Como Andam as Contas da sua Piscicultura ? Parte 2 – Final

Por: Eng° Agr° Fernando Kubitza (Ph. D.) Especialista em Nutrição e Produção de Peixes – ACQUA & IMAGEM – Jundiaí, SP
Eng° Agr° Sérgio A. Tatizana (M.Sc.) Mestre em Economia Agrícola – Divisão de Economia da Tecnologia da COPERSUCAR – Piracicaba, SP
Eng° Agr° Armando Vaz Sampaio (M.Sc.) Mestre em Economia Agrícola – Prof. do Depto. de Economia da UNIV. FEDERAL DO PARANÁ – Curitiba, PR


Finalizamos a primeira parte deste artigo publicada em nossa última edição com questões como: 1) Compensa produzir os próprios alevinos ou adquirí-los fora da propriedade? E a que preço?; 2) Vale a pena disponibilizar área da piscicultura para produzir os alevinões ou compensaria obtê-los prontos de terceiros? 3) Qual é o custo de produção por quilo de cada uma das espécies cultivadas na minha propriedade? 4) Vale a pena aumentar a produção de uma espécie em detrimento da redução na área ocupada por outra. 5) Quais espécies proporcionam maiores lucros por unidade de área de cultivo? Responder a essas perguntas exige um razoável controle das despesas específicas em cada setor ou unidade de produção, bem como a definição de como será feito o rateio das despesas coletivas entre os diversos setores e/ou unidades de produção. Por exemplo: o rateio entre os setores pode ser proporcional à área total de viveiros ou tanques de cada setor. Outra possibilidade seria ratear os custos os viveiros, proporcionalmente a área de cada um deles. Por exemplo: a Piscicultura Rio Seco possui 21,16 hectares de viveiros em uso. Se o viveiro de engorda E-5 possui 1 hectare, este deveria arcar com (1/21,16) x 100, ou seja 4,73% das despesas gerais da piscicultura (Classes de 5 a 12).

A Piscicultura Rio Seco produz pacus de 2 quilos e tilápia-do-Nilo de 0,8 quilos. Estes peixes são comercializados junto aos pesque-pagues, a R$ 1,80/kg FOB, e também para comerciantes num varejão municipal e alguns supermercados a R$ 1,60/kg. A ração de recria e engorda é adquirida ao preço de R$ 0,50/kg. As rações de alevinagem e reversão a R$ 0,72/kg (sem contar álcool, hormônio e premix). Os alevinos de pacu são adquiridos de terceiros e os alevinos revertidos de tilápia são produzidos no setor de reprodução, larvicultura e alevinagem da piscicultura. A piscicultura é dividida em 4 setores: 1) Reprodução e Reversão Sexual (0,76% da área útil); 2) Alevinagem (2,36%); 3) Recria (23,63%); e 4) Engorda (73,25%). Vamos então tentar responder as questões levantadas na primeira parte deste artigo.

1. Vale a pena produzir os próprios alevinos de tilápia?

Para responder esta questão, consultamos os dados disponíveis sobre o setor de reprodução e reversão sexual de tilápias. Na última safra foram produzidos 250 mil alevinos revertidos, que foram comprados pelo setor de recria da mesma piscicultura. As despesas com a aquisição de reprodutores, alimentos e aditivos (ração para reprodutores e reversão, hormônio, álcool, premix vitamínico, vitamina C, entre outros), corretivos e fertilizantes e outros insumos de produção foram organizadas. As despesas anuais referentes às Classes 5 a 12 foram debitadas ao setor de reprodução em função do percentual de 0,76% da área que o setor ocupa dentro da piscicultura. Assim foi possível fazer um balanço anual da produção de alevinos revertidos de tilápia, conforme resumido na Tabela 6.

O custo de produção dos alevinos de tilápia foi R$ 14,53/mil. Considerando os atuais preços de mercado entre R$ 40 a 75/milheiro, valeu a pena produzir os próprios alevinos na piscicultura. Considerando o preço de venda de R$ 40/mil alevinos para o setor de recria, o setor de reprodução e reversão sexual lucrou R$ 6.367 na última safra, ou seja, quase R$ 40.000/ha/ano. Vale, até mesmo, um esforço em avaliar a demanda de mercado por alevinos de tilápia e, se o piscicultor julgar interessante, entrar neste mercado na próxima safra, aumentando a área de reprodução e reversão sexual.

2.Havendo alevinões de tilápia disponíveis no mercado, a que preço valeria a pena comprá-los?

Para responder esta questão é preciso conhecer o custo da alevinagem. Para tanto é preciso organizar os custos e receitas por setor e espécie, ou então avaliar o desempenho econômico de alguns viveiros envolvidos na alevinagem. Na Tabela 7 segue um exemplo de controle de custos e receitas para o viveiro A-3 usado para alevinagem de tilápias.

Partindo de alevinos de 1g, vindos do setor de reprodução ou de terceiros ao preço de R$ 40,00/mil, o custo de produção do juvenil de tilápia de 30g no viveiro A-3 foi de R$ 88,77/mil. A um preço igual ou inferior a este compensaria adquirir juvenis de tilápia de terceiros com qualidade compatível aos produzidos na piscicultura. Mesmo a um custo ligeiramente superior pode valer a pena, visto que a atual área de alevinagem poderia ser destinada a outro uso, por exemplo, reprodução e reversão sexual de tilápias para vendas externas de alevinos, com lucro anual de R$ 40.000/ha contra os R$ 20.090/ha na alevinagem até 30g. Análise semelhante a esta deve ser feita para a alevinagem do pacu.

3.Tilápia ou pacu: qual deles proporciona a maior receita líquida por área de cultivo na piscicultura em questão?

Nas Tabelas 8 e 9 são apresentadas as análises econômicas dos viveiros E-5 e E-3, utilizados nas fase final de produção de tilápias e pacus, respectivamente.

O preço de venda na fazenda foi de R$ 1,80/kg para pesque-pague e R$ 1,60/kg para mesa. O custo dos juvenis de tilápia (200g) e pacu (650g) utilizados na fase de engorda foi o custo acumulado de produção dos mesmos na fazenda, a partir de alevinos de 1 g de tilápia a um preço de R$ 40/mil e de pacu a R$ 60/mil.

Piscicultura Rio Seco, na última fase de produção, a tilápia apresentou um retorno líquido de R$6.422/ha/ano contra os R$2.360/ha/ano obtidos com o pacu. A última fase ocupa cerca de 78% da área destinada à produção de tilápia e 68% da área destinada à produção de pacu. Se considerarmos a área total destinada a cada espécie, a lucratividade da tilápia se reduz para R$ 5.000/ha e a do pacu para R$ 1.600/ha/ano. No exemplo apresentado, a diferença de produtividade foi de 212%. Desde que haja a possibilidade de incrementar as vendas de tilápia, o administrador deve aumentar a área de cultivo deste peixe, em substituição ao cultivo do pacu. Novamente ressaltamos que as comparações feitas aqui não devem ser estendidas para outras pisciculturas e regiões, visto tratarem apenas de um exemplo, baseado numa piscicultura fictícia e, provavelmente, com condições de cultivo, preços de insumos e venda de produtos diferentes das que o leitor está presenciando no momento. Em algumas regiões os preços de venda do pacu e da tilápia variam entre R$ 2,00 a 2,50/kg, e as rações de engorda chegam a custar R$ 0,56/kg. Se aplicarmos estes valores ao nosso exemplo, a lucratividade da tilápia seria de R$ 7.500 a 13.800/ha/ano e a do pacu ficaria entre R$ 3.100 a 8.600/ha/ano no setor de engorda.

Reduzir ou não a área de cultivo de uma espécie para aumentar a de outra ? Produzir ou não o próprio alevino ? Comprar juvenis avançados ? Etc…?

São decisões que podem exigir análises e simulações econômicas mais elaboradas do que as apresentadas neste artigo. Outras ferramentas e metodologias estão à disposição dos administradores para auxiliar nas análises de risco e na comparação do desempenho econômico entre diversos setores ou atividades de uma empresa e, até, mesmo entre diferentes empresas e alternativas de investimentos.

O exemplo aqui apresentado é apenas uma maneira simples e prática de se estimar quanto custa o seu peixe. Com a implementação de medidas mais eficazes de controle e organização dos dados de produção, o piscicultor/empresário poderá determinar com boa precisão o custo real e a viabilidade econômica da sua piscicultura.

Afinal, como andam as contas na sua piscicultura?

Não está passando da hora de se preocupar com elas? A situação pode ficar muito delicada, principalmente quando parte da produção é perdida por problemas de qualidade de água, doenças, manejo inadequado e/ou após o transporte vivo. Ou quando o cheque recebido volta? Em propriedades de pequeno porte, é comum o lucro de uma atividade segurar o rombo da outra. O proprietário que não faz as contas direito só percebe isto na hora da reposição de um equipamento, máquina ou veículo que se desgastou e não tem mais conserto. Nesta hora falta capital e a palavra descapitalização passa a ter sentido. Desfaz-se de um bem para, “malemá”, repor os bens desgastados. Atualmente, as outras atividades agropecuárias já não conseguem segurar o prejuízo de uma piscicultura deficitária. Na realidade, a piscicultura ainda é uma opção de investimento muito atrativa e, em diversas propriedades acaba pagando a conta deixada por outras atividades. Segundo informações colhidas junto a agricultores e técnicos no Paraná, Mato Grosso do Sul, Mato Grosso, Goiás e Tocantins, os lucros com a soja este ano deverão girar entre (R$ 450 a 560/ha/safra), arroz (R$ 200 a 300/ha/safra), milho (R$ 450 a 580/ha/safra) e algodão (R$ 400 a 550/ha/safra) ficam ao redor de 7 a 22% do lucro que pode ser obtido numa engorda de peixes bem conduzida. Na pecuária de corte o lucro também varia de R$100 a 500/ha/ano, dependendo do grau de intensificação no manejo do pasto e do rebanho. Pecuária sob pastos irrigados podem retornar R$700 a 1.000/ha/ano. No leite, a rentabilidade tem variado de R$300 a 1.500/ha/ano, dependendo da produtividade do rebanho e do preço de venda do leite. Ainda assim a piscicultura se mostra mais atrativa.

O piscicultor/empresário deve então melhor avaliar seus custos de produção, os riscos e os preços obtidos na comercialização dos seus produtos. Os preços atrativos do pesque-pague comparados àqueles pagos pelo peixe destinado ao processamento e varejo, podem não ser tão atrativos quando avaliamos os riscos de perda da carga durante e pós-transporte e os riscos do calote. Uma carga entregue e não recebida consumirá o lucro das próximas 5 a 10 cargas, dependendo da margem de lucro obtida na venda. Os preços pagos pelo varejo ou frigoríficos (desanimadores em algumas regiões, enquanto razoáveis em outras) podem se tornar uma boa opção à luz dos reveses amargados por muitos piscicultores no mercado de peixe vivo.

Se este artigo lhe fez pensar um pouco sobre os números da sua piscicultura, nosso objetivo foi alcançado. Esperamos que as sugestões aqui apresentadas sirvam como base para a elaboração dos demonstrativos de resultados econômicos do seu empreendimento. Listamos também algumas sugestões de leituras adicionais que poderão ajudar na sua empreita. Boa sorte com os números.

1) Planejamento e Controle Financeiro das Empresas Agropecuárias, Nguyen H. Tung, Edições Universidade-Empresa, São Paulo Brasil, 1990 382p.
2) Contabilidade Rural, 3a ed. José Carlos Marion, ed. Atlas 1994 238p.
3) Contabilidade Rural, Uma Abordagem Decisorial, Silvio Aparecido Crepaldi, Ed. Atlas 1993 168p.
4) Administração de Custos na Agropecuária. Gilberto José do Santos e José Carlos Marion. Ed. Atlas 1993 139p.

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