Crassostrea rhyzophorae – Tecnologia Cubana Permite o Domínio da Produção de Sementes de Ostra Nativa

A diplomacia está em alta na FIPERJ – Fundação Instituto de Pesca do Estado do Rio de Janeiro, onde todas as fichas estão sendo apostadas no intercâmbio técnico internacional, como forma rápida e eficaz de reciclar os conhecimentos do seu corpo técnico.

Os frutos das primeiras sementes plantadas em 1995 pela atual diretoria da Fundação, começam a ser colhidos de forma generosa. Naquele ano, a FIPERJ participou da “Missão de Pesca e Aqüicultura do Estado do Rio de Janeiro à Cuba” e, em decorrência, a instituição recebe a visita técnica do biólogo cubano Leonardo Zayas Fonseca do Centro de Desova de Organismos Marinhos do Ministério de Indústria Pesqueira Cubana, localizado em Cabo Cruz, na província de Gramma. Leonardo é especialista na reprodução da Crassostrea rhizophorae, a ostra nativa das costas brasileira e cubana, e está no Brasil para compartilhar sua experiência com os técnicos brasileiros.

Biólogo cubano Leonardo Zayas
Biólogo cubano Leonardo Zayas

A produção mundial de ostras em 1994, segundo a FAO, foi de 1.238.934 toneladas e desse total, 1.096.809 toneladas (88,5%) foram ostras cultivadas.

A principal espécie cultivada no mundo é a Crassostrea gigas que responde por 945.804 toneladas (86,2%) do total cultivado, seguida da C. virginica com 89.737 toneladas, produzidas nos EUA, México e Canadá.

Na Europa, as ostras mais comumente cultivadas são a Ostrea edulis e a Crassostrea angulata ; na costa leste da América do Norte, a Crassostrea virginica ; no Japão, Coreia, costa oeste dos EUA, Canadá, França, Inglaterra, Marrocos, Austrália e Nova Zelândia a Crassostrea gigas . Na Austrália, entretanto, a principal espécie cultivada é a C. commercialis, na Nova Zelândia a C. glomerata e a C. lutaria; e nas Filipinas a C. iredalei. As espécies comuns no oceano Índico e no sudeste asiático são C. cucullata, uma ostra pequena de concha dura e a C. echinata. Na África do Sul a C. margaritacea é a ostra predominante e, ao longo da costa centro-ocidental da África se utiliza a C. gasar. Na área do Caribe se cultiva a C. rhizophorae e na costa oeste da América do Sul, a Ostrea chilensis é uma espécie importante.

Brasil

O cultivo de ostras no Brasil teve início na década de 70 através do cultivo experimental da ostra Crassostrea gigas, também conhecida como ostra do Pacífico ou ostra japonesa, já que as primeiras sementes aqui cultivadas vieram do Japão. As pesquisas foram realizadas na costa de Arraial do Cabo no Rio de Janeiro, extendendo-se posteriormente para o litoral paulista e catarinense, onde essa ostra melhor se adaptou ao cultivo (ver Panorama da AQÜICULTURA edição 30).

Mas, apesar de todo o esforço, as tentativas experimentais e comerciais realizadas nos últimos anos demonstraram que a ostra do Pacífico não se adaptou ao cultivo no litoral do Estado do Rio de Janeiro. Quando madura, o contato com as águas mais aquecidas da costa fluminense, acelera o seu metabolismo e provoca sucessivas maturações gonadais seguidas de desovas. O estresse resultante é fatal e terminam em grandes taxas de mortalidades.

Mesmo assim, nos últimos anos muitos esforços foram feitos para viabilizar o cultivo da C. gigas, possivelmente estimulados pelo bom mercado que essas ostras, em grande parte importadas do Chile e até da França, têm em nosso país. Além disso, o crescimento rápido que alcançam em águas temperadas também ajudou a estimular pesquisadores e investidores.

O porte dos exemplares de ostras do Pacífico importadas para o mercado brasileiro também colaborou para estabelecer padrões de tamanho de mercado, superiores aos alcançados pelas ostras nativas que, mesmo apresentando vantagens como uma maior resistência às variações de temperatura do ambiente, receberam poucas atenções por parte dos pesquisadores nacionais.

Cuba

Graças a biotecnologia Cuba desenvolveu sua atual tecnologia para reprodução e cultivo da ostra do mangue.

Na prática, este trabalho consistiu em reunir um grupo de pesquisadores, como fisiologistas, nutricionistas, entre outros especialistas, trabalhando na mesma direção; com o mesmo propósito.

Desta maneira, foi possível obter, num menor espaço de tempo possível, um pacote tecnológico onde todas as fases do cultivo foram dominadas para que Cuba pudesse desenvolver sua atual indústria de ostras.

E é essa tecnologia que o biólogo e químico cubano Leonardo Zayas Fonseca do Centro de Desova de Organismos Marinhos do Ministério de Indústria Pesqueira Cubana, veio compartilhar com os técnicos e produtores brasileiros, através das inúmeras desovas que realiza desde os primeiros dias de sua visita, tendo já ministrado um curso de três dias e programado um para julho próximo.

FIPERJ

No Estado do Rio de Janeiro, às margens da Baia de Sepetiba, onde se concentram populações nativas de C. rhisophorae, a FIPERJ mantém a EAAPM – Estação de Aqüicultura Almirante Paulo Moreira, um complexo de laboratórios que nos últimos 20 anos serviu a inúmeros ensaios para aquisição de tecnologia em aqüicultura. Lá, na década de 70, foram dados os primeiros passos para o cultivo de camarões marinhos no Brasil. Posteriormente, na década de 80, também serviu de base para os principais experiências que estimularam o cultivo de Macrobrachium rosenbergii, o camarão da Malásia.

Recentemente, após um projeto malogrado de cultivo de tainhas, em parceria com a JICA, a FIPERJ resolveu direcionar as pesquisas da EAAPM para a ostreicultura, equivocando-se ao escolher a Crassostrea gigas, não obtendo nenhum resultado.

A parceria com Cuba permite que o EAAPM possa se voltar para o cultivo de um animal que é nativo, que se adapta bem nas nossas costas e, melhor ainda, extremamente abundantes nos “quintais” da Estação.

Biologia

A ostra do mangue é um molusco bivalve (duas valvas ou conchas) e filtrador. Possui um interessante sistema que bombeia a água através do seu corpo que traz, não só o oxigênio necessário para a sua respiração, como também microalgas e partículas de matéria orgânica, base da sua alimentação.

A C. rhisophorae é capaz de bombear e filtrar até 8 litros por hora de água do mar através do movimento dos cílios de suas brânquias que, ao serem banhadas, permitem que o oxigênio dissolvido na água seja diretamente absorvido.

As algas e as pequenas partículas presentes na água bombeada, são filtradas e selecionadas pelos palpos labiais, um conjunto de quatro apêndices que rodeiam a boca. Os alimentos passam através do um engenhoso sistema digestivo e saem através de um sifão exalante que expele as fezes e as pseudofezes, esta última composta por partículas que não puderam ser aproveitadas pela ostra na sua alimentação.
O sistema reprodutor das C. rhisophorae é formado por uma glândula protândrica hermafrodita que, independente do animal, pode mudar o seu sexo, de forma que mudanças climáticas ou alimentares pode transformar um macho em fêmea e vice-versa. Suas conchas são compostas de três camadas. A interna brilhante é a camada de nacar ou nacarada (madrepérola). A camada externa, chamada de periostraco, é fina e se desgasta muito rapidamente e, entre as duas, existe uma intermediária composta de carbonato de cálcio.

Cultivo

Para a produzir as sementes de ostras na Estação da FIPERJ, o biólogo cubano coletou reprodutores diretamente no meio ambiente, nas imediações do laboratório, tomando apenas o cuidado de avaliar o estágio de maturação gonadal e a ocorrência de contaminações causadas pela presença de bactérias no local da coleta.

Já no laboratório, as matrizes escolhidas são escovadas e lavadas com água doce para a retirada de sedimentos e incrustações que possam vir a causar prejuízos à larvicultura. Em seguida, ainda fora da água, os animais são colocados em sala refrigerada com temperaturas variando de 18 a 23 ºC por um período aproximado de 12 horas. Tal manejo destina-se a estimular a desova através de mudanças bruscas de temperatura.

Decorridos 24 horas após a coleta, os reprodutores são então colocados em água do mar filtrada, por aproximadamente 3 horas, período em que limparão seus organismos expelindo fezes e pseudofezes. Somente após esse manejo, são colocados nos tanques de desova.

Esses tanques tem formato retangular de modo que a água passe no seu sentido longitudinal. As matrizes são dispostas próximas da entrada da água até que iniciem a emissão de gametas quando então é possível identificar o sexo. Segundo Leonardo, não existem técnicas que indiquem o sexo da C. rhizophorae antes que eliminem óvulos ou esperma.

Quando o primeiro macho é identificado soltando o esperma, que neste momento se assemelha a uma “fumaça” saindo do animal, é reposicionado para que estimule os demais, incluindo as fêmeas.

Posteriormente, os reprodutores são removidos e o primeiro estágio larval, com cerca de 50 µm, passa a ser chamado de larva trocófora. As larvas permanecem nesses tanques por apenas 24 horas quando são coletadas em redes finíssimas, de 27 µm de malha, e transferidas para a área destinada a larvicultura.

Larvicultura

Segundo Leonardo Fonseca, um laboratório básico para cultivar ostras tem que conter um setor para cultivo das larvas – larvicultura, um setor para a fixação e a pré-cria, e um setor para produção das microalgas – o alimento das larvas (Planta).
A área destinada ao cultivo de larvas deve conter tanques cuja capacidade pode variar de 10.000 a 1.000 litros, sempre abastecidos com um bom sistema de aeração. A quantidade e o volume desses tanques, isto é, a capacidade de produzir larvas de um laboratório deve levar em consideração que a densidade inicial recomendada é de 20 milhões de larvas para cada 1.000 litros – o resultado aproximadamente 100 reprodutores de C. rhisophorae.

À esta área, devem estar acopladas instalações destinadas a contagem das larvas e das algas servidas como alimento; um manejo necessário para os devidos reajustes de alimentação.
A partir do primeiro até o sexto dia as larvas crescem de 55 a 70 µm e passam a ser chamadas de larvas D-veliger, fáceis de serem identificadas por se assemelharam a letra D.

Do 7º ao 14º dia, passam a ser chamadas de larvas umbonadas, medindo de 100 a 120 µm e, a partir daí, até o 21º dia quando atingem 250 µm, as larvas desenvolvem o pé de fixação, passando a serem chamadas de larvas Pedivéliger (foto).

As larvas ficam nos tanques de larvicultura por cerca de 21 dias quando são coletadas, preparadas e transferidas para os tanques da área de fixação.

Em Cuba, a salinidade para a larvicultura varia de 30 a 36 ‰ com a temperatura da água girando em torno dos 28 ºC. Na EAAPM/FIPERJ, os melhores resultados obtidos foram com salinidade abaixo de 30 ‰, variando de 24 a 30 ‰, com temperaturas oscilando entre 25 e 28 ºC.

Fixação

As larvas maiores que 210 µm, que apresentam mancha ocular e pé de fixação, são transferidas para a área de fixação.

Esta área deve conter tanques, que podem ser confeccionados de fibrocimento ou fibra de vidro. As paredes internas dos tanques devem ser permanentemente revestidas com cera animal para evitar que aí se fixem.

Após este preparo, são abastecidos com água para receber os substratos de fixação (conchas de ostras, placas de pvc, pratos plásticos, garrafas plásticas cortadas, etc.) e as larvas na proporção de 100 larvas por substrato.

No meio ambiente somente 3% das larvas se fixam devido a substratos inadequados, correntes, predadores, etc… Em Cuba os percentuais de fixação em laboratório, atingem 40% para larvas fixadas em concha de ostras e até 60% para larvas fixadas em estruturas plásticas, conhecidas como chapéus chineses (foto). As sementes, como são chamadas as larvas fixadas, ficam nesses tanques por cerca de 45 dias, ocasião em que já podem ser transferidas para as lanternas de engorda no mar.

Cultivo de algas

Durante toda a fase em que permanecem nas instalações de larvicultura e de fixação e recria, as ostras se alimentam de algas microscópicas, cultivadas de forma intensiva, em meio de cultura adequados para atingir altas densidades.

São instalações com área climatizada (18 a 21 ºC), vidraria variadas de diferentes volumes, autoclave, estufa e tanques de fibra de vidro com volumes que variam de 100 e 1000 litros, além de uma boa iluminação para que as algas possam fazer a fotossíntese.

As espécies de microalgas mais utilizadas são: Bellerochea polimorfa, Chaetoceros gracilis, Isochrysis tahitiana, Isochrysis galbana, Tetraselmis tetrathele e Nannochloropsis oculata.Tais espécies foram selecionadas levando-se em conta uma série de fatores, tais como: requerimento nutricional, tamanho adequado (menor que 10 µm), parede celular de fácil digestibilidade, fácil cultivo, crescimento rápido e resistência a contaminações.

Quando as larvas estiverem medindo de 45 a 70 µm, são alimentadas com uma mistura de Nannochloropsis oculata (10.000 cel/ml), Bellerochea polimorfa (6.000 cel/ml) e Isochrysis tahitiana (10.000 cel/ml). Quando atingem 70 µm até 120 µm se alimentam com uma mistura de Chaetoceros gracilis (20.000 cel/ml) e Isochrysis tahitiana (6 – 10.000 cel/ml). De 120 a 240 µm, são alimentadas com Tetraselmis tetrathele (10.000 cel/ml), C. gracilis (20.000 cel/ml) e I. tahitiana (2.000 cel/ml).

Engorda

O intercâmbio tecnológico com Cuba está permitindo que o manejo para obtenção em larga escala de sementes da ostra Crassostrea rhisophorae seja repassado aos técnicos brasileiros, cabendo à eles o aprimoramento.

À FIPERJ cabe o norteamento do desenvolvimento sustentado da ostreicultura no estado, uma indústria rentável em todos os países do mundo onde se desenvolveu. Comer ostras, entretanto, não é comum no Brasil. É um costume entre os estrangeiros que aqui residem, que poderia muito bem ser absorvido por nós. Afinal, nada mais saudável que uma dieta onde as ostras estão presentes com seu sabor e seus nutrientes.

O consumo estimado de ostras na cidade do Rio de Janeiro está em torno das 230 dúzias semanais, provenientes de São Paulo (Cananéia), Santa Catarina, Chile e França. Na capital paulista este consumo sobe para cerca de 2.000 dúzias semanais, provenientes dessas mesmas fontes.

Mesmo sem a ajuda das estatísticas oficiais é possível identificar um mercado ainda pequeno para esses moluscos. É preciso então estimular o consumo para que se justifique os esforços e investimentos para obter esta tecnologia.