Como Anda o Cultivo de Camarão Marinho no Brasil?

Por: Ana Carolina de Barros Guerrelhas – Bióloga Aquatec Ltda.


A história do cultivo de camarão marinho no Brasil até 1991 já é bem conhecida, tendo sido contada e recontada várias vêzes. De 1992 para cá o quadro mudou substancialmente, pela mudança a nível geral para a espécie P. vannamei, espécie exótica proveniente do Pacífico, ao invés das nossas espécies nativas, P. subtilis e P. schmitti .

Saliente-se que a primeira já vem sendo utilizada na Bahia em escala comercial desde 1983 e as nativas, ainda são usadas em alguns estados.

À seguir, algumas mudanças que ocorreram em decorrência da utilização desta nova espécie:

Larviculturas – em 1991 dispunhamos de oito laboratórios em produção no país com capacidade para 50.000.000 Pls/mês, embora a produção real fôsse 60% deste montante. Hoje, dez larviculturas tem capacidade para produzir juntas 120.000.000 Pls/mes, com uma produção média mensal de 80.000.000 Pls/mes. Deste total 80% são da espécie P. vannamei.

Fazendas – em 1991 havia cerca de 1.800 ha de fazendas de engorda usando densidades de estocagem de 1 a 4/m² e produtividades de 200-600 kg/ha/ano, exceto as fazendas da Bahia, já com 6 a 8/m². Em 1995, cerca de 2.500 ha das fazendas operam com densidades de estocagem de 4 a 15/m² obtendo resultados de 500-2.500 kg/ha/ano. Da produção total de camarão cerca de 80% também são da espécie do Pacífico.

Fábricas de ração – das seis fábricas que não produziam ração específica para as espécies de camarão usadas na época, passamos para três fábricas que cada vez mais se aperfeiçoam na produção de um balanceado específico para P. vannamei além de já estarem desenvolvendo dietas para as espécies nativas.
– Nível Tecnológico – em três anos o conhecimento tecnológico evoluiu muito no Brasil, graças ao universo de informações, estudos e pesquisas existentes em outros países para a espécie P. vannamei. No tocante à larvicultura, podemos dizer que o nível atual de manejo é comparável aos melhores laboratórios do mundo. A tecnologia de engorda também cresceu, embora necessite ainda de mais experimentações e conclusões.

Mão-de-obra – é interessante salientar que apesar do crescimento do setor, a capacitação de recursos humanos não ocorreu na mesma intensidade. A mão-de-obra responsável pelo avanço neste período é mais capacitada porém não parece que a quantidade aumentou na mesma proporção; sem dúvida alguma temos mais qualidade hoje, mas não quantidade. E agora, para onde vamos? Para tentar responder esta questão se faz necessário uma consideração dos problemas que vimos enfrentando.

Plantel de reprodutores de P. vannamei – até o momento é necessário importar as matrizes adultas selvagens desta espécie ou os náuplios para se produzir as pós-larvas. No caso do Brasil, que é o país mais distante do centro fornecedor destes insumos, por vêzes é difícil se conseguir a quantidade e qualidade pedida na época devida, e isto acarreta interrupções na produção de náuplios e pós-larvas. Muitas vêzes esta dificuldade é devida à falta de espaço nas empresas aéreas nacionais, ou devido as poucas alternativas de rotas para os aeroportos pequenos. Para o Brasil, o transporte se torna tão longo (até 50 hs) que a sobrevivência na chegada é baixa, acarretando prejuízos.

Poliquetas – este insumo, também importado, é de vital importância no processo de reprodução desta espécie. Os estoques naturais nos países onde há a atividade extrativa, estão reduzindo devido ao aparecimento de novos laboratórios, conseqüentemente, a disponibilidade para compra hoje é menor e o preço mais alto.

Cisto de Artemia – este insumo que também depende de importação, foi de fácil obtenção e barato até 1993-94. Desde então, pela fraca colheita no Great Salt Lake (principal fonte de cistos) em 1994-95, o preço aumentou cerca de 4-5 vêzes e a qualidade do cisto disponível no mercado caiu.

Doenças – sendo P. vannamei uma espécie explorada há tantos anos em outros países e bem estudada, temos conhecimento dos inúmeros problemas com doenças, muitos já solucionados e outros ainda em fase de busca da solução (Síndrome de Taura e Yellow head Disease, por exemplo). Os produtores brasileiros se preocupam muito neste sentido pois dependem da importação de vários insumos e não dispõem de um suporte de pesquisa nesta área que possa auxiliar na identificação de possíveis problemas. Neste sentido, tentamos realizar trabalhos específicos enviando amostras de larvas e camarões adultos para laboratórios de patologia de camarão nos USA, quando nos deparamos com baixas sobrevivências.

Pesquisa – é lamentável, mas a pesquisa nacional nesta área parece ficar cada vez mais ausente do desenvolvimento do setor. As empresas tem que investir cada vez mais em suas pesquisas aplicadas e os Centros de Pesquisa ficam mais distantes dos setores de produção. O que possibilita o desenvolvimento desta espécie no Brasil é o acesso ao acervo de pesquisas, trabalhos publicados, consultorias técnicas, congressos e reuniões que ocorrem todos os anos em diversos países com a participação bastante ativa de pesquisadores e produtores.

Espaço aéreo – pelo exposto acima fica claro que a atividade em questão depende muitas vêzes do transporte aéreo, seja para a recepção de insumos, ou mesmo para distribuir o camarão de tamanho comercial e as pós-larvas para algumas regiões mais distantes. O que se nota é que parece difícil e algumas vêzes impossível se usar este meio de transporte pela falta de espaço nas aeronaves das linhas nacionais e inexistência de um programa de rotas variadas para os diferentes estados do Brasil. No caso de náuplios, pós-larvas e reprodutores vivos, o transporte aéreo é primordial pela economia de tempo e possibilidade de importação de outros países.

Para concluir, ainda é muito cedo para dizer “para onde vamos”. O exemplo concreto de algumas empresas mostra que existe uma mentalidade diferente hoje no setor, cuja intenção e esforços estão voltados para viabilizar mais a atividade. Por exemplo:

– a Aquatec Ltda, em operação desde 1989, aumentou sua produção de 35.000.000 Pls/ano em 1990 para 165.000.000 Pls/ano em 1994. Atualmente, está adequando e ampliando a estação de tratamento de água salgada, investindo em pesquisa para formação de plantel de reprodutores em viveiros de reprodução, e organizando um trabalho de patologia para melhor detecção das doenças específicas de larvicultura. Estes trabalhos visam em última análise garantir constância de fornecimento de pós-larvas ao longo do ano e qualidade do produto, bem como diminuir a dependência de importação de tantos insumos.

– A Camanor Ltda, fazenda de engorda em produção desde 1983, triplicou sua produção de 1993 para cá. Recentemente, foi afetada por uma série de ciclos com sobrevivências bem baixas, o que naturalmente causou prejuízos. Pelo acesso às informações existentes, consultoria específica e um trabalho bastante rigoroso no manejo da fazenda por cerca de seis meses, vem obtendo seus primeiros resultados positivos mostrando sinais de volta à produção normal.

– Em maio deste ano, a Aquatec Ltda, a Marine S/A, a Tecnarão e a Aquamaris S/A se reuniram num programa conjunto e trouxeram um especialista em patologia dos USA, Dr James Brock, para avaliação de cada empresa e um treinamento geral. Em abril, a Aquatec, a Marine, a Tecnarão e a Sibra mais uma vez se reuniram para encomendar um estudo sobre as possibilidades de transporte aéreo, seja por linhas comerciais ou específicas para carga.

Estes poucos exemplos mostram que a atividade hoje está mais madura e profissional, e mais preparada para transformar os problemas que aparecem em resultados frutíferos.