a carpa Cyprinus carpio e o peixe-rei Odontesthes bonariensis, que é nativo do RS;

III) espécies vistas como benéficas nos locais onde foram introduzidas, entre elas a tilápia Oreochromis niloticus e o catfish Ictalurus punctatus.

O caso do Catfish

Para falarmos do catfish, é preciso que tenhamos alguns cuidados com a nomenclatura. Catfish é um nome vulgar da língua inglesa, usado para a maioria dos peixes Siluriformes (bagres), sendo necessário, portanto, acrescentar alguns adjetivos para que seja possível diferenciar as espécies. Assim, channel catfish é a denominação do Ictalurus punctatus; white catfish, do Ameiurus nebulosus; flathead catfish, do Pylodictis olivaris, e assim por diante. Para facilitar a leitura deste artigo, o termo catfish, quando usado sozinho, refere-se ao I. punctatus.

Um exemplo real de problemas que podem ser gerados pelo uso equivocado de nomes vulgares é a proibição pelos EUA, da comercialização dos bagres produzidos no Vietnã (Pangasius sutchi e P. pangasius), sob a alegação de que os vietnamitas utilizavam comercialmente a palavra catfish, que nos EUA é uma exclusividade do I. punctatus. O estímulo para o cultivo de Siluriformes no Brasil (jundiás), com vistas à exportação para os EUA como catfish deve ser revisto, pois o mesmo embargo adotado contra a produção do Vietnã, possivelmente será novamente imposto pelos EUA.

Hábitos alimentares

É difícil caracterizar uma espécie como estritamente carnívora ou onívora, e isso se dá pela flexibilidade que os peixes apresentam para definir seus itens alimentares (Lagler et al, 1977). Podem ocorrer variações em função da disponibilidade de diferentes itens alimentares e também ocorrem mudanças nos hábitos alimentares ao longo do desenvolvimento ontogenético. Vale lembrar, entretanto, que o mais importante não é a classificação do peixe como carnívoro ou onívoro, já que, independentemente disso, ele vai estar interagindo na cadeia alimentar, atuando como presa, ou como consumidor.

O catfish tem sido definido como onívoro por vários autores (Bailey & Harrison, 1948; Lee, 1981; Hubert, 2000). Já foi observado que além de animais, os indivíduos desta espécie consomem uma variedade de plantas, incluindo algas filamentosas e sementes. A sua dieta, porém, varia ao longo do desenvolvimento, com as larvas consumindo, principalmente, zooplâncton em lagoas, e larvas de insetos em rios. Peixes com comprimento entre 2 e 10cm se alimentam quase que exclusivamente de pequenos insetos, e peixes maiores, entre 11 e 30cm, dirigem sua dieta para insetos maiores, mas começam a diversificar suas preferências, consumindo camarões, moluscos, pequenos peixes e matéria vegetal. Exemplares maiores que 30cm tendem a incorporar peixes em sua dieta, mas ainda dependem muito de invertebrados e outros alimentos disponíveis (Bailey & Harrison, 1948).

Estudos recentes na zona sul do Rio Grande do Sul (Xavier et al., 2004) compararam o desempenho do catfish e do jundiá alimentados com dieta artificial e com alimento vivo (pequenos peixes), e os resultados mostraram que as duas espécies apresentam desempenhos semelhantes, sendo que o jundiá consumiu 85% das iscas vivas e o catfish 79%, sendo portanto animais de alimentação e desempenho zootécnico semelhantes.

Reprodução

O catfish possui várias características desejáveis para o cultivo. Entre elas, uma das mais importantes é que este peixe não se reproduz nos tanques de cultivo, permitindo ao aqüicultor o controle da população de um viveiro (Wellborn & Tucker, 1985).

Vários fatores podem afetar negativamente a reprodução do catfish, entre eles a predação por aves e peixes sobre exemplares jovens, tanto em tanques de cultivo quanto na natureza. O período larval de cinco dias, a coloração alaranjada (atrativa aos predadores) e sua imobilidade tornam esta fase crítica para a sobrevivência das larvas. Apesar da proteção parental, a predação sobre as larvas de catfish é uma das maiores fontes de mortalidade da espécie na natureza (Hubert, 1999).

Piedras et al. (no prelo) observaram que I. punctatus, quando cultivado em tanques de terra juntamente com joaninha (Crenichicla lacustris), peixe-rei (Odonthestes bonariensis), jundiá (Rhamdia sp.) e lambari (Astianax bimaculatus), não produz proles que consigam se estabelecer neste ambiente, devendo isto à fragilidade desta espécie na fase larval, quando praticamente todas as larvas e alevinos são consumidos pelas demais espécies presentes no ambiente. Resultados semelhantes a estes já foram observados em vários açudes povoados há mais de 10 anos na zona sul do RS e semelhantes aos registrados por Smith & Reeves (1986), Eder & McDannold (1987) e Storch & Newman (1988), nos EUA.

Doenças

Embora o catfish tenha sido introduzido há mais de 20 anos no RS, somente nos últimos anos vem havendo restrições ao seu cultivo. Como conseqüência disso, os cultivos seguem clandestinamente, mantidos com a importação de alevinos e reprodutores de outros estados, sem nenhum controle sanitário. Apesar disso, a questão sanitária pode não ser um empecilho para a permissão do cultivo do catfish, pois a espécie já está presente há bastante tempo e não existem registros de doenças associadas a ela. Julga-se inclusive, que a regulamentação do cultivo poderia favorecer o controle sanitário, pois o poder público teria informações sobre a localização dos cultivos e de onde são originados os alevinos.

Repovoamento e capacidade de se estabelecer em novos ambientes

A reprodução natural do catfish é prejudicada, ou até mesmo ausente, em muitos ambientes, por isso programas de repovoamento foram estabelecidos em 35 estados dos EUA para permitir a preservação da espécie (Smith & Reeves, 1986; Eder & McDannold, 1987; Storch & Newman, 1988).

A liberação de exemplares menores do que 10cm em ambientes com a presença de predadores resulta em virtualmente 100% de mortalidade (Dudash & Heindinger, 1996). Os programas de repovoamento de catfish de vários estados norte-americanos recomendam que o tamanho mínimo dos peixes para serem liberados deve estar entre 15 e 20cm. Animais desse tamanho já conseguem fugir de predadores e com isso garantir a sua sobrevivência, proporcionando um índice de recaptura razoável (Santucci et al, 1994; Bonar et al, 1997). Entretanto, para assegurar uma boa sobrevivência, o comprimento do animal liberado para repovoamento deve ser de pelo menos 25cm. Howell & Betsill (1999) concluíram que apesar do maior custo individual de produção para peixes com 25cm comparado a peixes de 20cm, a melhor sobrevivência (5,7 vezes maior) justifica economicamente a liberação dos indivíduos maiores.

A quantidade de animais que deve ser liberada em um corpo d’água para que uma população possa se estabelecer varia de acordo com o tamanho do ambiente. À medida que sua área aumenta, pode ser reduzida a densidade de peixes liberados. Mitzner (1999) relata que lagos com menos de 100 acres devem receber 50 catfish por acre, e lagos com mais de 250 acres devem receber 10 exemplares/acre (equivalente a 25 peixes/ha).

Assim, para que houvesse risco de estabelecimento de catfish em um corpo d´água como a Lagoa dos Patos, cuja área é de 350 mil ha, seria necessária a introdução de aproximadamente 8,75 milhões de exemplares de catfish com 25cm de comprimento. Assumindo uma densidade de estocagem de 10.000 catfish/ha, seria necessária uma catástrofe que permitisse o rompimento de 875 viveiros de cultivo, cada um com área de 1 ha, em uma fase de produção em que os peixes já tivessem atingido o tamanho esperado de 25cm, e que todos os indivíduos atingissem corpos d’água naturais.

Devemos considerar, em relação às introduções de catfish ocorridas no RS, que passados mais de 20 anos, esta espécie não se estabeleceu em nenhum ambiente natural. É possível que não o fizeram porque não encontraram condições adequadas para tal, sendo razoável assumir que o risco de que isto possa ocorrer no futuro seja reduzido.

Considerações finais

A oportunidade para que uma espécie se estabeleça em um ambiente natural depende de vários fatores, entre eles a adequação deste ambiente para a reprodução, alimentação e proteção contra predadores.

Para que uma espécie possa se reproduzir naturalmente é necessário que o ambiente ofereça condições adequadas de temperatura, fotoperíodo, sedimento, possibilidade de realizar migrações e outras não menos importantes, como a qualidade da água e a presença de predadores para os ovos e larvas. Mesmo que uma espécie encontre condições propícias para se reproduzir, a questão da alimentação também é crucial para o sucesso do estabelecimento de uma população. Primeiro as larvas necessitam encontrar alimento de tamanho, qualidade e quantidade disponível em sincronia com o momento da exaustão de suas reservas vitelínicas para que não morram de inanição. Uma vez que as larvas sejam bem sucedidas na primeira alimentação, elas devem ser hábeis para evitar predadores e continuar seu crescimento.

Considerando que o cultivo de espécies exóticas em estabelecimentos licenciados ou não, é uma realidade no RS desde os anos 50, a ausência de populações de peixes exóticos estabelecidas em nossas águas, como tem sido argumentado em todos os debates sobre o tema no estado, corrobora com a hipótese lançada acima de que existem dificuldades para o estabelecimento de populações das espécies exóticas que vêm sendo cultivadas clandestinamente.

Embora já tenham sido registradas capturas eventuais de carpas na Lagoa dos Patos, a pequena quantidade e o porte dos exemplares capturados (maiores de 2 kg), demonstram claramente que não se trata de populações estabelecidas. Caso as carpas estivessem se reproduzindo naturalmente nesse ambiente, indivíduos de pequeno porte deveriam ser capturados com freqüência. A presença destas carpas grandes pode ter duas origens: 1) por escapes de viveiros de cultivo construídos sem fiscalização, ou 2) através dos vários “povoamentos” que já foram realizados nas águas públicas do Estado do RS, conforme registrado por vários veículos de comunicação. A ignorância destas pessoas com relação ao tema, induziu-os equivocadamente a pensar que estavam fazendo um bem ao ambiente ao deliberadamente lançarem espécies exóticas nestes corpos d´água.

Ao invés de simplesmente banir o cultivo de espécies exóticas, seria melhor avaliar os riscos e benefícios associados a estes cultivos e no caso de se julgar apropriado, desenvolver e implementar planos para o seu uso responsável.

Considerando a FAO como uma entidade neutra, é razoável considerar que o cultivo do catfish I. punctatus no Rio Grande do Sul possa ser realizado, desde que sejam tomadas as precauções necessárias para minimizar as possibilidades de agressão ao ambiente natural.


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