Conferência Mundial da Tilápia atrai especialistas ao Rio de Janeiro

Por:
Jomar Carvalho Filho[email protected]
Editor da Panorama da AQÜICULTURA

Durante os dias 16, 17 e 18 de setembro, a cidade do Rio de Janeiro sediou, no auditório da Escola de Guerra Naval, no Bairro da Urca, a Conferência Mundial da Tilápia 2013, evento que reuniu 378 pessoas de 32 diferentes países em torno da tilápia, este peixe extraordinário, que é cada dia mais reconhecido no mundo, não apenas pela sua importância para a alimentação humana, mas também pelas possibilidades de inclusão social oferecidas pela sua cadeia de produção.
O evento foi organizado pela Infopesca, com o apoio da Organização das Nações Unidas para Agricultura e Alimentação (FAO), Ministério da Pesca e Aquicultura (MPA) e do Governo do Estado do Rio de Janeiro através da Secretaria de Estado de Desenvolvimento Regional, Abastecimento e Pesca (SEDRAP). Pela primeira vez a Conferência Mundial da Tilápia foi realizada fora da Ásia. A escolha da América Latina, mais precisamente do Brasil, para a quarta edição deste evento, foi motivada pela evolução da produção da tilápia em nosso país. As últimas edições aconteceram em Kuala Lumpur, capital da Malásia.
A Conferência do Rio de Janeiro reuniu representantes do setor acadêmico, produtivo e comercial. Na abertura do evento, o Brasil esteve representado pelo ministro da Pesca e Aquicultura Marcelo Crivella e pelo secretário da SEDRAP, Felipe Peixoto. A Infopesca foi representada pelo seu Diretor Geral, Roland Wiefels e a FAO por Audun Lem, Chefe de Produtos.


Kevin Fitzsimmons, “tilapicólogo” e professor da Universidade do Arizona, abriu a primeira sessão técnica da Conferência Mundial da Tilápia 2013, falando das tendências na produção e nos mercados mundiais, com especial ênfase para o mercado dos Estados Unidos.

No ano 2000, representando a American Tilapia Association (ATA), Kevin Fitzsimmons esteve no Brasil para realizar, em parceria com a Revista Panorama da AQÜICULTURA, o 5º International Symposiun on Tilapia Aquaculture (ISTA). Na ocasião a produção brasileira lutava para ultrapassar a barreira das 30 mil toneladas anuais e a produção mundial alcançava 1,2 milhão de toneladas. Mesmo diante daquele cenário, hoje considerado tímido, Kevin previu que a tilápia se tornaria a espécie mais importante da aquicultura mundial no século 21. Agora, passados 13 anos, ao voltar ao Rio de Janeiro para a Conferência Mundial da Tilápia 2013, Kevin fez questão de lembrar o que disse e provar que não estava enganado, motrando em sua palestra que a produção mundial quase quadruplicou nesse período, já superando as 4,2 milhões de toneladas em 2012, fazendo com que a tilápia ocupe a segunda colocação entre os peixes mais produzidos no mundo, atrás apenas das carpas (Figura 1).


Kevin Fitzsimmons mostrou também que o crescimento da produção mundial de tilápia vem se dando de forma contínua, com taxas de crescimento bem superiores a todas as demais espécies aquícolas, um fato que permitirá, em algum momento, que a tilápia ocupe a primeira colocação entre os pescados cultivados no mundo. Por essas e outras, disse Kevin, a tilapicultura se constitui num modelo de desenvolvimento a ser seguido pelas demais cadeias aquícolas.

Entre as características que diferem a tilápia das demais espécies, destacou que o peixe possui a seu favor uma demanda global, além de ser produzido nas mais variadas regiões geográficas utilizando diversos sistemas de produção, muitos verticalmente integrados. A tilapicultura, segundo Kevin, deve ser considerada uma atividade ambientalmente sustentável, podendo ser enquadrada como “aquicultura verde”, já que sua dieta pode prescindir de farinha de pescado e antibióticos, sem contar que muita tilápia ao redor do mundo é cultivada aproveitando a água de efluentes.


Kevin Fitzsimmons, da Univeridade do Arizona, trajando seu inseparável colete de couro de tilápia, ladeado por Angel Rubio da Urner Barry, Iñigo Ortega da Bormarket, Fatima Ferdouse da INFOFISH e Audum Lem da FAO, após participarem da primeira sessão da Conferência Mundial da Tilápia 2013 na cidade do Rio de janeiro 

Ao mesmo tempo em que a tilápia é a espécie escolhida para os cultivos de subsistência em pequenas propriedades nos países em desenvolvimento, este peixe é também produzido em grande escala para atender um mercado de alto valor, sendo consumido em restaurantes e vendido em grandes cadeias de supermercados, tendo se transformado numa commodity. Nos EUA, por exemplo, em 2001 a tilápia ocupou pela primeira vez a décima colocação da lista dos 10 pescados mais consumidos no país, e na ocasião, o consumo per capita era de apenas 136 gramas. Já em 2010 a tilápia passou a ocupar o quarto lugar entre os “top ten seafood” com um consumo de 657 gramas per capita. Em 2012 os EUA importaram 613 mil toneladas (equivalentes em peso vivo), num comércio que movimentou US$ 986 milhões.

O grande crescimento mundial só tem sido possível, segundo Kevin, graças ao suporte de excelentes programas de acasalamento, que geraram linhagens extremamente produtivas como a GIFT, Chitralada, Gift Excell, Tab Tim, Molobicus e Supermacho YY. O Brasil, segundo Kevin, vem acompanhando de perto as evoluções, adotando linhagens geneticamente melhoradas e o resultado pode ser visto na expressiva produção que coloca o Brasil no quinto lugar no raking mundial, atrás da China, Egito, Indonésia e Filipinas (Figura 2).

Ao finalizar sua palestra, Kevin Fitzsimmons, manteve a tradição de fazer “previsões” nas suas vindas ao Rio de Janeiro. Desta vez foi ainda mais contundente e muito bem humorado: “por muito tempo, a tilápia ficou conhecida como o frango aquático, mas do jeito que aumenta a sua produção ao redor do mundo, essa situação vai se reverter e os frangos é que serão conhecidos como tilápias terrestres”. Quem viver verá!

ÁSIA

Fatima Ferdouse, especialista em estudo de mercado da Infofish, Malásia, escolheu um título nada modesto para sua apresentação, embora bastante realista: “Ásia: a maior região produtora, principal fornecedora e o principal mercado”. Segundo ela, ao contrário do que muita gente pensa, o pescado proveniente da água doce vem aumentando sua participação no abastecimento global de pescado, tendo contribuído com 57% dessa demanda no ano 2000, e crescendo para 62% em 2011. Em contrapartida, o pescado marinho, que em 2000 abastecia 37% da demanda mundial, reduziu sua participação para 30%, em 2011. Fatima disse que o papel da tilápia nessa mudança de cenário é bastante significativo, e isso está orientando as transformações na Ásia, dado o importante papel desse peixe para a segurança alimentar desses países.

A China, em 2011, produziu 1,2 milhões de toneladas, e os demais países asiáticos, entre eles, Indonésia, Filipinas, Tailândia, Vietnã, Taiwan, Myanmar, Malásia e Bangladesh, produziram juntos 1,3 milhões de toneladas. Ainda segundo a especialista, esse quadro de produção será ainda mais modificado nos próximos anos, já que a Índia, país de enorme potencial de produção, somente agora permitiu oficialmente o cultivo da tilápia no seu território.
Apesar da China produzir esse formidável volume de tilápia, a maior parte do que é produzido, segundo Fatima, é absorvida pelo mercado local, uma tendência que também é observada em outros países da Ásia. A exceção fica por conta da Indonésia e da Tailândia, cujas exportações de tilápia superam o consumo interno, com o diferencial de que boa parte da produção exportada por esses dois países é proveniente de uma produção certificada por instituições como ASC (http://www.asc-aqua.org) e Global Gap.

Tilápias são produzidas na Ásia de diferentes formas e voltadas para diferentes mercados. Segundo Fatima, o policultivo da tilápia com o camarão de água doce, por exemplo, é um sistema muito utilizado nessa região, por adicionar valor aos sistemas extensivos de produção. Já outros países, como Taiwan, se dedicam à produção de tilápia direcionada a mercados de alto valor, como a tilápia orgânica e a tilápia produzida em água salobra. Na Ásia a tilápia vermelha é a preferida e alcança preços significativamente mais elevados. Ainda segundo a especialista, faz muito tempo que nesse continente a tilápia deixou de ser um “peixinho comum de água doce”, lembrando que no Japão, cresce cada vez mais o consumo do Izumidai, um sushi de filé da tilápia produzida em água salobra.

UNIÃO EUROPÉIA

Iñigo Ortega, da Bormarket, uma distribuidora de pescado espanhola, trouxe para os participantes da Conferência Mundial da Tilápia 2013 a sua grande experiência junto ao mercado da União Européia (UE) e, pelo que apresentou, foi fácil perceber que europeus “ainda” não se renderam aos encantos desse peixe.

A UE vem mantendo seu alto nível de consumo de pescado, o que pode ser medido pelas importações de 2012, onde 1,87 milhões de toneladas de filés foram importadas, com destaque para a polaca do Alasca (17%), salmão (12%), bacalhau (11%), panga (8%) e merluza (6%). Entretanto, com relação a tilápia, os números se revelam bastante tímidos. Foram importadas apenas 33,3 mil toneladas em 2012, sendo 18.791 toneladas de filés e 14.473 toneladas de tilápias inteiras. (Tabela)

Na Figura 3, apresentada por Ortega, pode ser observado o consumo de tilápia por país da UE e as preferências de cada um deles. É possível concluir que não há um padrão de consumo, existindo grandes diferenças na escolha entre o filé e a tilápia inteira. A China, mais uma vez, é a responsável por 88% das importações europeias, seguida da Indonésia (8%) e Tailândia, Vietnã e Taiwan, que juntos abastecem 2% deste importante mercado.

Muitos tendem a achar que a competição com o panga seria responsável pelo baixo consumo de tilápias na Europa. Mas, ao analisar esse tema, Ortega mostrou que as importações de filés de panga também caíram bruscamente de 232 mil toneladas em 2010, para 160 mil toneladas em 2012, e ainda assim, o consumo de tilápia se manteve baixo, tendo também caído de 21 mil toneladas em 2010 para 18,7 mil em 2012. Para explicar as dificuldades encontradas pela tilápia, Ortega sustentou que o peixe ainda é desconhecido para muitos, sendo necessário um trabalho junto ao público para promover a imagem da tilápia, principalmente a do filé, já que é grande o receio do uso ilegal de gás carbônico (CO2), que é proibido, uma fraude que melhora bastante o aspecto visual do filé, mesmo quando de baixa qualidade. Ortega disse também que em sua empresa, as tilápias foram responsáveis por 6% do pescado comercializado ao longo deste ano, e que a sua expectativa é aumentar essa fatia a partir da comercialização de produtos, mas apenas aqueles que tenham certificação.
O evento foi uma rara oportunidade para conhecer o que está acontecendo com a tilapicultura no mundo. Na próxima edição, mais Conferência Mundial da Tilápia 2013, com o relato de outros palestrantes.