Cultivando camarões numa “sopa de letrinhas”

Se olharmos a carcinicultura brasileira com atenção, vamos perceber que estamos diante de uma bem temperada “sopa de letrinhas”. Se as letras CONAMA-IBAMA-SEMACE-SEAP-IDEMA-ANA, cairem na panela do carcinicultor, é possível que ele vá ter problemas na hora de dar ponto ao seu prato. É preciso, portanto, que o produtor fique bem atento na escolha das letras certas, quando tiver que decidir qual será a receita do seu cultivo. Um caldo com as letrinhas IMNV-NIM-WSSV-IHHNV-TSV-NHP, costuma dar indigestão e muitas dores de cabeça. Um exemplo recente, foi a simples presença do WSSV (vírus da mancha branca) em viveiros no Ceará, que causou um enorme mal estar em todos os carcinicultores do Nordeste, ainda que nenhum sintoma da doença tenha sido registrado até o momento. Na certa, a indigestão causada pelas letras WSSV, está associada à dificuldade que os produtores ainda têm para digerir o gosto amargo do IMNV-NIM. A simples presença dessas letras faz desaparecer uma quantidade significativa de camarões, tornando o prato um produto sem nenhum atrativo comercial. Hoje, ninguém faz idéia do que virá, nem ousa avaliar os prejuízos que podem advir da mistura das letras WSSV-IMNV-NIM. 

Depois de Santa Catarina, o Ceará foi o segundo estado brasileiro a registrar a presença do vírus da mancha branca (WSSV). Como era de se esperar, a divulgação da descoberta do vírus no Nordeste causou toda sorte de reações entre os produtores, que variaram do total desespero até a completa negação do fato. Hoje um número considerável de carcinicultores, ainda insiste em atribuir a notícia a manobras de boateiros, interessados tão somente em atrapalhar o bom desenvolvimento da carcinicultura no país. Não faltaram também os espertinhos de plantão, que aproveitaram a divulgação da presença assintomática do vírus, e correram no banco mostrando-se sem condições para cumprir com suas obrigações, por estarem “contaminados”.

A confirmação da presença do vírus, no entanto, se deu de forma muito curiosa. Apesar da primeira notícia oficial da sua presença ter partido do CEDECAM – Centro de Diagnóstico de Enfermidades de Camarão Marinho do LABOMAR/UFC, quem, na realidade, primeiro detectou a presença do vírus foi o Laboratório Regional de Apoio Animal (LARA/MAPA – RS), do Ministério da Agricultura. Até onde se sabe, o zelo pelo produto a ser exportado levou os técnicos da Delegacia do Ministério da Agricultura Estado do Ceará a coletar camarões de uma pequena propriedade, Sítio Cajueiro, localizado no município de Aracati. As suspeitas eram de que estava havendo a utilização de antibióticos. Os camarões coletados foram encaminhados para exame no LARA/MAPA, ocasião em que as amostras, não se sabe por que, foram também testadas para a presença do vírus WSSV. O resultado surpreendeu a todos. Das cinco amostras, quatro deram positivas para o DNA do vírus. Antes mesmo da contraprova dessas análises, a notícia se espalhou por toda a região, levando um produtor vizinho ao Sítio Cajueiro, a pedir auxilio no CEDECAM/LABOMAR. Os resultados obtidos, bem como a contraprova, também deram positivos para a presença do vírus.

Um detalhe importante é que os camarões analisados pelo CEDECAM não apresentavam qualquer sintoma de doenças no momento em que foram coletados. Estavam sadios, e foram coletados na comporta, no momento em que estavam sendo despescados. Fora a presença confirmada do vírus, pouco ou nada, se tem para falar da mancha branca no Nordeste, já que não há registro de nenhuma mortalidade atribuída à doença.

Mito

Durante muito tempo se apostou que o WSSV não se manifestaria nas fazendas que utilizam águas do oceano Atlântico. Porém, a epidemia que se abateu sobre os cultivos de Santa Catarina derrubou esse mito. Supõe-se que a temperatura tenha sido o gatilho que determinou a replicação do WSSV em Santa Catarina, além do fato de que, na ocasião do surto inicial, as condições de algumas fazendas na região de Laguna eram as piores possíveis. Além da temperatura baixa, os sulfetos estavam altos, a alcalinidade baixa, a matéria orgânica alta, acrescido do fato de estarem 80 dias sem renovar água por problemas naturais de circulação de água na lagoa. Segundo o professor Edemar Andreatta, da Universidade de Santa Catarina, quando o vírus se replicou causou um efeito dominó, e uma fazenda atrás da outra, tiveram seus camarões afetados, aumentando sensivelmente a carga viral na água.

Muito se tem a aprender neste momento com a experiência dos carcinicultores catarinenses, que neste primeiro semestre realizaram seu primeiro cultivo com a presença do vírus. Segundo o professor, neste período, o ciclo de produção foi normal para muitas fazendas, “65-70% das fazendas produziram normalmente, eventualmente uma ou outra teve que despescar mais às pressas, mas no cômpito geral a produção foi boa”. Andreatta disse também, que está inclinado a acreditar que o vírus WSSV presente nos viveiros catarinenses tenha sido levado para o Estado junto de larvas adquiridas no Nordeste no ano de 2004, quando os laboratórios de Santa Catarina ficaram impedidos de fornecer larva, por estarem contaminados por bactérias filamentosas.

Conviver com o WSSV

Para o presidente da ABBC, é perfeitamente possível produzir camarões com a presença do WSSV. Itamar Rocha lembrou que a Venezuela, apesar de estar padecendo neste momento de um surto violento do Taura, passou a ser o único país que produz o L. vannamei sem que tenha registro da presença do vírus da mancha branca. Citou também o exemplo da Tailândia, país que em 2000 não tinha um camarão L. vannamei sequer, e alcançou em 2004 a marca de 104 mil toneladas produzidas, convivendo diretamente com o vírus da mancha branca. Da mesma forma, a China, país que em 2000 também não conhecia o L. vannamei e que no ano passado produziu 260 mil toneladas, também convivendo com a presença vírus.

Itamar Rocha alerta, porém, que se tenha muito cuidado com as fórmulas mágicas que já estão sendo vendidas aos produtores brasileiros, lembrando que na China, nenhuma dessas “fórmulas mágicas” vendidas trazem escrito que possuem antibióticos, e foi justamente isso que prejudicou, de maneira bastante contundente, a imagem do camarão chinês no mercado internacional. Para o presidente da ABCC, muito pior que ter que produzir com a presença do WSSV, é vender o camarão no mercado internacional, vindo de um país suspeito de utilizar antibióticos nos cultivos.

A seguir uma entrevista com Pedro Carlos Cunha Martins, do CEDECAM/LABOMAR, responsável pelas análises que confirmaram a presença do vírus no Ceará.


ENTREVISTA COM: PEDRO CARLOS CUNHA MARTINS

A Panorama da Aqüicultura conversou com o coordenador do CDCAM – Centro de Diagnósticos de Camarão Marinho do Labomar, Pedro Martins, responsável pelos exames que detectaram a presença do WSSV, vírus da Mancha Branca, em camarões cultivados em uma fazenda localizada em Aracati–CE. A seguir, a entrevista:

Panorama da Aqüicultura: O que levou o Labomar a realizar o exame que detectou a presença do WSSV no Ceará?
Pedro: O Cedecam, através de seu laboratório de PCR, já vinha realizando em todo o Estado do Ceará um trabalho, financiado pelo CNPq, de rastreamento de reprodutores e de pós-larvas. Até então, não tínhamos detectado nada. Vale salientar, que no final de 2004 uma pesquisa realizada com financiamento da Finep, com rastreamento em reprodutores, apresentou resultados negativos para a presença do DNA viral em análises de PCR. Mais recentemente surgiu a informação de que o Ministério da Agricultura havia analisado camarões de uma fazenda do município de Aracati e detectou a presença do WSSV. A notícia se espalhou e um vizinho desse produtor nos contatou para analisar camarões de sua fazenda. Coletamos camarões assintomáticos na comporta, no momento da despesca, sem nenhuma evidência que estavam com WSSV. A análise feita pelo Labomar foi pontual, apenas nessa propriedade, e encontramos a presença do DNA do vírus.

Panorama da Aqüicultura: O que levou o Labomar a realizar o exame que detectou a presença do WSSV no Ceará?
Pedro: O Cedecam, através de seu laboratório de PCR, já vinha realizando em todo o Estado do Ceará um trabalho, financiado pelo CNPq, de rastreamento de reprodutores e de pós-larvas. Até então, não tínhamos detectado nada. Vale salientar, que no final de 2004 uma pesquisa realizada com financiamento da Finep, com rastreamento em reprodutores, apresentou resultados negativos para a presença do DNA viral em análises de PCR. Mais recentemente surgiu a informação de que o Ministério da Agricultura havia analisado camarões de uma fazenda do município de Aracati e detectou a presença do WSSV. A notícia se espalhou e um vizinho desse produtor nos contatou para analisar camarões de sua fazenda. Coletamos camarões assintomáticos na comporta, no momento da despesca, sem nenhuma evidência que estavam com WSSV. A análise feita pelo Labomar foi pontual, apenas nessa propriedade, e encontramos a presença do DNA do vírus.

Panorama da Aqüicultura: Esse resultado já era esperado?
Pedro: Não. Foi uma surpresa. E dessa vez foi bem diferente de quando recebemos o material de Santa Catarina, no final do ano passado. Naquela ocasião já havia um histórico de mortalidade e à medida que íamos analisando as lâminas, já dava para perceber que estávamos diante de algo muito sério. Mas no caso de Aracati foi uma surpresa total. Não havia nenhum sintoma. Os camarões estavam saudáveis e sendo despescados.

Panorama da Aqüicultura: Você vem falando que os resultados evidenciaram a “presença do DNA do vírus”. Em nenhuma vez ouvi você falar claramente que encontrou a “presença do vírus”?
Pedro: Nós buscamos com essa metodologia, a presença do DNA do vírus. E quando detectamos a presença do DNA, é lógico que estamos diante da presença do vírus WSSV. Vale ressaltar, que a reação de PCR foi realizada com dois passos de amplificação (nested PCR) com base no protocolo da Dra. Lo, o mesmo utilizado nos principais laboratórios de diagnóstico do WSSV no mundo.

Panorama da Aqüicultura: Que tipo de monitoramento será realizado agora, depois de confirmada a presença do vírus da mancha branca? 
Pedro: Por solicitação da ABCC e das associações estaduais, já iniciamos os exames de amostras de camarões de fazendas do Ceará e nas fronteiras com os estados do Piauí e Rio Grande do Norte. Nós já vínhamos monitorando as pós-larvas e reprodutores nesses estados, mas o trabalho junto às fazendas de engorda somente agora será iniciado. No ambiente do laboratório de produção de pós-larvas nem sempre o vírus se replica, pois é preciso uma situação de estresse para que ele se manifeste, como é o caso de um viveiro de engorda. Na realidade não sabemos se este vírus já se encontrava nesta região, tendo sido introduzido através da importação de camarões do Equador e Peru, quando da intensificação do cultivo do Litopenaeus vannamei no Brasil. É possível que isso seja verdade, da mesma forma que é possível que ele vá passar ainda um longo período sem se manifestar. Não dá para prever como este vírus vai se comportar. As análises com PCR indicam apenas a presença do vírus, mas não dão indícios de como ele está agindo. Outros exames, como análises histológicas, são necessários para buscar lesões em tecidos que possam nos apontar sua atuação.

Panorama da Aqüicultura: Você acredita que as mortalidades que hoje são atribuídas ao IMNV (Vírus da Mionecrose Infecciosa, causador da NIM) podem estar, de alguma forma, relacionadas também com a presença do vírus WSSV, da mancha branca?
Pedro: Bem, o que temos é um quadro de queda de imunidade, mas não é possível confirmar, nem mesmo negar, que isso possa estar acontecendo, até porque os sintomas não são até agora visíveis. Para que você tenha idéia, ainda não foram encontradas em nenhum camarão do Nordeste, as alterações histológicas observadas nos camarões contaminados com o WSSV, verificadas no Estado de Santa Catarina. Desde 1999, o Cedecam analisou mais de 2.000 lâminas histológicas e somente as de Santa Catarina apresentaram lesões compatíveis com o WSSV. Podemos até considerar que no Nordeste o vírus IMNV pode estar prevalecendo, até mesmo por uma questão de competição entre os dois vírus, onde a situação ambiental está favorecendo o IMNV e não o WSSV. A temperatura é um fator que tem uma influência sobre o vírus da mancha branca, e quando ela cai, ele prevalece, como aconteceu em Santa Catarina. No caso específico do Nordeste, é possível que a inter-relação entre o patógeno, no caso o vírus da mancha branca, e as condições dos viveiros de camarão possam estar passando por uma situação de equilíbrio, que pode se manter por um bom tempo.

Panorama da Aqüicultura: Na sua opinião quais devem ser os próximos passos a serem dados?
Pedro: Acredito que será preciso estender as análises de PCR a outras regiões. O PCR, no entanto, não vai nos dizer muita coisa, além do fato do vírus estar presente ou não. Por isso precisamos avançar na avaliação das lesões. Existem algumas técnicas de campo, como a coloração rápida das brânquias, que podem ser feitas nas fazendas, que tornam possível verificar se existe alguma célula com a presença do vírus.

Panorama da Aqüicultura: São análises simples? 
Pedro: Essas análises já são feitas no Equador. É uma técnica relativamente simples, onde se faz uma coloração rápida das brânquias e se prepara uma lâmina que pode facilmente ser analisada na fazenda. A partir dessa coloração rápida você pode visualizar, no núcleo das células as partículas virais, ou seja, o núcleo hipertrofiado caracterizando a doença. É uma ferramenta útil que deve ser utilizada pelos produtores como um manejo preventivo. É muito importante combinar os exames histológicos com as observações dos sinais clínicos. Esse exame pode mostrar o grau de comprometimento dos tecidos e detectar a presença de patógenos oportunistas. Como aconteceu em outros países do mundo, onde foi registrada a presença do WSSV bactérias oportunistas, principalmente do gênero Vibrio, foram as principais responsáveis pela alta mortalidade.

Panorama da Aqüicultura: Você acha que existe a possibilidade do Ceará ter sido contaminado por Santa Catarina?
Pedro: A probabilidade é maior de ter acontecido o contrário. É possível que o camarão contaminado na região Sul tenha sido adquirido na região Nordeste e num momento de estresse do ambiente, o vírus tenha se manifestado. Não podemos descartar que é provável que este vírus já estivesse aqui desde a introdução no L. vannamei no Brasil.

Panorama da Aqüicultura: Existe a possibilidade da realização de um teste de DNA, como o usado para os testes de paternidade, onde pudesse ser comparado o DNA do vírus encontrado em Santa Catarina com o DNA do vírus encontrado no Ceará?
Pedro: É possível fazer o seqüenciamento genético deles e comparar as duas linhagens. É possível até comparar com o vírus da mancha branca encontrado em outros países. Poderemos saber até se ele, vindo para o Brasil, sofreu mutações, se adaptando às nossas características ou até se tornado menos patogênico.

Panorama da Aqüicultura: Existe um banco de dados com as informações das várias linhagens?
Pedro: Existe um banco, sim. Existem muitas linhagens. Já teve casos de uma ferramenta molecular detectar, e outra não, o mesmo vírus, por conta de mutação. Pode ser que tenhamos uma mutação aqui no Brasil. O vírus da Taura por exemplo, sofreu mutações que o tornou menos virulento no Brasil comparado com outros países. Mas aqui no Brasil nunca se fez o estudo desse acompanhamento genético.

Panorama da Aqüicultura: O que você gostaria de falar no fechamento desta entrevista?
Pedro: É importante ter em mente que não existe tratamento curativo para patógenos virais, devendo-se portanto ficar atento para a indicação de medicamentos como forma de resolver o problema. Acredito que o manejo adequado poderá contribuir para um melhor desempenho do camarão frente a esse patógeno. O WSSV tem sido objeto de extensas pesquisas em outros países. No Brasil, a sua descoberta recente aponta para a necessidade de estudos considerando nossas condições de cultivo, características genéticas do patógeno e/ou hospedeiro, bem como a inter-relação entre esse três elos: nosso ambiente de cultivo, o vannamei domesticado no Brasil e o próprio patógeno (WSSV).