Cultivo de Clarias cresce no Brasil

A mais recente explosão de interesse por mais uma espécies exótica, o Clarias ou bagre africano, vem suscitando muitas consultas à nossa redação. São produtores em potencial em busca de informações. Atendendo a essas solicitações, o Panorama da AQÜICULTURA consultou representantes dos mais diversos setores ligados ao assunto e obteve muitas respostas que são apresentadas neste artigo.

Notamos também um fato curioso. Muitos criadores consultados conseguiram “gentilmente” não responder às perguntas. E foi neste comportamento “timido-gentil-omisso” que notamos o medo gerado pela desinformação em torno da questão da introdução de espécies exóticas em nosso país e, particularmente, do Clarias.

Por outro lado muitos outros criadores não se furtaram de informar suas experiências pessoais, até mesmo porque sabem que o Clarias está em nosso país com jeito de quem veio para ficar, assim como por aqui ficaram a truta, todas as carpas, a tilápia, vários camarões peneídeos, o Macrobrachium, o black bass, a ostra C. gigas, o bagre do canal norte americano Ictalurus punctatum entre outras espécies exóticas. Em nome dos nossos leitores agradecemos a todos que colaboraram respondendo prontamente ao nosso pedido de informações sobre o assunto Clarias. Mais do que nunca temos a certeza de que o melhor caminho para se esclarecer uma situação é este, o de discutir o assunto amplamente.

Os editores

Características

Sobre a Biologia do Clarias, solicitamos a explicação de Len Lovshin, especialista em cultivo de bagre do canal (Ictalurus) da Auburn University, EUA. Len trabalhou no Brasil de 72 a 78 no DNOCS e atualmente, além de lecionar naquela universidade, faz parte de um grupo chamado FIMS – Fisheries Information Management Services, que visa prestar consultoria através da América Latina sobre tilápia e bagre do canal (Ictalurus).

“O bagre africano, Clarias gariepinus é amplamente distribuido pela África. Habita pântanos, lagos e rios, alguns dos quais sujeitos a secas sazonais. Clarias é um peixe onívoro alimentando-se de zooplancton, organismos bentônicos e peixes. À medida que cresce, sua dieta torna-se predominantemente piscívora. Na África, cresce o interesse pelo seu cultivo. Recentemente, o Clarias foi introduzido no sudeste asiático onde as espécies C. batrachus e C. macrocephalus são nativas e altamente valorizadas para cultivo. No entanto nenhuma destas duas espécies alcança grande porte. C. gariepinus (cujo tamanho máximo na natureza é de 16 kg.), está sendo hibridizado com as duas espécies asiáticas tanto na Tailândia como na Indonésia a fim de produzir um bagre de crescimento rápido com a qualidade de carne que os asiáticos preferem.

Clarias batrachus foi introduzido na Flórida – EUA, como um peixe ornamental e escapou para o meio ambiente estabelecendo populações que se reproduzem devido às temperaturas suficientenmente quentes mesmo no inverno.

Clarias gariepinus alcança a maturidade sexual no seu primeiro ano e desova em resposta a época das chuvas. Desovam em águas rasas e seus ovos adesivos prendem-se às vegetações aquáticas. As fêmeas desovam duas ou três vezes ao ano. No entanto dificilmente desovam naturalmente em águas paradas. As fêmeas podem ser facilmente induzidas a desovar, mas os machos não. Para fertilizar os óvulos, é necessário sacrificar os machos, retirar os testículos e macerá-los a fim de obter sêmen.

Sendo Clarias um respirador aéreo, pode suprir suas exigências de oxigênio na atmosfera, quando os níveis de oxigênio dissolvido na água estão baixos. Se mantidos úmidos, o Clarias pode sobreviver fora dágua durante alguns dias. Clarias também consegue sobreviver na lama de fundo de viveiros vazios, durante semanas. Outra habilidade do Clarias é de sair rastejando de seu viveiro e migrar para outros corpos d’água. Esta migração se dá especialmente em noites chuvosas quando o terreno molhado facilita seu movimento. Os produtores de Clarias na Ásia tem o hábito de cultivá-los em viveiros de terra ou concreto, com paredes verticais para evitar que os peixes fujam.

As maiores produtividades encontradas na piscicultura em águas paradas conhecidas ao homem são obtidas em cultivo de Clarias. Despescas de 50t/ha/colheita estão documentadas bem como até 100t/ha/colheita também são reportadas mas alguma troca de água deve ter sido feita

Já que é um respirador aéreo, o Clarias tolera condições de qualidade d’água inaceitáveis para a maioria dos peixes. Apesar de aceitar bem rações que flutuam ou não, na Ásia, são alimentados com restos de peixes moídos com farelo de arroz.

Ainda na Ásia, os peixes são vendidos vivos já que podem ser levados ao mercado em cestos ou em caminhões. Enfim, é uma espécie rústica, resistente à doenças e excelente para cultivo em climas tropicais que tenham um mercado.

A carne do Clarias é avermelhada, diferente da carne branca do Channel Catfish (Ictalurus), e dos outros grandes bagres de rio apreciado pelos brasileiros. Um mercado para o Clarias terá que ser desenvolvido no Brasil, pois não sinto que ele poderá substituir o Channel catfish e outros bagres de rio. Não há mercado para o Clarias nos EUA, embora um pequeno mercado, ainda não consolidado, possa existir na Europa (Bélgica) e Japão. Já que o Clarias é uma espécie facil de cultivar, com alta produtividade, o marketing deverá ser o principal entrave no Brasil.

É necessário dizer que os Clarias sem dúvida escapará de seus tanques de cultivo e se reproduzirá no ambiente natural. O animal tem potencial para se tornar um problema às espécies nativas. Uma vez estabelecidos no meio-ambiente será impossível eliminá-lo. Cuidados devem ser tomados antes que essa espécie seja somada às espécies cultivadas no Brasil assegurando-se que seja economicamente viável. Os brasileiros estão prontos a consumir o Clarias? A importação pelos EUA desta espécie parece pouco provável para os próximos anos.”

Mas o que pensam os criadores?

Mas o que pensam os criadores? Megumi Ramada, proprietário de uma piscicultura em Tupã – SP, cria o Clarias em policultivo com pacú, tambacú e carpa cabeça grande numa área total de 8.000 m2. Utiliza uma densidade de 2/m2 e seus alevinos são provenientes de um produtor do município de Cândido Mota. O destino dos animais é seu pesque-e-pague onde são pescados com peso médio de 2 kg, peso este que alcançam após 10-12 meses de cultivo. Para alimentar os peixes Megumi prepara sua própria ração utilizando como ingredientes a ração para suínos, quirera de milho, carpil, vísceras de aves ou bovinos e mesmo com temperaturas que variam de 35 graus no verão e 5 graus no inverno o Clarias cresce muito bem, arigatô.

Mauro Nakata, outro piscicultor paulista de Mayrink, próximo a Sorocaba – SP, comprou seus primeiros alevinos do nordeste. Hoje cria o Clarias gariepinus e o Clarias batrachus, no sistema de policultivo com pacus, carpas e piau-açú e o destino é o” Pesque-e-pague Pantanosso Pescaria” onde o Clarias é o maior sucesso. Mauro diz que somente quando os bagres estão com peso acima de 40 gramas, é possível distinguir as duas espécies. O C. batrachus se parece mesmo com um sapo e a medida que vai crescendo o sua coloração escura vai tomando uma tonalidade avermelhada. principalmente a cauda. Em termos de crescimento Mauro afirma que não conseguiu perceber vantagens entre uma espécie e outra. Os clientes gostam mesmo é do sabor da carne e o fato de não ter espinhas é o maior sucesso em churrascos. Fora a cabeça, tudo se aproveita, garante Mauro. Os alevinos foram colocados na densidade de 3/m2 e são alimentandos 2 vezes por dia com ração extrusada. Seus Clarias chegam a mais de um 1 kg em 6 meses de cultivo. Sua observação é “ enquanto houver ração para o Clarias ele não preda os consorciados, no entanto se faltar, ele limpa tudo !”. Mauro vende seus peixes a US$ 2.20 por kg e acaba de fechar négocio num terreno em Juquiá também para engorda de Clarias.

Hugo Von Gal cria o Clarias lazera no Municipio de Populina em SP. Seus alevinos vieram de Pariquera-Açú e Hugo faz experiências, ainda sem resultados finais, utilizando 15 peixes por m2. Utiliza tanques-rede até os alevinos alcançarem de 7 a 10 cm e transfere à seguir para os tanques de terra. Inicialmente Hugo alimentou seus peixes com ração extrusada para peixes tropicais e hoje usa ração para trutras com excelentes resultados.

Flavio Lindenberg e Max Lucas, da Moana Aquacultura Ltda., que cria e reproduz o peixe em Pariquera-Açu e Cananéia – SP, relatam suas experiências e opiniões: “Começamos nosso cultivo há quatro anos em sistema de policultivo, com 100 alevinos trazidos do nordeste. Após um ano, pesaram 1,5 kg. Não observamos canibalismo inter ou intraespecífico e estes exemplares foram mantidos separadamente como futuros reprodutores.

Nossas pesquisas de engorda iniciaram-se de uma forma mais sistemática recentemente, introduzindo-o como espécie principal em um policultivo com carpa húngara, curimatã e as carpas chinezas. De acordo com nossas projeções, atingirão em média 1 kg após 10 meses de cultivo. Em março deste ano, demos início a um outro experimento, em regime de monocultivo intensivo na densidade de 14 peixes/m3 e com baixa circulação d’água. Nestes dois sistemas, o Clarias vem sendo alimentado com ração balanceada. Temos recebidos informações de outros criadores de resultados de até 2 kg. em 6 meses de cultivo.

Os primeiros alevinos foram adquiridos em Petrolina – PE, hoje a Moana produz e comercializa seus próprios alevinos numa área de 3,5 ha dedicadas ao Clarias de uma área total de 12 ha de aqüicultura. Os peixes são comercializados entre 0,5-2,0 kg peso obtido ao final de 4 a 12 meses a um preço de US$ 2,5/kg vivo ou processado. As temperaturas do ambiente variam entre o mínimo de 13,8 ºC no inverno e o máximo de 29,9 ºC no verão.

Flávio e Max apontam as principais características da espécie que, na sua opinião, vêm de encontro com as necessidades de nossa aqüicultura:


– alto desempenho em diversas condições de cultivo.
– controla exemplares mortos de peixes, além de odonatas, girinos etc, exercendo “controle sanitário”.
– disponibilidade de alevinos.
– rusticidade e resistência ao manejo com destaque para capacidade de absorver oxigênio do ar – não se reproduzir em condições de cativeiro.
– comercialização promissora para pesca esportiva e consumo.

Mas é na qualidade da carne que a Moana Aquacultura vê uma das pricipais alternativas para a piscicultura atual, pois a considera “firme, saborosa e sem espinhos permitindo a obtenção de postas e filés de alto padrão para a industrialização”. Especialmente para esta edição, Flávio e Max fizeram um levantamento do rendimento de carcaça do Clarias (quadro 1).

Quadro 1
  gramas
%
Peso total
6.600
100
visceras
250
4
cabeças
1.750
26
barbatanas
450
7
Carcaça limpa
4.150
63
Filé
3.320
50
Resíduos
830
13
Dados da Moana Aquicultura Ltda.
utilizando 6 peixes

Com relação a questão das espécies exóticas no Brasil os piscicultores Max Lucas e Flavio Lindenberg acrescentam: “His-toricamente, observamos que o desenvolvimento da piscicultura no mundo tem passado também pelo cultivo de novas espécies exóticas. Esta dinâmica gerou e vem gerando grandes discussões referentes ao impacto que o cultivo de peixes exóticos pode causar no meio ambiente. Países líderes hoje na aquicultura, apresentam posições e soluções diversas sobre esta questão.

Estamos vivendo no momento um novo impulso na piscicultura brasileira. Acreditamos ser de extrema importância e relevância as questões ambientalistas. Não podemos deixar de colocar que as previsões de impacto ambiental levantadas no passado recente com a introdução de espécies exóticas hoje cultivadas em nosso país, não se confirmaram. Necessitamos que as autoridades e os centros de pesquisa tratem o desenvolvimento da piscicultura com seriedade, apresentando estudos que respondam toda esta problemática de forma abrangente e científica, não dissociando-a das grandes ameaças a qualidade de nossas águas e a riqueza de nossa ictiofauna (com potencial praticamente desconhecido), pela ação da poluição, desmatamento ciliar, assoreamento, barragens e pesca predatória.

Em um país com o potencial aqüícola como o nosso, seria um grande ônus ao seu crescimento, não investirmos no cultivo das espécies já existentes ou nos fecharmos para o que existe na aqüicultura mundial.”

Do nordeste, o produtor de alevinos Modesto Guedes, da Mar Doce nos informa que seus alevinos são da espécie Clarias batrachus. Em Recife – PE, dos 6,5 ha de seu plantel de reprodutores 1,8 ha são dedicados ao Clarias, uma porcentagem alta de ocupação numa instalação exclu-sivamente produtora de alevinos. Modesto aponta uma alta demanda pelo Clarias e diz que a Mar Doce para manter a oferta aproveitará as excelentes condições climáticas do Nordeste para produzir alevinos ao longo do ano todo. Seus clientes costumam povoar os viveiros com 3 a 5 alevinos por m2 e recomenda arraçoamento e adubação. Os animais que são comercializados no mercado de Recife tem alcançado preços de US$ 2.50 o quilo do filé.

Os cientistas?

A Sociedade Brasileira de Ictiologia (SBI), foi consultada na pessoa do secretário Paulo de Tarso da Cunha Chaves do Departamento de Zoologia da Universidade Federal do Paraná (C.P. 19020 cep 81531-970 Curitiba, PR).

Paulo prossegue: “A larga distribuição de espécies exóticas nos sistemas aquáticos brasileiros chama atenção por dois aspectos: pela competição com as espécies nativas, e pelos motivos que conduziram a tal situação.

Estas preocupações já foram manifestadas por diversos membros da SBI no seu Boletim Infonuativo. A repartição de espaço por vezes resultando em desaparecimento das espécies originais, foi denunciada por P.A. Buckup em Lagoa Santa, MG(B.I. 19,1990): Caracidiíneos que outrora serviram para descrição de espécie nova haviam sido substitui dos por Poecilia e Ti/apia. Sim, a competição é apenas unIa das possibilidades; mas até que se conheça com profundidade o sistema, todo fato novo representa uma ameaça.

Deste conhecimento (ou de sua falta) dcriva o segundo aspecto a ser discutido: Por quê as espécies exóticas atingiram tamanha distribuição? Negligência, imperícia, estímulo à piscosidade dos sistemas?! Referindo-se à tilápia , P.R. Lopes escreve que “…é lamentável que unIa espécie importada para ser criada em ambientes fech_dos seja agora encontrada em rios da Bahia”(B.I. J], 1989). Enaimportação destas espécies que reside a causa do problema, ena pesquisa das espécies nativas a sua solução. Como causa principal, a sua maior facilidade de manejo, um know-how bem estabelecido, em oposição ao ainda incipiente grau de conhecimento sobre nossas próprias espécies. Aqui, convém lembranuos que bom paladar e facilidade de adaptação aos sistemas sul-americanos são características também partilhadas pelas espécies nativas. Como parte da solução a geração de maiores conhecimentos sobre as nossas espécies, de fonua a captar para estas os esforços dos piscicultores e o apetite do poder aquisitivo dos conswuidores.

Convém lembrar que o conceito de espécie exótica não se restringe àquelas vindas de outros continentes. O Prof. J.C. Garavello (B.I. 19, 1990) lembra que a introdução de espécies brasileiras de bacias que não são as suas de orígem, além de prováveis consequências biológicas cria mais wu problema, este acadêmico: a compreensão dos eventos zoogeográficos. Segundo ele, “toda introdução de espécie alienígena a um sistema deveria ser comunicada em periódicos, para que a comunidade ictiológica tomasse ciência”. Paulo de Tarso sugere ainda que a Sociedade Brasileira de Ictiologia venha a ser wu fórwn para estes COI1IWIicados.

E O IBAMA o que tem a dizer?

Segundo Carlos Eduardo Proença, da Diretoria de Recursos Renováveis do IBAMA, o Artigo 34 do Decreto Lei n° 221 de 28/02/1967 diz que “é proibido a importação ou exportação de quaisquer espécies aquáticas, em qualquer estágio de evolução, bem como a introdução de espécies nativas ou exóticas nas águas interiores, sem a autorização da SUDEPE”. Tendo o IBAMA incorporado a SUDEPE e não tendo sido revogado o Decreto Lei em questão, esta norma continua válida. Trata-se entretanto de um procedimento muito dificil de ser fiscalizado com rigor, ainda mais se consideranuos o número reduzido de fiscais que o IBAMA possui hoje em seu quadro. A falta de wua fiscalização rigorosa nos aeroportos e fronteiras penuite que indivíduos entrem facihl)ente no país portando formas juvenis das mais variadas espécies de organismos aquáticos.

Para Proença, foi exatamente o que aconteceu no caso de C/arias gariepinlls, antigamente denominado C/arias /azera e vulgarmente conhecido como “bagre africano”. O IBAMA tomou conhecimento da introdução do bagre africano no Brasil em fins de 1990. Nessa época já havia ocorrido até a propagação artificial da espécie e vários piscicultores já possuíam alevinos, indicando a CODEV ASF como responsável pela introdução da espécie no Brasil. De fato, todos os indícios levam a crer que algwls técnicos daquele órgão, que viajaram para a Hungria na década de 80, , trouxeram o C/arias em suas bagagens e colocaram-no em um viveiro, possivelmente em Petrolina. Embora estes fatos sejam conhecidos por muitos, fica dificil prová-Ios na prática.

Quanto à dispersão da espécie no país, foi tão rápida que quase nada pudemos fazer, diz Proença. A elaboração de wua portaria e o treinamento dos fiscais para reconhecimento da espécie são processos relativamente demorados wna vez que dependem de reuniões com técnicos de várias partes do paíse e, no IBAMA, os mesmos fiscais tem que vigiar: madeira, animais silvestres, plantas, peixes e outros seres aquáticos, etc.

Preocupados com esta situação o IBAMA e a ABRAQ estão preparando para ainda este semestre um seminário para discussão da problemática envolvendo a introdução de espécies exóticas ao país e suas diferentes bacias, incluindo a questão dos híbridos produzidos artificialmente via aqüicultura. Deste seminário deverão sair propostas de medidas para corrigir ou minimizar os aspectos negativos de tais atividades.

Adicionalmente Carlos Proença nos infoma que na região de Brasília existem dois produtores de Clarias e ambos estão extremamente satisfeitos com os resultados de cultivo. Consideram a carne de ótima qualidade, levemente amarelada e com poucos espinhos. Face ao fracasso da carpa comwn e das chinesas no mercado local, o bagre tem despontado como wua das espécies mais viáveis para a piscicultura em clima tropical de altitude como é o de Brasília.

E a nossa Associação?

A Associação Brasileira de Aqüicultura (ABRAQ) opina: “A introdução e transferência de peixes entre bacias hidrográficas, ao redor do mundo, tem sido realizada desde os tempos imemoráveis, por razões as quais eram justificadas, principalmente pelo sentimento nacionalista dos povos migrantes, de conviver com organismos familiares; pelo desejo de incrementar a fauna local, para a promoção das atividades esportivas e viabilização técnico econômica da criação de peixes em cativeiro.

Estas são práticas de tempos em que pouco se conhecia e pouco se importava com questões de biodiversidade e disseminação de organismos patogênicos. Não encontramos entre estas razões nenhuma que possa justificar a introdução do Clarias na piscicultura brasileira e preocupa-nos mais que as razões que justifiquem a sua introdução, quais as conseqÜências que ela poderia trazer para o comprometimento da biodiversidade ictíica, em ambientes naturais, onde se corre o risco do seu estabelecimento e colonização.

No Brasil, a introdução e transferência de peixes, entre bacias hidrográficas tem sido um procedimento amplamente debatido desde os primórdios de nossa piscicultura. dentre os maiores estudiosos da biologia de peixes brasileiros, encontram-se ilustres como Ihering e Pedro de Azevedo que tiveram grande destaque na piscicultura mundial tornando-se conhecido pela evidente fobia que dedicavam às espécies alienígenas. Entretanto encontrava-se entre os técnicos desenvolvimentistas da sua época, justificativas de que a impossibilidade dos nossos peixes fluviais, migradores desovarem em cativeiro, inviabilizava a sua criação em tanques e represas. Assim em 1938, nossa piscicultura tropical dedica-se a aventuras com espécies exóticas, como a tilápia (1: melanoplellra – Zaire); blue gilI (Lepomis macrochirus – -USA); black bass (Microplerus salll1oide.\_ dentre outras como as carpas chinesas e as carpas comuns. Pouquíssimas destas espécies, contribuiram como alternativa alimentar, para a piscicultura brasileira. Destacamse, as carpas em Santa Catarina e as tilápias no nordeste. Contudo, na maioria das vezes, as espécies exóticas contribuiram para a introdução de agentes patogênicos em todo território nacional, o comprometimento ambienta I e uma deprimente sensação de perda de tempo, pois a piscicultura tropical brasileira começou a ser expressiva somente a partir da década de 80 com a viabilização de peixes serras almíneos, servindo de incentivo a outras espécies. Infelizmente ainda hoje encontra-se entre nossos técnicos e piscicultores a prática das malfadadas aventuras amadorísticas, de introdução indiscriminada, de espécies exóticas, desconhecidas, sem a mínima preocupação com a conservação da biodiversidade, nos ambiente aquáticos mais ricos em diversidade ictíica do mundo e sem sustentação prática em razão dos beneficios que estas espécies possam trazer para o desenvolvimento da piscicultura no Brasil.

Urge que sejam realizados encontros e intercâmbios técnico-científicos para incentivar os nossos ictiólogos a se dedicarem aos estudos ambientais decorrentes da introdução de espécies exóticas que possam subsidiar medidas práticas a este respeito, para sustentar o desenvolvimento racional da piscicultura em nosso país.

Este parecer expressa o ponto de vista e preocupação da ABRAq em não frear o desenvolvimento da piscicultura brasileira, onde espécies exóticas como a truta tem grande expressão mas sim contribuir para resguardar a profissionalização da piscicultura no Brasil.”