Coletores de sementes de mexilhão

A opção do mitilicultor catarinense para retomar o crescimento da produção

Por:
Jaime Fernando Ferreira (LMM-UFSC) – [email protected]
Francisco Manoel de Oliveira Neto (CEDAP-EPAGRI)
Adriano Cassiatore Marenzzi (UNIVALI)
Cláudio Turek (UNIVILLE)
Rafael Tiago da Silva (LMM-UFSC, PG AQI-UFSC)


Em Santa Catarina, o cultivo de mexilhões (Perna perna, Linnaeus,1758) aumentou de 150 toneladas/ano em 1991 para 12.000 toneladas/ano em 2000, tornando-se uma importante atividade, com forte impacto sócio-econômico em comunidades de pescadores artesanais. No início dos cultivos, os produtores recorreriam exclusivamente à raspagem dos costões rochosos para a obtenção de sementes (mexilhões juvenis). Segundo dados da EPAGRI, em 2002, passados dez anos de crescimento, a produção experimentou a primeira queda, tendo sido contabilizadas 10.000 toneladas naquele ano. Isto se deu devido ao aumento de controle por parte das autoridades ambientais e da limitada oferta de sementes, em função do grande aumento do número de mitilicultores, bem como da produção nos anos anteriores.

A falta de fontes alternativas de sementes restringiram o crescimento da atividade além das 10.000 ton/ano, já que a recuperação de estoques naturais de mexilhões em costões é um processo lento, que envolve a interação de diversos organismos, podendo demorar de 8 a 10 anos. As alternativas tecnológicas seriam a produção de sementes em laboratório ou o uso de coletores de sementes. Optou-se pela instalação dos coletores em diversas comunidades catarinenses e, como resultado, em 2005 já foi possível reconquistar o volume de 12.000 toneladas.
A larvicultura em laboratório para a produção de sementes de mexilhão, é utilizada em alguns países como alternativa para garantir a produção em locais com captação irregular, para a reprodução de espécies exóticas ou, quando se pretende realizar seleção genética. No entanto, é uma produção dispendiosa, ainda mais se considerarmos espécies nativas que apresentam amplos estoques naturais, como é o caso do mexilhão Perna perna, no Brasil. Sendo assim, o uso de coletores é a alternativa mais sustentável do ponto de vista ambiental e econômico. Além disso, o uso de coletores elimina os riscos e perigos de acidentes associados à coleta nos costões, que são áreas expostas ao forte batimento de ondas.

A utilização de coletores, no entanto, é uma prática difícil de aplicar no início de cultivos artesanais, principalmente em comunidades pesqueiras, tipicamente extrativistas. O Perna perna é uma espécie que começou a ser cultivada recentemente carecendo, portanto, de informações básicas sobre diversos aspectos biológicos relacionandos à ocorrência de desovas, dispersão, transporte de larvas e assentamento de pós-larvas no ambiente marinho. Faltam também informações sobre as desovas em diferentes áreas de cultivo, sobre os melhores materiais a serem empregados para a captação de sementes, sobre as melhores épocas e locais para instalação dos coletores e sobre a quantidade de sementes que podem ser obtidas por metro linear de coletor.

Outro problema de aplicação dessa tecnologia pode ser a demora na obtenção das sementes, já que os coletores devem ser colocados cerca de um mês antes da desova, devendo permanecer na água até que as sementes atinjam pelo menos 2 cm (Foto 1), o que pode levar de 4 a 6 meses. Além disso, a irregularidade na captação, provocada por variações nas condições climáticas, pode causar dificuldades quanto às quantidades de sementes obtidas. No caso do Perna perna, que tem desovas ao longo de todo o ano dependente das variações de temperatura, a irregularidade de produção é ainda maior já que, não ocorre concentração de sementes em um único período. Isso faz com que seja necessário um acompanhamento constante, ano a ano, por parte do produtor, para determinar a época correta de colocação dos coletores.

Foto 1- (A) Aspecto de pré-sementes de 600 a 1000 µm e (B) sementes de 2 a 3 cm do mexilhão Perna perna
Foto 1- (A) Aspecto de pré-sementes de 600 a 1000 µm e (B) sementes de 2 a 3 cm do mexilhão Perna perna
Tipos de coletores

Os coletores de sementes de mexilhão devem sempre apresentar uma região filamentosa (onde se fixam as larvas para metamorfose), com uma base mais sólida (onde ocorre a fixação definitiva). Em diversos países, para baratear os custos, os coletores são montados com materiais reutilizáveis, principalmente materiais sintéticos como polipropileno e polietileno, que podem ser reutilizados por vários anos. Usa-se também cordas ou trançados de fibras vegetais (não reutilizáveis) bem como são aproveitadas redes de pesca descartadas da pesca artesanal e da pesca industrial.

Foto 2- Aspecto geral dos coletores em teste: a- industrial tipo árvore de Natal (Itacordas);  b- artesanal de cabo de polietileno recoberto com rede monofilamento;  c- artesanal de rede de pesca multifilamento trançada;  d- industrial de cabo de polietileno desfiado (BlueWater);  e- industrial tipo árvore de Natal (Mazzaferro).
Foto 2- Aspecto geral dos coletores em teste: a- industrial tipo árvore de Natal (Itacordas);  b- artesanal de cabo de polietileno recoberto com rede monofilamento;  c- artesanal de rede de pesca multifilamento trançada;  d- industrial de cabo de polietileno desfiado (BlueWater);  e- industrial tipo árvore de Natal (Mazzaferro).

Em Santa Catarina, por orientação dos órgãos de pesquisa e extensão e por iniciativas próprias dos produtores, têm sido utilizados coletores (Foto 2) de polietileno filamentosos tipo “árvore de natal”; de polietileno desfiado; trança de redes de pesca multifilamento e cabos de polietileno envoltos em redes de pesca monofilamento.

Locais de colocação

De maneira geral, os locais de boa captação são determinados empiricamente (por tentativa e erro) ou, com base em informações locais sobre a existência de fixação de sementes em bóias e outras estruturas próximas às áreas de cultivo. Raramente são encontrados coletores distantes de áreas de cultivo (engorda), mesmo porque, a proximidade de indivíduos adultos facilita a fixação.

Foto 3- (A) Sistema de colocação de coletores em espinhel duplo com flutuadores de PVC
Foto 3- (A) Sistema de colocação de coletores em espinhel duplo com flutuadores de PVC
Foto 3- (B) Sistema de coletor longo, confeccionado com um coletor sustentado por flutuadores individuais de plástico
Foto 3- (B) Sistema de coletor longo, confeccionado com um coletor sustentado por flutuadores individuais de plástico

Da mesma forma, é rara a colocação de coletores próximo aos estoques naturais, devido à exposição ao batimento de ondas, que dificulta a sua instalação e manutenção.

A captação ocorre em diferentes profundidades, dependendo das características geográficas, hidrodinâmicas e da biologia da espécie a ser cultivada. No caso de Santa Catarina, diversos experimentos têm mostrado, para Perna perna, preferência de captação nos primeiros 50 cm a partir da superfície do mar. Em Santa Catarina a colocação dos coletores tem sido feita em paralelo à superfície, em sistemas de espinhéis duplos ou de PVC, ou em sistemas de linhas únicas formadas pelos próprios coletores e sustentadas com flutuadores individuais (Foto 3).
Esses mesmos coletores podem ser utilizados de várias outras formas, tais como enrolados em estruturas de quadros ou pendurados em espinhéis duplos de cultivo (como na Nova Zelândia), pendurados em balsas ou espinhéis simples de cultivo (como no Chile, Espanha e Canadá), ou colocados em áreas mais rasas, próximas a áreas de cultivo em sistemas de mesas ou estacas (como na França). A partir dessas idéias básicas, os produtores desenvolvem outras, adaptadas às condições locais de cultivo.

Avaliação dos coletores

O coletor do tipo árvore de Natal com grande área filamentosa, tem se mostrado compacto e leve, proporcionando um aumento substancial da área disponível para assentamento por metro linear de coletor. Esse modelo tem mostrado excelentes resultados em outras partes do mundo. Em Santa Catarina, esse tipo de coletor (fabricado por empresas brasileiras) tem se mostrado muito eficiente na captação de larvas durante a fase de metamorfose, mantendo indivíduos até aproximadamente 1cm de comprimento. Nesses coletores tem sido possível a captação de mais de 2.000 indivíduos por metro linear. Devido a problemas de confecção, no entanto, ainda não se atingiu boa manutenção de mexilhões até a fase de 2 a 3 cm, e apresentam baixa durabilidade (deteriorando-se com 6 meses no mar) e pouco reaproveitamento, se comparados como os do mesmo tipo, confeccionados no exterior.

Os coletores de cabo de polietileno desfiados, apresentam captação baixa, mas podem manter os animais até a fase de semente, com boa durabilidade, boa taxa de reaproveitamento e facilidade de retirada das sementes.

Os coletores de cabo de polietileno envoltos por redes de pesca monofilamento apresentam-se com boa captação e manutenção de sementes, sendo de fácil retirada das mesmas mas, tendo necessidade de serem parcialmente refeitos quando forem reutilizados.
Os coletores de tranças de rede multifilamento apresentam boa captação, com excelente taxa de manutenção de animais até a fase de semente (2 a 3 cm) e ótima taxa de reaproveitamento. No entanto, apresentam mais dificuldade de retirada de sementes pequenas quando a captação for baixa.

Assim, são bons para retirada de sementes pequenas quando ocorre grande fixação (de 500 a 1.000 indivíduos por metro) (Foto 4 A) mas, em fixações menores (Foto 4 B), têm que ser mantidos na água até que os mexilhões atinjam cerca de 5 a 6 cm, para o desdobre. Podem ser utilizados em baixas fixações (menos de 500 indivíduos por metro linear) como cordas definitivas, deixando-se os animais crescerem diretamente no coletor até a fase de colheita (Foto 5).


Foto 4 – Aspecto de coletor de rede trançada com alta fixação (à esquerda) e, com baixa fixação (à direita)


Foto 5 – Aspecto de coletor de rede multifilamento trançada em início de colocação (à esquerda), e ao final de seis meses no mar (à direita)

Características do Ciclo Sexual

O mexilhão Perna perna é considerado uma espécie estritamente dióica (órgãos reprodutores masculinos e femininos em indivíduos distintos, unissexuais), que inicia a maturação já com 2 cm, com a primeira desova em torno de 5 cm.

Não há descrição de dimorfismo sexual externo, de forma que machos e fêmeas não podem ser, até o presente, distintos por características externas. No entanto, após a abertura das conchas, a separação entre machos e fêmeas é possível graças à diferença de coloração dos tecidos gônádicos dos animais sexualmente maduros. Nos machos esses tecidos apresentam coloração branco-leitosa e, nas fêmeas vermelho-alaranjado.

Através da observação macroscópica e estudos microscópicos do tecido reprodutivo de animais maduros sexualmente, caracterizam-se os estádios do ciclo sexual (*) (Foto 6), resumidos a seguir:

Estádio IIIA – Manto bastante espesso, com os folículos totalmente repletos de gametas. Nessa fase os animais reagem facilmente a alterações de fatores abióticos do ambiente (como temperatura e salinidade), com a eliminação de gametas. De forma prática, o tecido gonádico fica com aspecto muito homogêneo, não sendo possível visualizar os canais gonádicos; ao se seccionar o animal ou o próprio tecido, ocorre a liberação imediata de grande quantidade de fluido gonádico. É possível, em alguns casos, a visualização de aspecto floculado, principalmente nas fêmeas, que representam os folículos em máximo desenvolvimento. Esse é o animal conhecido na prática como “gordo”.

Estádio IIIB – Fase em que os folículos encontram-se parcial ou totalmente vazios. Manto pouco espesso e, de acordo com o grau de esvaziamento, pode tornar-se até completamente transparente. É o animal “magro”.

Estádio IIIC – Fase de gametogênese, havendo a restauração dos folículos. Os animais apresentam as cores típicas para cada sexo, porém mais atenuadas do que em IIIA. De forma prática, a definição dessa etapa é caracterizada pela presença de tubulações gonádicais (canais) evidentes e a não eliminação de fluido após secção do tecido. Além disso, pode ocorrer a presença de grumos esbranquiçados, mais evidentes nas fêmeas, representando fase de acúmulo de glicogênio.


(*) Primeiramente descritos por João Edmundo Lunetta em 1969 – Bol. Zool. e Bio. Mar., v26, p. 33-111

 

Foto 6 - Estádio IIIA do ciclo sexual em mexilhões Perna perna  sexualmente maduros, apresentando animais completamente  cheios (repleção do tecido reprodutivo). (acima) fêmea e (abaixo) macho
Foto 6 – Estádio IIIA do ciclo sexual em mexilhões Perna perna  sexualmente maduros, apresentando animais completamente  cheios (repleção do tecido reprodutivo). (acima) fêmea e (abaixo) macho
Foto 6 - Estádio IIIA do ciclo sexual em mexilhões Perna perna sexualmente maduros, apresentando animais completamente cheios (repleção do tecido reprodutivo). (A) fêmea e (B) macho
Foto 6 – Estádio IIIA do ciclo sexual em mexilhões Perna perna sexualmente maduros, apresentando animais completamente cheios (repleção do tecido reprodutivo). (A) fêmea e (B) macho
Acompanhamento do ciclo

Para uma boa eficiência de captação de sementes com coletores em ambiente natural é fundamental o acompanhamento do ciclo sexual. O ciclo reprodutivo de moluscos pode ser identificado, principalmente, através de observações de desovas no ambiente natural ou em laboratório, acompanhamento do desenvolvimento do tecido gonádico (macro e microscópico), fixação de larvas no ambiente natural e presença de larvas na coluna d’água. Esse ciclo envolve processos de crescimento (folicular e gamético), maturação dos gametas, desova e recuperação (gametogênese). O ciclo varia muito dependendo da espécie e, para uma mesma espécie, dependendo das variações climáticas, em particular da temperatura .

Várias são as formas de acompanhamento do ciclo. Algumas dependentes de análise de laboratório, rápidas ou demoradas, enquanto outras podem ser feitas na prática, com simples observação ou com medições realizadas com instrumentos disponíveis a qualquer maricultor.
As formas de laboratório podem envolver análises demoradas de histologia (aspecto microscópico do tecido reprodutivo) ou mais simples, de determinação de “Índice de Condição” (relação do espaço que a carne ocupa dentro da concha).

Para as formas mais simples, basta a observação macroscópica como descrita no item anterior e a porcentagem de carne cozida em relação ao peso total (medida geralmente utilizada pela indústria de processamento).

Em diversos experimentos para Perna perna em Santa Catarina, determinamos que existe grande grau de coincidência entre essas diversas formas de avaliação, ao longo do ano (no gráfico à direita). Assim, quando os animais apresentam tecidos reprodutivos com uma determinada característica morfológica, também seguem o aspecto macroscópico apresentado no ítem anterior, um “Índice de Condição” compatível e, porcentagem de carne equivalente.

Época de colocação de coletores

Para um acompanhamento prático da época de colocação de coletores é fundamental o acompanhamento da temperatura do local de cultivo como forma de avaliar as possíveis épocas de desovas. De forma geral, aumentos ou quedas bruscas (de 3 a 5 graus) de temperatura em curto espaço de tempo (em um dia ou poucos dias) são o gatilho para a desova do Perna perna. O acompanhamento da temperatura pode ser feita com um termômetro simples com variação de 0 a 50 oC.

Como forma de acompanhar de forma simplificada o desenvolvimento do ciclo sexual ao nível de produtor, pode ser utilizado a metodologia descrita abaixo :

1– Acompanhamento quinzenal ou semanal da variação de porcentagem de carne cozida em relação ao peso total fresco com concha.
a- Utilizar aproximadamente 30 mexilhões (cerca de 1 kg) adultos (7 – 8 cm), coletados ao acaso na área de cultivo;
b- Limpar, cortar o bisso, secar a concha com papel e pesar o conjunto em balança (pode ser em balança de cozinha simples);
c- cozinhar em água (suficiente para cobrir os animais) por cerca de 5 minutos após a fervura (assegurar que todos tenham aberto e estejam cozidos);
d- pesar o conjunto da carne cozida;
e- obter a porcentagem (%) de carne cozida em relação ao peso total com o cálculo:

2– Acompanhamento diário da temperatura do mar na área de cultivo com termômetro simples de 0 a 50oC. As medidas devem ser sempre tomadas em uma mesma hora (por exemplo, sempre às 10:00 horas da manhã).

3– Acompanhar o aspecto macroscópico do tecido reprodutivo em cerca de 30 animais (de 7 a 8 cm) a cada semana ou, pelo menos, a cada quinze dias, registrando o grau de maturação (vazio, intermediário ou cheio).
Assim que for percebida mudança de animais vazios passando a intermediários e cheios, seguida de porcentagem de carne variando de 20 a 25 % e a temperatura começar a aumentar, é a época que precede a desova e, portanto, hora de colocação dos coletores no mar.

Exemplo de comportamento do ciclo sexual de mexilhões Perna perna,  para uma mesma área, avaliado por diferentes metodologias
Exemplo de comportamento do ciclo sexual de mexilhões Perna perna,  para uma mesma área, avaliado por diferentes metodologias
Análise Final

Em Santa Catarina essas características acontecem, de forma geral, em vários períodos do ano como de abril para maio; julho; fim de setembro; fim de novembro e, de fim de dezembro a início de fevereiro. Potencialmente todos esses períodos seriam bons para colocar coletores, mas, em função da temperatura (alta no verão), menor predação das sementes por peixes, maior período de captação seguida, o melhor período para colocação dos coletores tem sido do final de agosto ao início de novembro, de forma escalonada (um pouco de coletor de cada vez ao longo desse período). Isso tem permitido a obtenção de sementes prontas para engorda (2 a 3 cm) de fevereiro a maio.