CLARIAS

Muito ainda se tem falado a respeito do bagre africano (Clarias gariepinus). De um lado, alguns ambientalistas o descrevem como um grande inimigo da biodiversidade nativa, capaz de trazer sérios problemas a ictiofauna brasileira. Do outro, os aqüicultores, que o vêem como um peixe excelente para se cultivar, haja visto os resultados obtidos por quem o cultiva.

O fato é, que o Bagre africano já é brasileiro e toda discussão sobre a sua introdução deveria ter sido feita antes de 1986, ano em que foi introduzido no país. Atualmente, essa discussão se assemelha a algo como colocar o cadeado após a visita bem sucedida do ladrão. Mas, não é perda de tempo discutir os critérios normativos para as futuras introduções de espécies exóticas no Brasil, bem como o monitoramento do impacto das que aqui já habitam, como o próprio Clarias, entre tantas outras espécies.

RIO GRANDE DO SUL

O único estado brasileiro a impedir por vias legais a presença do Clarias foi o Rio Grande do Sul. Lá, a FEPAM – Fundação Estadual de Proteção Ambiental, orgão ligado a Secretaria Estadual do Meio Ambiente, publicou em 1º de dezembro de 1993, a portaria nº 18, que resolve proibir a introdução em ambientes naturais ou artificiais, cultivo, comercialização e o transporte de bagres africanos (peixes da Família Clariidea). E determinou que os produtores gaúchos que atualmente possuem o Clarias em viveiros, comercializem seus estoques ainda existentes, tomando precauções no que diz respeito a fugas para ambientes naturais.

A portaria não causou muito impacto entre os aqüicultores gaúchos que estavam ainda em fase de namoro com essa espécie. Alguns, como Armindo Poganski, acreditam que o Rio Grande do Sul não reúne de fato as condições ideais de cultivo, pois ele próprio, perdeu grande parte de seus peixes com uma queda brutal de temperatura ocorrida em sua propriedade. Segundo Armindo, ainda não havia sido feito nenhuma propagação artificial desse peixe no Rio Grande do Sul devido as condições climáticas, e todos os alevinos engordados foram provenientes de pós-larvas vindas da região Oeste do Paraná.

No parecer técnico da FEPAM que gerou a Portaria nº 18, elaborado pela oceanógrafa Janine Ferreira Haase, são citados trabalhos do Dr. Michael Courtnay, professor do Departamento de Zoologia da Florida Atlantic University em Boca Raton, que acompanha a repercussão da introdução do Clarias batrachus nos EUA .

Consultado pelo Panorama da AQÜICULTURA, o Dr. Courtney disse conhecer muito pouco sobre o bagre africano Clarias gariepinus, introduzido no Brasil. Destacou porém, que a única espécie de Clarias estabelecida como uma população reprodutiva nos EUA é o Clarias batrachus (ou bagre asiático, também conhecido como walking catfish ou bagre-que-anda). Disse que este peixe entrou nos EUA na década de 50 e desde o início da década de 60, quando possivelmente muitos exemplares escaparam para o ambiente natural, vem sendo formada uma população ativa reprodutivamente. Atualmente, esta população está restrita a metade inferior da península da Flórida e os exemplares isolados capturados na Georgia e na Califórnia, ainda não servem como evidência para comprovar o estabelecimento de populações nesses locais.

Indagado sobre os impactos causados pelo Clarias batrachus na Flórida, o Dr. Courtney respondeu que até o momento, não foi possível perceber nenhum dano causado pelos Clarias às populações nativas, bem como não existem evidências de que algum dano esteja ocorrendo.

Nossa atitude com respeito a utilização de peixes não nativos nos EUA – completou Courtney, atende a um largo espectro de interesses. Desde os aqüicultores e aquariofilistas que acham que devem ter permissões para importar e engordar quase todas as espécies, até ecologistas aflitos, que propõem o banimento de todas as importações. Temos que ser cautelosos pois, como sabemos, peixes escapam dos cultivos e, sob condições favoráveis, podem estabelecer-se nos ambientes naturais. Algumas espécies podem tornarem-se invasivas, deslocando peixes nativos, e outras não. Apenas baseado no que temos visto aqui na Flórida, não é possível dizer que o Clarias será seguro ou perigoso em águas brasileiras.

Dr. Courtney, que defende a não introdução de espécies exóticas, também desmente as informações a respeito de um muco venenoso nos Clarias, conforme informações divulgadas pela imprensa gaúcha.

HOLANDA

O Departamento de Piscicultura e Pesca da Universidade Agrícola de Wageningen na Holanda, fundado em 1975, é desde então o maior centro gerador de tecnologia de cultivo deste peixe. A indústria holandesa do bagre africano é forte e bem estruturada graças ao apoio desta instituição. Procurado pelo Panorama da AQÜICULTURA, o Dr. John Verreth, professor e pesquisador da Universidade, respondeu as seguintes perguntas:

Panorama – O Clarias é uma espécie agressiva, violenta e dominadora?

Verreth – Não, o Clarias gariepinus não é uma espécie agressiva e violenta, mas pode tornar-se. Tudo depende do ponto de vista. O Clarias exibe um claro comportamento canibalístico quando colocado em tanques ou viveiros. Há um bom artigo sobre canibalismo nesta espécie, escrito por Tom Hecht da Rhodes University da África do Sul, publicado no Journal of Zoology of London, em 1987 ou 1988. Nossos estudos provaram que o canibalismo é acentuado quando diferentes tamanhos são colocados juntos e quando há uma escassez de alimento. O Clarias é usado, por exemplo, como peixe predador no cultivo de tilápia na África, onde ele se alimenta de pequenos alevinos e, para evitar a predação das tilápias maiores, são utilizados Clarias pequenos nesta tarefa. Mas outras fontes já demonstram falhas na utilização do Clarias para este propósito. Sugiro que você consulte o trabalho do Bruton (1979) na Transactions of Zoological Society of London 35: 47-114.

Panorama – O Clarias é uma espécie que pode desalojar outras de seu nicho ecológico?

Verreth – Quem sabe? Essas coisas são imprevisíveis. Devemos é ter muita cautela ao transportar espécies de um lugar para outro. O impacto ecológico pode variar de lugar para lugar, dependendo da situação local. Eu não ficaria surpreso se o Clarias viesse a se tornar um transtorno, como da mesma forma, não me surpreenderia se seus efeitos fossem bem limitados. No meu ponto de vista, tudo é possível.

Panorama – O Clarias possui um bom valor de mercado na Europa?

Verreth – O preço depende da situação do mercado. Aqui na Holanda é bom, na África os preços são altos, assim como na Ásia. Na Holanda, 80% dos Clarias são exportados principalmente para a Alemanha e a Itália. O preço atualmente está em torno de US$ 2,5/kg e a margem de lucro tem sido muito pequena. Os europeus entretanto, querem um filé fresco, o que nos permite ainda concorrer em qualidade, com produtos importados de países distantes. Se isso mudar seremos engolidos pelos produtores da Ásia, que cultivam grandes áreas extensivamente a um custo baixo. Para mim o mercado lógico do Clarias produzido no Brasil é o EUA.

Panorama – Por ser fácil de manejar, ele é um bom candidato para a aqüicultura?

Verreth – Ele não é mais um candidato. Já é uma importante espécie da aqüicultura. A produção européia deve estar perto de 1.250 toneladas anuais, na África deve ser em torno disso e a Ásia deve estar produzindo cerca de 70.000 toneladas por ano de Clarias. Na Indonésia e na Tailândia eles mudaram do C. batrachus e macrocephalus para o C. gariepinus. Eu soube que somente na Tailândia foram vendidas 90.000 toneladas de rações para Clarias em 1993. Panorama – Ele é de fato resistente a doenças? Verreth – Dizem que é muito resistente a doenças, mas na verdade, pode facilmente cair doente. É preciso que se tenha muito cuidado com essas afirmações. Muitas doenças tem sido relatadas na engorda. A que mais se destaca é a infecção com Flexibacter columnaris. Existe ainda a “doença da cabeça quebrada” (broken head disease) e a “doença da ventre aberto” (open belly disease), ambas ocasionadas por problemas de nutrição.

Panorama – O cultivo do Clarias gariepinus possui uma tecnologia já comprovada com um pacote tecnológico?

Verreth – Pelo menos na Europa sim. Há um completo pacote tecnológico disponível.

Panorama – Quais as características favoráveis do peixe para o mercado?

Verreth – A cor da carne, sabor, textura, etc., são perfeitos. O filé de carne avermelhada após processado, possui cerca de 42% do peso inicial do peixe. Mesmo assim, a exemplo de outros peixes, eu somente investiria quando o mercado fosse totalmente conhecido e assegurado. Muitas pessoas iniciam um negócio porque o produto é bom e a produção é boa. Esquecem, entretanto, que esses peixes necessitam de serem vendidos. Você não vai vender peixe porque ele alcança um bom preço no mercado. Você vende peixe, quando comercializa uma tonelada por semana. Uma pergunta importante é: Os brasileiros são comedores de peixes?

CULTIVO NO BRASIL

A cada dia que passa, aumenta a popularidade do Clarias gariepinus entre os piscicultores brasileiros.

Certamente as qualidades da sua carne contribuem muito para isso. Os apreciadores da boa mesa, rasgam elogios a esse peixe, que fornece filés enormes ou postas generosas de carne saborosa e avermelhada, com uma textura adequada a uma variedade enorme de pratos. Além disso, o Clarias é um sucesso nos pesque-pagues. Bom para a pesca esportiva, o peixe se presta bem para o churrasco preparado ali mesmo, nos taludes dos viveiros, preparado pelos pescadores.

Mas a causa principal do grande sucesso desse bagre entre os piscicultores brasileiros, é a sua facilidade para converter alimento em carne de forma rápida e eficiente. Por outro lado, a rusticidade do bagre permite que mesmo com um manejo ruim, que é uma característica marcante na piscicultura nacional, se obtenha resultados ainda razoáveis.

ALEVINOS

A produção de alevinos de Clarias no Brasil, tem aumentado significativamente. A maioria das pisciculturas que produzem alevinos já propagam artificialmente o Clarias. A tecnologia utilizada nestes laboratórios brasileiros não costuma ser divulgada. A seguir, um resumo da tecnologia utilizada no laboratório da Blyde River Aquaculture, na África do Sul, onde alevinos desses peixes são produzidos em larga escala. Os reprodutores são geralmente animais de 1 a 3 kg, pois animais maiores podem dificultar o manejo. Nas fêmeas, são utilizadas as mesmas técnicas para de injeção de hormônios utilizadas para outros peixes e uma fêmea de 1 kg pode fornecer cerca de 80.000 ovos. É preciso sacrificar o macho e dissecar os testículos para obtenção do sêmen, que é colocado sobre os óvulos, para que sejam fecundados na presença da água. Os ovos ficam aderentes em poucos segundos após a fecundação.

É necessária habilidade para distribuir os ovos em uma única camada sobre bandejas colocadas no tanque de eclosão, que são feitas com armação, de madeira ou metal, e tela de mosquiteiro. O fluxo de água no tanque contendo os ovos deve ser de 1 litro/minuto e, a 28 ºC, a eclosão ocorre em 24 horas.

As larvas depois de eclodidas passam pelas malhas da tela. Ficam retidas as cascas dos ovos que devem ser retiradas após 28 horas para se evitar fungos. As larvas são transferidas para tanques, onde são incubadas na densidade de 100 larvas por litro, durante 10 a 12 dias, com fluxo de 2-3 litros/minuto a 28 ºC. Os sacos vitelínicos desaparecem 60 horas após a eclosão. Horas antes disso acontecer, já deve ser introduzida a alimentação, cuja fórmula pode variar, mas basicamente, é feita de carne de peixe bem triturada, fermento e premix vitamínico. Esse alimento, é particulado em peneiras com malhas de 100, 200, 350, 700 e 1200 µ. A alimentação, é feita de 2 em 2 horas, em temperaturas até 28 ºC e, de hora em hora, se a temperatura estiver acima. Uma vez por dia, são oferecidos microcrustáceos coletados em viveiros e, caso isso não seja possível, são ofertados náuplios de Artemia salina. Nesta fase, com bom manejo, a sobrevivência pode chegar a de 80%.

Após 10-12 dias, as larvas são transferidas para viveiros de terra bem adubados, para obtenção e alimentos naturais. São arraçoados com ração farelada, até que possam ser transferidos como alevinos, para viveiros de engorda.

PARANÁ

No Brasil, a engorda desses peixes tem sido feita utilizando-se alevinos de 2.5 a 10 cm, nos povoamentos iniciais. A densidade de peixes por m2, varia de 1 a 5 e o período de engorda, varia dependendo do local e da época do ano. São freqüentes os comentários de que são obtidos peixes de 1.5 kg, em 8 meses de engorda.

Mesmo em locais onde o inverno é mais acentuado os piscicultores estão engordando o bagre. Segundo o engº de pesca Taciano F. Maranhão, da SUREHMA – Toledo – PR, 90% dos piscicultores da região se dedicam também ao Clarias, que conta hoje com uma área de 120 ha a ele destinado. São comercializados peixes a partir de 650 g e, para ser comercializado na região, o bagre é eviscerado, dele é retirado o couro e a cabeça e são cortadas postas de 2 cm. O preço das postas é de US$ 3.5/kg e, caso seja comercializado inteiro, vendido a US$ 1.2/kg. Um quadro muito parecido se repete em outras regiões, onde a fama do peixe tem chegado.

PESQUISA

Não existem pesquisas no Brasil, dedicadas a este peixe. Entretanto, o engenheiro de pesca Modesto Guedes F. Júnior, gerente da Mar Doce do Nordeste Piscicultura e Projetos Ltda., acaba de finalizar seu curso de especialização em aquacultura na Universidade Federal Rural de Pernambuco, com um trabalho intitulado “Contribuição ao Estudo da Análise Bioeconômica do Cultivo Intensivo do Catfish Africano (Clarias gariepinus) associado a Curimatã pacu (Prochilodus argenteus) no Nordeste Brasileiro”. Neste estudo, Modesto propõe o cultivo em duas fases, sendo a primeira em viveiros berçários com 8 a 10 alevinos/m2 por quatro semanas, até que alcancem 14 cm de comprimento e 20 g de peso. Na segunda fase, a densidade passaria para 5/m2 e, ao fim de 105 dias, pode-se obter indivíduos de 600 g. Esta operação poderá ser repetida 3 vezes ao ano, com lucro/ha/ano de US$ 25.715. Modesto alerta também, para que sejam feitas pesquisas para a reversão sexual, visando a obtenção e introdução de indivíduos machos nos cultivos comerciais, em função de seu ganho de peso superior (11%) em relação as fêmeas, conforme seus resultados apontaram.