Cistos de Artemia : Oscilações globais de produção, mistérios científicos e desafios tecnológicos

Por: Marcos Rogério Câmara, Ph.D.
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Na edição anterior da Panorama da AQÜICULTURA, o artigo “Uso da biomassa de Artemia na carcinicultura brasileira” delineou as bases históricas e estruturais da produção de Artemia no Rio Grande do Norte e realçou as repercussões ambientais, econômicas e sociais decorrentes do extrativismo (pesca) e uso de biomassa no cultivo de camarões em nosso país. O presente artigo, por sua vez, aborda aspectos econômicos, científicos e tecnológicos relacionados à produção de cistos. Aqui, serão discutidas as oscilações do mercado mundial de cistos, os mistérios da reprodução de Artemia através de embriões encistados e finalmente, a busca de respostas tecnológicas para aumentar a oferta desses verdadeiros “ovos de ouro” da aqüicultura.

 

Encistamento ou produção de larvas?
Encistamento ou produção de larvas?

O microcrustáceo Artemia é a espécie mais amplamente utilizada na alimentação de organismos aquáticos cultiváveis em todo o mundo. Distribuídos em ambientes hipersalinos, especialmente em lagos salgados interiores e salinas costeiras, cistos (embriões em diapausa) e biomassa (indivíduos juvenis e adultos) de Artemia são coletados nesses ecossistemas, processados e utilizados como alimento para uma enorme variedade de peixes e crustáceos.

Tanto cistos como biomassa de Artemia são elos importantes da cadeia produtiva do camarão marinho Litopenaeus vannamei, cuja produção no Brasil cresceu de 40.000 toneladas em 2001 para 90.190 toneladas em 2003. Como conseqüência, o consumo de cistos e de biomassa de Artemia em 2003, alcançou 16,4 e 246 toneladas, respectivamente. Desses totais, toda a biomassa e aproximadamente 2 toneladas de cistos de Artemia foram coletadas nas salinas do Rio Grande do Norte.

A coleta desses produtos é realizada por pescadores artesanais e o processamento e venda de cistos e biomassa de Artemia por empreendimentos familiares (de baixo capital financeiro e tecnológico) localizados nos municípios de Grossos/Areia Branca (seis empreendimentos) e Macau (três). Tais empreendimentos não detêm os meios de produção ou acordos oficialmente estabelecidos com os proprietários das salinas e, por conseguinte, dependem da coleta de Artemia realizada por pescadores artesanais. Esse modelo informal de pesca é, em sua essência, clandestino, e implica tensões sociais no relacionamento entre processadores, salineiros e pescadores artesanais. É preocupante a sustentabilidade das práticas de extrativismo atualmente em uso, não apenas por conta da conversão de centenas de hectares de salinas em viveiros de camarão mas principalmente, em função do desconhecimento da capacidade máxima sustentável dos locais de pesca (evaporadores de salina) e da coleta indiscriminada de Artemia (cistos, náuplios, juvenis e adultos).

Oscilações na produção de cistos

O Grande Lago Salgado (Utah, Estados Unidos) é o maior produtor mundial de cistos de Artemia. No entanto, as flutuações ambientais no “Great Salt Lake” (GSL) nos últimos anos têm interferido na produtividade primária do lago e na quantidade de cistos coletados. Tais oscilações são claramente observadas na Figura 1, que ilustra as colheitas anuais de cistos de Artemia no GSL no período 1989 – 2003.
A demanda mundial por cistos de Artemia é hoje superior a 2.000 toneladas anuais e tenderá a aumentar, principalmente em razão das elevadas taxas de crescimento previstas para a aqüicultura nos próximos anos (por volta de 10 % ao ano). No entanto, uma vez que essa demanda será, em sua maior parte, decorrente do consumo das chamadas larviculturas de camarões, o crescimento mundial do mercado de cistos de Artemia dependerá basicamente da expansão da carcinicultura marinha, atividade submetida atualmente a acusações de “dumping”, acirrada competição internacional e fortes pressões ambientalistas.

A presente escassez de Artemia no mercado mundial tem estimulado a exploração de novas fontes de cistos, principalmente na Ásia. Nesse contexto, biótopos como o Lago Urmia (Irã), por exemplo, podem vir a ter uma participação importante no futuro. Por outro lado, embora sem contribuir significativamente para o mercado global de cistos de Artemia, produções anuais entre 1 e 20 toneladas provenientes de cultivos em salinas nos EUA, Vietnã, Java (Indonésia), Chile, Colômbia, Peru, Madagascar, Índia, Paquistão, Tailândia, e Brasil, entre outros países, passarão a ter uma importância regional cada vez maior nos próximos anos.

Figura 1. Colheitas anuais de cistos de Artemia no Grande Lago Salgado (Utah, Estados Unidos) no período 1989 – 2003.
Figura 1. Colheitas anuais de cistos de Artemia no Grande Lago Salgado (Utah, Estados Unidos) no período 1989 – 2003.
Lavagem de cistos de Artemia
Lavagem de cistos de Artemia

As oscilações globais na produção de cistos de Artemia nos últimos anos, têm acelerado o desenvolvimento de novas estratégias de alimentação e reduzido o consumo de cistos nas larviculturas de peixes e camarões. Ademais, o aprimoramento (e barateamento) das dietas artificiais para larvas de peixes e camarões poderá compensar parcialmente a expansão do consumo de cistos de Artemia na próxima década, principalmente se os problemas de lixiviação de nutrientes e de digestibilidade das rações larvais hoje disponíveis no mercado forem resolvidos. Por sua vez, o mercado nacional de cistos de Artemia, da ordem de 15 toneladas, muito provavelmente continuará sendo abastecido por importações, já que as duas toneladas de cistos produzidas anualmente no Brasil representam cerca de 15% do consumo anual dos cultivos de Litopenaeus vannamei. É certo que a demanda por cistos de Artemia continuará crescendo à medida que se consolidem os cultivos das várias espécies de crustáceos e peixes em fase de pesquisa e desenvolvimento no Brasil.

Cistos de Artemia armazenados em salmoura
Cistos de Artemia armazenados em salmoura

Para a larvicultura de peixes marinhos como garoupas, meros, robalos e linguados, por exemplo, as necessidades de cistos para cada unidade de alevino produzida se situam em níveis 200 a 500 vezes superiores às estabelecidas para Litopenaeus vannamei. Em resumo, não há garantias de estabilização na produção mundial de cistos de Artemia a médio e curto prazos. No entanto, é razoável estimar que a demanda mundial por cistos de Artemia deverá manter-se em torno de 2.000 toneladas anuais na próxima década.

Mistérios na reprodução de Artemia

O microcrustáceo Artemia destina grande parte de sua energia para a produção de gametas e descendentes. A qualidade e o tipo do zigoto são particularmente importantes para a sobrevivência das populações, pois, dois modos de reprodução – encistamento ou produção de larvas – coexistem, e todas as linhagens de Artemia combinam essas estratégias reprodutivas em diferentes proporções.
O encistamento (oviparidade) é um mecanismo de sobrevivência relevante em populações de Artemia expostas a condições ambientais desfavoráveis. Assim, a produção de cistos ocorre em populações submetidas a um forte ciclo sazonal de temperatura (Grande Lago Salgado, Utah, EUA) ou salinidade (Fallon, Nevada, EUA). A produção de larvas (ovoviviparidade), por outro lado, é usualmente observada como o modo de reprodução dominante em fêmeas que habitam ecossistemas relativamente mais estáveis (Macau, Rio Grande do Norte, Brasil; Guerrero Negro, México).

Entre outros fatores também relacionados ao modo de reprodução em Artemia, estão a fecundidade das fêmeas, hipóxia, fotoperíodo, disponibilidade e tipo de alimento (microalgas), e estrutura genética das populações.

Estudos que procuram identificar complexos de genes vinculados à determinação das características reprodutivas das populações de Artemia mostraram que após a maturação em condições laboratoriais estandardizadas, fêmeas de varias linhagens bissexuais e partenogenéticas tenderam inicialmente a reproduzir-se por ovoviviparidade (produção de larvas) e, posteriormente, por oviparidade (encistamento). Outras observações indicaram que a inversão do modo de reprodução em Artemia não dependeria exclusivamente de fatores ambientais. Estudos de ecologia molecular recentes também sugerem que o encistamento está sob controle genético e correlacionado com os níveis de heterozigosidade encontrados nas fêmeas.

O microcrustáceo Artemia é encontrado nas salinas do Rio Grande do Norte em conseqüência de inoculações feitas em 1977 nas salinas de Macau com cistos provenientes da Baía de San Francisco (Califórnia, Estados Unidos). No entanto, apesar de uma ampla dispersão e de um crescente esforço extrativista, a produção de cistos declinou de 10 toneladas anuais ao final da década de 70 para cerca de 5 toneladas em meados dos anos 80, e finalmente, para aproximadamente 2 toneladas a partir dos anos 90. Uma menor produção de cistos de Artemia nas salinas do Rio Grande do Norte tem levado a um incremento no esforço de coleta. Se efetivamente o encistamento está sob controle genético e relacionado à heterozigosidade (variabilidade), tal sobrepesca acarretaria a remoção de genótipos predispostos à oviparidade e contribuiria para um declínio ainda maior na produção desse importante recurso natural no Brasil.

Secagem de cistos
Secagem de cistos
Cistos processados
Cistos processados
Produção controlada de cistos

Cultivar Artemia é cada vez mais importante como medida complementar para o aumento da disponibilidade de cistos e biomassa para uso na aqüicultura. Isso é particularmente evidente no sudeste da Ásia, onde os cultivos de Artemia foram inicialmente desenvolvidos em evaporadores de salinas na Tailândia e no Vietnã. As primeiras experimentações de cultivo no Vietnã, por exemplo, ocorreram em 1982, e atualmente, o delta do Mekong é fornecedor importante de cistos de Artemia de alta qualidade, com produção estimada em 6 a 8 toneladas anuais. Nos sistemas de produção vietnamitas, água hipersalina rica em microalgas é bombeada de uma lagoa comum de fertilização/evaporação para fornecer níveis apropriados de alimento e de salinidade (~80 ‰) nos viveiros de cultivo. Os viveiros são estocados com larvas de Artemia em densidades elevadas (~20 náuplios/litro) e controlados intensivamente (manipulação da produção primária e secundária; controle de predadores) até que a colheita seja necessária por conta da ausência de alimento ou por deterioração da qualidade da água. Em tais regimes intensivos de cultivo, os ciclos de produção se estendem por 5 a 6 semanas e os viveiros são drenados e estocados diversas vezes por ano.

As considerações acima ressaltam a importância e os desafios tecnológicos enfrentados pelo Projeto Artemia da Associação Brasileira de Criadores de Camarão (ABCC). Localizado no município de Grossos, no Rio Grande do Norte, a fazenda experimental tem como principal objetivo desenvolver técnicas básicas de cultivo semi-intensivo de Artemia no nordeste do Brasil. A fazenda consiste de uma área de fertilização/evaporação de 1,44 ha (2 viveiros de 0,72 ha), área de produção de 2,16 ha (3 viveiros de 0,72 ha), estação de bombeamento, canais de abastecimento e drenagem, laboratório e infra-estrutura de apoio.

Mancha de cistos de Artemia
Mancha de cistos de Artemia

Os dados da produção obtidos durante dez ciclos de cultivo realizados entre julho de 2001 e novembro de 2002 na fazenda experimental de Artemia são sumariados na Tabela 1. A produtividade é dada para cistos (peso seco) e biomassa (peso molhado) por ciclo realizado em viveiros de produção de 0,72 ha. Apesar dos procedimentos estandardizados de manejos empregados na fazenda experimental, a produção (kg/ha) e produtividade (g/ha/dia) dos viveiros oscilaram substancialmente nos dez ciclos monitorados. Os índices mais altos de produtividade foram obtidos nos ciclos realizados ao final de 2002 (A4, B3 e C3). Esses resultados podem ser creditados ao refinamento dos procedimentos de manejo empregados na fazenda, particularmente em termos da disponibilidade do alimento (microalgas) para as populações de Artemia.

Embora raramente a manipulação da composição algal tenha sido uma tarefa fácil, a combinação de proporções elevadas de Nitrogênio e Fósforo (5:1), dias ensolarados e níveis altos de salinidade (~80 ‰) proporcionou a mistura correta para estimular o crescimento de microalgas verdes (Dunaliella sp.). Os dados de produtividade de cistos e biomassa dos ciclos A4, B3 e C3 indicaram que uma população razoável de Artemia poderia ser sustentada. Tais níveis de produtividade são relativamente elevados em comparação com os resultados obtidos em sistemas similares de cultivos no sudeste da Ásia.

Nos cultivos experimentais realizados na fazenda de Artemia, o resultado da reprodução foi predominantemente de larvas (ovoviviparidade). A idade da primeira reprodução (maturação) variou entre 11 e 14 dias. A porcentagem da população que produzia larvas oscilou entre 62,58 e 70,17 %. Consequentemente, entre 37,42 e 29,83 % das fêmeas produziam cistos. A fecundidade média das fêmeas ovovivíparas variou entre 26 e 39 náuplios. Para a reprodução ovípara, a fecundidade média oscilou entre 24 e 38 cistos. A disponibilidade de alimento é positivamente correlacionada à fecundidade e também desempenha papel crucial no modo de reprodução, uma vez que a diminuição do fitoplâncton (entre outros agentes estressores ambientais) catalisa o encistamento. Nos ciclos de cultivos monitorados, a reduzida incidência de fêmeas ovíparas e a fecundidade relativamente baixa obtida estão em sintonia com os dados previamente relatados para populações de Artemia sob condições de escassa oferta de alimento, e confirmam que o suprimento adequado de microalgas é o fator limitante nos cultivos desse microcrustáceo, conforme relatos de experimentos realizados no Brasil e no exterior.

Em conclusão, as colheitas de cistos e biomassa obtidas na fazenda experimental de Artemia, particularmente nos ciclos A4, B3 e C3, demonstram um potencial de produção relativamente alto em sistemas de cultivo multifásico. Estudos adicionais para adaptar e refinar esse sistema às condições brasileiras são fortemente recomendados. Nesse contexto, o desenvolvimento de métodos para determinar quando os viveiros devem idealmente ser drenados auxiliará os produtores a maximizar a oferta de alimento e conseqüentemente, a aumentar a produtividade de cistos.

Tabela 1. Dados de produção obtidos em dez ciclos de cultivo executados em viveiros de 0.72 ha na fazenda experimental de Artemia (Grossos, RN). Produção (kg/ha) e produtividade (g/ha/dia) são expressas em peso seco para cistos e peso úmido para biomassa.
Tabela 1. Dados de produção obtidos em dez ciclos de cultivo executados em viveiros de 0.72 ha na fazenda experimental de Artemia (Grossos, RN). Produção (kg/ha) e produtividade (g/ha/dia) são expressas em peso seco para cistos e peso úmido para biomassa.
Suprimento de microalgas: fator limitante em cultivos de Artemia
Suprimento de microalgas: fator limitante em cultivos de Artemia