Cultivar Camarões

A chance de mitigar os impactos ambientais da pesca

Por: Paulo A.M.do NascimentoJosé Cardoso, Evelin E. Kopp Tompsom,
Eudes F. Lima e Agildo G. Ferreira 


Esse artigo é um resumo de parte das discussões realizadas durante os trabalhos das turmas de 94 e 95 da disciplina “Introdução à carcinicultura”, do Curso de Mestrado em Aqüicultura da Universidade Federal de Santa Catarina e pela turma de 94 da disciplina “Perspectivas em Carcinicultura” do Programa de Pós-Graduação em Ecologia e Recursos Naturais da Universidade Federal de São Carlos, ministrada pelo primeiro autor.

A produção pesqueira de camarões marinhos estabilizou-se em dois milhões de toneladas anuais nos anos 80, quantia modesta de alimento, comparada com a produção brasileira de grãos dos últimos anos (70 milhões de toneladas). Essa quantidade relativamente baixa de camarões obtida pela pesca ainda nos surpreende, apesar de sabermos de longa data que os oceanos são, na sua maior parte, um deserto improdutivo e que a porção do mar produtiva e explorável pela nossa tecnologia é reduzida.

Os camarões, no entanto, são extremamente apreciados pelo homem, alcançam preços elevados que suportam a indústria pesqueira e, recentemente, estimularam o desenvolvimento de um parque aqüícola considerável em diversas partes do mundo. A década passada e a primeira metade dos anos 90 presenciaram a produção de 600 mil toneladas anuais de camarões criados em instalações artificiais, ou mais de 1/4 da produção pesqueira.

CARCINICULTURA X PESCA

A produção de camarões cultivados é uma vitória humana espetacular, pois foi conseguida com produtividades médias ao redor de 1,0 t/ha/ano, extremamente elevadas, quando comparadas com a quantidade de área natural que uma espécie necessita para fornecer uma porção similar de camarões aos pescadores.

Um exame das relações entre a área de distribuição de uma espécie e as quantidades capturadas podem comprovar a supremacia da carcinicultura nas relações entre área e produção de camarões em viveiros. Podemos utilizar para isso, os conhecimentos disponíveis sobre o camarão rosa da região Sul/Sudeste (RJ, SP, PR, SC, RS), da espécie Penaeus paulensis. Ele é o camarão peneídeo mais estudado das águas brasileiras, o principal capturado na região, assim como objeto de experiências bem sucedidas de cultivo.

A espécie ocupa áreas oceânicas e estuarinas entre o Cabo de São Tomé, Norte do Estado do Rio de Janeiro e o Nordeste da Argentina. Mapas batimétricos fornecidos por trabalhos de Motonaga Iwai (IOUSP), Zenger & Agnes (SUDEPE) para a área oceânica e por Fernando D’Incao (FURG) para a área ocupara pela espécie na Lagoa dos Patos (61.768 ha), permitiram estimar em aproximadamente 6,5 milhões de hectares (6.562.998 ha) a área de distribuição do camarão rosa. Os dados do Relatório do Grupo Permanente de Estudos Sobre o Camarão do Sudeste/Sul de 1991 mostram que a produção anual média do camarão rosa entre 1965 e 1990 foi de 8,2 mil toneladas (3,04 t em 1987 e 16,62 mil t em 1972). Esta é uma quantidade superestimada da produção de P. paulensis, pois as estatísticas pesqueiras não separam a produção de P. brasiliensis, embora a ocorrência desta espécie seja sabidamente inferior.

Os dados acima mostram que a espécie necessita de 6,5 milhões de hectares para que ocorram concentrações exploráveis pelo homem de 8,2 mil toneladas – o que determina que esta exploração seja da ordem de 1,25 kg/ha/ano. Este número não representa a densidade da espécie, pois a sua distribuição não é contínua. Reflete apenas suas exigências relativas ao hábitat e a capacidade e o interesse do homem em explorar as regiões onde ela ocorre em altas concentrações. Estas mesmas relações nas atividades de cultivo da espécie no sul do Brasil apontam para uma produção de 600 kg/ha, e dois ciclos anuais, ou 1.200 km/ha/ano, o que aumenta 1.000 vezes a capacidade humana de produzir camarões, por unidade de área, em cultivos semi-extensivos, se comparada à pesca.

Dito de outra maneira, são necessários apenas 8 mil ha de tanques para que se produza a mesma quantidade de camarão rosa pescada em toda a região Sul/Sudeste do Brasil. Outra observação importante é que estes números demonstram o alto grau de pré-adaptação da espécie às condições de cativeiro.

Impactos Ambientais da Carcinicultura e da Pesca
Carcinicultura

o sucesso da carcinicultura não se estabeleceu sem danos ambientais. Taiwan, Filipinas e Equador devastaram os seus manguezais. A eutrofização dos corpos de água causada pelo alto teor de matéria orgânica dos despejos das fazendas, bem como concentrações perigosas de antibióticos e outras substâncias nocivas, provocaram impactos ambientais graves. Felizmente, para a natureza, esses impactos também são desastrosos para a prática da carcinicultura. A destruição dos manguesais filipinos redundou no desaparecimento da proteção contra furacões com conseqüências catastróficas para as fazendas.

O alto teor de matéria orgânica dos efIuentes das fazendas é o resultado de rações (e seu manejo) deficientes, causador de danos extremos aos próprios tanques.

Entretanto, para este tipo de impacto, existem medidas mitigadoras exeqüíveis. A legislação de proteção ao ambiente pode garantir um planejamento ambiental harmonizador entre a instalação de fazendas e os ambientes costeiros, além de já existir tecnologia para o reflorestamento de manguezais (um ecossistema tropical cuja baixa diversidade é uma exceção). A melhoria das rações é apenas uma questão técnica e o seu oferecimento em bandejas (como ocorre na fazenda Marine no R.G. do Norte), associado ao uso de lagoas de estabilização e cultivo de moluscos filtra dores pode reduzir drasticamente o teor de matéria orgânica e outras substâncias desses efIuentes.

Pesca

Os impactos ambientais produzidos pela pesca de camarão são freqüentemente minimizados, mas esta é uma das atividades mais prejudiciais aos sistemas bentônicos marinhos. As malhas finas das redes de arrasto usadas nos barcos camaroneiros não distinguem os camarões de outros organismos e uma grande quantidade de peixes jovens de espécies de valor comercial é capturada e devolvida morta ao mar. Outros organismos bentônicos sofrem injúrias graves resultantes da captura ou também da desorganização do substrato ocasionada pela passagem das redes.

O camarão sete-barbas é uma espécie com ciclo de vida concluído apenas em regiões marinhas e os jovens e adultos podem coexistir em uma mesma área. Estudos realizados por pesquisadores do Instituto de Pesca de São Paulo relatam um descarte de 20% de indivíduos jovens de tamanho não comercializável, além da fauna acompanhante.

A proporção média das capturas entre camarões e a fauna acompanhante, nos mares brasileiros, foi estimada em estudos realizados por diversos autores e são da ordem de 1 kg de camarão para 28 kgde peixes – para a pesca de camarão rosa e branco e 1:1,08 para a pesca do camarão sete barbas.

Estas proporções si gni ficam que pa ra cada kg de camarão capturado, são mortos e devolvidos ao mar entre 1 e 28 kg de peixes e outros organismos na pesca das espécies mais importantes do Atlântico Sul Ocidental.

Existem também importantes evidências de decréscimo na fauna acompanhante ao longo do tempo, como o verificado para a pesca do camarão Santana e camarão barba ruça na costa do R.G. do Sul: 1:40,5 kg em 1979, 1:34,1 kg, em 1980 e 1:2,4 kg em 1990.

Resultados apresentados em 1984 para a pesca do camarão rosa nas Guianas e Norte do Brasil estimaram esta proporção em 1:10 kg e o Relatório do Grupo Permanente de Estudo do Camarão Norte acusou proporções entre 1:2,4 e 1 :3,2 para atividade na costa Norte do Brasil em 1988 e 1990.

Contagens realizadas nas capturas totais de arrastos realizados em 1974 e posteriormente em 1984 nas águas da Baía Norte, em Florianópolis, SC, mostraram um decréscimo de 50% no número total de camarões, peixes e outros invertebrados bentônicos no período.

Estes dados permitem estimar o descarte de 87.208,8 t. de fauna acompanhante pela pesca oceânica de camarão rosa na costa Sul/Sudeste brasileira, responsável pelo abastecimento de 3.112,6 t.

Julga-se que a pesca artesanal (com redes de espera) na Lagoa dos Patos, captura uma quantidade desprezível de outros organismos, embora um estudo realizado no Depto de Pesca da Secretaria de Agricultura do RS, sobre a pesca de espera na Lagoa de Tramandaí, tenha demonstrado que junto com o camarão sejam capturadas 30 espécies de peixe.

A quantidade total de fauna acompanhante descartada foi estimada em valores entre 3 e 5 milhões de toneladas no início dos anos oitenta. A maneira de minimizar estas perdas que ocorreu aos ecologistas foi o aproveitamento destes peixes. Também tem sido proposta a pesca com covos. Vários estudos foram realizados e Yáñez Arancibia, eminente ecólogo mexicano, postulou que as regiões tropicais apresentariam uma proporção camarão: fauna acompanhante ao redor de 1:10 e em regiões subtropicais, ao redor de 1:5. Infelizmente, as recentes evidências do decréscimo nas quantidades da fauna acompanhante lançam sérias dúvidas com relação a esta possibilidade.

Estes dados impõem algumas questões ambientais alarmantes. A comunidade de peixes demersais na área de pesca do camarão barba ruça e no Norte do Brasil, aparentemente está composta por um pequeno número de espécies abundantes (com valor econômico) e várias espécies de baixa densidade e raras. O decréscimo da fauna acompanhante estará implicando em extinção de espécies e conseqüente regressão nos sistemas bentônicos das Plataformas Continentais (no sentido de Margalef)? Quais as conseqüências para a pesca de peixes destas regiões? Como recuperar a diversidade dos ecossistemas bentônicos agredidos pelas redes de arrasto? Não há resposta para estas perguntas.

Os impactos ambientais eventualmente promovidos pela carcinicultura são localizados, identilicáveis e as possibilidades técnicasdemitigação emesmo eliminação são uma realidade, ao contrário do que se pressente para as atividades da pesca de camarões. Um aprofundamento das questões ambientais relativas a essa atividade certamente levará a conclusão de que o termo fauna acompanhante é apenas um eufemismo para impacto ambiental devastador.

DOMESTICAÇÃO, BIODIVERSIDADE E DESENVOLVIMENTO SUSTENTADO

O sucesso recente da carcinicultura e suas relações com a pesca ainda não foram analisados em profundidade, mas é possível supor que a estabilização da produção pesqueira está relacionada às 600 mil t de camarão cultivado colocadas no mercado.

Avaliações econômicas sobre os sistemas de pesca e carcinicultura na Ásia demonstraram que o custo da produção de 1 kg de camarão é o mesmo (US$ 4,00) em ambos. É improvável que existam estoques exploráveis de camarões além dos atua is. Assim, é possível que no estágio de desenvolvimento atual de sua tecnologia, a carcinicultura já se constitua numa atividade mitigadora dos impactos ambientais da pesca camaroneira, contribuindo, pelo menos, para impedir a sua expansão.

Outro argumento de caráter ecológico para que a carcinicultura seja estudada e exercida é forncido pelo Dr. Edward Wilson (Harvard) em seu fundamental “Diversidade da vida”, recentemente publicado pela Companhia das Letras: “Uma nova espécie domesticada aumentará extraordinariamente a diversidade dos animais domésticos”. A domesticação foi exerci da pelo homem sobre um número muito pequeno de espécies animais. Quase todas são terrestres, vertebrados, mamíferos e algumas aves, de onde provém a maior parte da proteína animal da dieta humana. Estas espécies estavam pelo menos escolhidas no final do Neolítico (há 5.000 mil anos). Algumas carpas e trutas podem ser consideradas domesticadas e apenas duas espécies de invertebrados, sofreram este processo: o bicho da seda e as abelhas.

Os camarões marinhos do gênero Penaeus, pela sua aceitação como iguaria, tanto nas dietas orientais como ocidentais e o seu alto grau de pré-adaptação às condições de cativeiro são candidatos por excelência à primeira domesticação de invertebrados com finalidade de produzir proteína animal para a dieta humana, além de possibilitar o uso do mar como ambiente de cultivo de animais.

A produção de animais domesticados é mais previsível, de qualidade uniforme e apresenta uma característica que é uma salvaguarda para a natureza – raramente podem sobreviver fora das instalações providenciadas pelo homem.

O advento da carcinicultura poderá desacelerar as atividades pesqueiras, uma das mais imprevisíveis e primitivas formas de obter alimento. Obviamente não se está preconizando uma proibição pura e simples da pesca de camarões. Há muito tempo as preocupações ecológicas assumiram o seu caráter antropocêntrico e, voltando a E. Wilson “se ele (o homem) não tiver outra maneira de ganhar a vida não há como impedir a derrubada de árvores”…ou a pesca de camarões.

A tecnologia de produção de larvas e o sucesso de várias experiências de repovoamento, como a realizada por pesquisadores da UFSC na Lagoa de Ibiraquera em Santa Catarina, apontam para uma solução branda, caso a substituição da pesca pela carcinicultura .venha a se tornar uma necessidade. O repovoamento de sistemas lagunares estimularia a captura com tarrafas e covos, pouco danosas ao ambiente, aumentando a eficiência das práticas do desenvolvimento sustentado e, mais uma vez Wilson, colaborando para “conferir um dedo verde à mão invisível da economia de mercado”.