Clarias: Quem lê, até pensa…

Por: Jomar Carvalho Filho


Vale a pena reproduzir trechos da matéria que saiu no jornal O GLOBO de 27 de maio passado sob o título Bagre Africano ameaça peixes nativos do Brasil:

“A ASPAN – Associação Pernambucana de Defesa da Natureza está solicitando a Procuradoria da República em Pernambuco a instauração de inquérito para descobrir os responsáveis pela introdução clandestina no país do bagre africano Clarias gariepinus…”

“….o bagre africano é mais resistente que a maioria das espécies brasileiras…”

“…o IBAMA já admitiu, em resposta a um pedido de informação da ASPAN que o bagre africano pode provocar desequilíbrio no ecossistema…”

“…Como entrou no Brasil sem nenhum controle fitossanitário (sic) o peixe pode ainda introduzir novas doenças no país…”

“…estudos já demonstraram que 10% dos bagres criados em viveiros do Nordeste fugiram…”

“…Entre todas as espécies exóticas introduzidas no Brasil, o bagre africano é a mais perigosa.Se for disseminada nos nossos rios e açudes poderá ganhar todas as batalhas por alimento e espaço com as espécies nativas – adverte o Vice-presidente da ASPAN, Alexandre Araújo.”

Para melhor analisar as trechos destacados acima, procurei a ASPAN, organismo não-governamental de defesa do meio ambiente e, de fato foi confirmada a instauração de inquérito.

Luiz Fernando Guedes de Morais, da ASPAN, perguntado porque um tema tão técnico foi levado de forma sensacionalista à imprensa e tratado de forma leviana, respondeu: – O tema não foi levado a imprensa e sim a Procuradoria da República.

Então será que foi a assessoria de imprensa da Procuradoria da República que convocou os jornais e a TV?

À Alexandre Araújo, vice-presidente da ASPAN, perguntei sobre os estudos que levaram à denúncia de que o clarias é mais resistente que a maioria das espécies brasileiras. Ele respondeu: – nos 16 a 18 trabalhos vindos da USP que consultamos, alguns indicavam que o clarias é muito resistente a doenças.

Em sua resposta, não ficou claro se ser resistente a doenças significa ser mais resistente que a maioria das espécies brasileiras ou, se as espécies brasileiras não são resistentes a doenças.

Para mim ficou claro sim, que afirmações dessa natureza devem ser sempre acompanhadas de um estudo de campo comprovatório. O simples fato de um artigo científico consultado citar que o clarias é resistente a doenças não significa que ele é um super organismo capaz de utilizar essa sua qualidade evolutiva para dizimar peixes mundo afora.

Com relação a consulta feita ao IBAMA, que respondeu dizendo que o peixe pode provocar desequilíbrio ao sistema, nada mais óbvio e acadêmico. Os desmatamentos, os despejos químicos e domésticos, o garimpo, as construções de barragens, as construções legais e ilegais, a pesca predatória entre outras ações vem também sistematicamente provocando impactos e desequilíbrio nos rios. Muitas espécies já foram, por isso, dizimadas. Mas os piscicultores certamente não pensam em sair por aí introduzindo o clarias em rios e lagos. Mesmo porque nem o clarias suportaria tanto impacto já existente sobre esses ambientes. Pelo contrário, os piscicultores estão querendo é produzir um peixe com uma grande vocação para aqüicultura e que desde já está repondo proteína na mesa das pessoas, proteína esta que já está muito difícil para ser extraída dos nossos rios impactados (vide o preço dos pescados).

E o argumento de que…”entrou no Brasil sem nenhum controle fitossanitário…”. Bem, só falta dizerem que o monstro é capaz até de fazer fotossíntese, virar Hulk. Mas deve ter sido um erro da imprensa. Fitossanitário!?. Herrar é umano.

E sobre os estudos que demonstraram que 10% dos bagres do Nordeste já fugiram? Alexandre Araújo disse desconhecer. Mas isso foi amplamente divulgado, ora bolas. Ou então tem mais gente por ai querendo ver o clarias pelas costas? Alexandre disse apenas saber de um criador que teve seu viveiro rompido por fortes chuvas tendo os peixes escapados para o rio mais próximo. Perguntei então se já tinha visto ou conhecia alguém que já viu ao menos um clarias fugindo de viveiro. Ele respondeu que não. É curioso, mas eu também ainda não conheci ninguém que tenha visto sequer um clarias passeando fora do viveiro. Cá entre nós essa estória de que 10% já fugiu é dose, hem?.

Finalmente Alexandre Araújo falou ao jornal O GLOBO que o clarias vai ganhar todas as batalhas por alimento e espaço com as espécies nativas. Mais uma vez uma afirmação sem comprovação científica. Indagado se tinha conhecimento de algum estudo que comprovasse isso, a resposta também foi não. Quem então vai fazer este estudo? Sugiro que sejam ouvidos os muitos piscicultores que já sabem alguma coisa sobre isso, já que o policultivo muitas vezes ajuda a esclarecer relações sociais. Ou não?

ESPÉCIES EXÓTICAS

A questão da introdução de espécies exóticas é muito delicada. Ao menos na década de 70 o Boletín de Acuicultura da FAO registrava em todas as edições o intenso intercâmbio de espécies entre quase todos os países. A necessidade de produzir alimento sempre fez os homens levar daqui prá lá e de lá prá cá, acerolas, sojas, vacas, peixes e camarões.

O clarias está hoje sendo cultivado em diversos países europeus, com legislações muito mais rigorosas que as brasileiras. E não é só em sistema fechado não. Por que ninguém até agora lembrou de consultar a Itália por exemplo, que importa cerca de 250 t. anuais de Clarias gariepinus, vivos, só para colocar em seus pesque-pagues.

O Vice-presidente da ASPAN me disse que toda essa polêmica é porque as informações sobre o clarias são “frágeis, desconectadas e imprecisas”. Gol, Alexandre. Aliás as informações sobre os peixes próprios para cultivo no Brasil, naturais ou exóticos, são todas frágeis, desconectadas e imprecisas.

Agora, cá entre nós, se são assim tão imprecisas e frágeis, porque tratar desse assunto, com autoridade, no Jornal Nacional mostrando um clarias fora d’água se mexendo como se estivesse fugindo prá roubar galinhas.

Mas o que seria bom mesmo é que toda essa polêmica trouxesse de volta os pesquisadores aos seus postos.

E antes que eu me esqueça, dizer que quem cria clarias só pensa em lucros é meia verdade. A verdade inteira é que quem cria peixes, não só o clarias, pensa em lucros. Afinal a piscicultura é uma atividade comercial tão digna como qualquer outra.


Cultivo do clarias na Europa

A seguir um resumo do artigo Facts and Figures of the Farming Industry of African Catfish (Clarias gariepinus) in Europe – de Johan A.J. Verreth and Ep H. Eding apresentado no Workshop sobre peixes de água doce, na WAS ’93 em Torremolinos.

Existem 17 fazendas de Clarias gariepinus na Europa. Em 1992 foram produzidas 1.218 t. de clarias sendo 880 t. destas vindas das 13 fazendas holandesas onde as 8 principais fazendas são responsáveis por 815 t. A produção total de alevinos de clarias da Europa vem de duas fazendas que em 1992 produziram aproximadamente 1,5 milhões (exluindo-se a produção da Hungria) e os alevinos são vendidos quando atingem 5 a 15 g.

Existem seis plantas euopéias de processamento de clarias, quatro das quais são ligadas a fazendas de produção, sendo a filé o principal objetivo.

O Sistema de Cultivo – A maioria dos produtores usam sistemas de recirculação. Como os clarias são respiradores aéreos, é possível manter altas densidades de estocagem que chegam a 600 kg/m3 (peixe + água), mas a densidade usual é de 250 kg/m3. O tamanho preferível para o mercado é de 800 a 900 g, peso atingido após 6 meses de cultivo. Já que o peixe apresenta uma alta variação nas taxa de crescimento, os criadores são forçados a selecionar por tamnho quando estes alcançam 330g. Para os mercados que exigem peixes acima de 1,5 kg. é necessário uma outra seleção quando o clarias alcança 1,0 kg. Neste momento se revela uma sensíbilidade do peixe que deixa de se alimentar por vários dias após o manuseio.

Na Holanda, a taxa de conversão de 0.93:1, e as mortalidades não ultrapassam 20% durante a engorda.

Mercado – Os principais mercados para o Clarias são a Alemanha, Itália, Grã Bretanha e Holanda. Das 880 t. produzidas na Holanda, 500 t. são exportadas sendo 250 t. para pesque-paque italianos. O restante da produção vai para a Alemanha, UK , Suiça , Bélgica e Dinamarca. O peixe inteiro é vendido atualmente a 1.8 a 2.6 US$/kg. Os filés alcançam 6.3 a 7.8 US$/kg no atacado para o pescado fresco, e mais ou menos o dobro para o filé defumado. Uma vez que o peso do filé flutua em torno de 42%, o processamento aumenta a margem significamente. A maioria da produção alcança o consumidor como filé fresco.