Cultivo de juvenis de L. vannamei em viveiros berçários traz flexibilidade ao produtor

Por: Walter Seiffert, Geraldo K. Foes, Edemar Andreatta e 
Elpídio Beltrame Universidade Federal de Santa Catarina,
e- mail: [email protected]

Entre os importantes avanços nas técnicas de manejo que a carcinicultura vem experimentando, destaca-se o “cultivo em três fases”, que vem sendo aperfeiçoado e implementado no Brasil, e em especial na Região Sul. Nesta técnica, numa primeira fase, as pós-larvas são acondicionadas em pré-berçários de fibra de vidro ou concreto, em densidades que variam de 25 a 80 Pls/litro. Na segunda fase, dá-se o cultivo intensivo de juvenis ou cultivo em berçário, onde as pós-larvas ocupam viveiros de terra de 1 a 2 ha (Foto 1), em densidades de 150 a 250 Pls/m2, quando se preparam para uma última fase nos viveiros de engorda de 2 a 6 ha, que são povoados com densidades de 20 a 30 juvenis/m2. Este artigo visa ressaltar os cuidados técnicos de manejo exigidos na segunda fase do cultivo (engorda intensiva de juvenis em viveiros de terra), bem como apresentar as vantagens que esta modalidade pode representar para o carcinicultor.

A Fase Dois

A engorda intensiva de juvenis, ou a fase dois do sistema trifásico, consiste em povoar um viveiro de cultivo, também chamado de berçário, com alta densidade de camarões para, posteriormente, transferi-los para um ou mais viveiros de engorda.

Dentre as vantagens do cultivo intensivo de juvenis podemos destacar: • a estocagem ou armazenamento de camarões para garantir a próxima safra da fazenda e escapar de eventuais problemas de abastecimento de pós-larvas, ocasionados por atrasos no cronograma de comercialização por parte das fazendas e de produção de pós-larvas pelos laboratórios comerciais;vv

• povoar os viveiros com juvenis 1-2g, diminuindo a taxa de mortalidade, possibilitando ganhar até um mês no tempo de cultivo;

• flexibilidade de tempo na desinfecção e preparo dos viveiros entre as safras. Sempre visando o aprimoramento da técnica, a Fazenda Experimental Yakult/UFSC adotou o cultivo em três fases desde 2000.

Na Tabela 1, estão os resultados obtidos até o momento.

No início, o cultivo foi feito para liberar o excedente de pós-larvas no final da safra verão-outono, pois a região sul do Estado de Santa Catarina não faz povoamentos após o mês de março, devido às baixas temperaturas. No entanto, a Região norte do estado pode manter o cultivo durante os meses de inverno.

O primeiro cultivo intensivo de juvenis teve problemas de disparidade nos tamanhos dos camarões, devido a erros de manejo alimentar. A alimentação de camarões em berçários deve ser efetuada tanto em bandejas indicadoras como também a lanço. Nos ciclos seguintes, esse problema foi contornado com aumento da freqüência alimentar e ajustes na tabela de alimentação através dos dados de consumo observado nas bandejas indicadoras.

Manejo

A correta preparação dos viveiros berçários é de suma importância para que, durante os primeiros dias de cultivo, as pós-larvas não tenham problemas com a quantidade e qualidade de alimento natural. A fertilização segue a relação recomendada para diatomáceas de 20:1 para N e P respectivamente, esperando-se de 15 a 20 dias para realizar o povoamento, período necessário ao desenvolvimento da produtividade aquática. De acordo com os resultados da fazenda Experimental Yakult/UFSC, as densidades de cultivo recomendadas para cultivo de juvenis ficam entre 150-250 pls/m2. De acordo com as densidades empregadas, maior atenção deve ser dada a manutenção da qualidade da água e incremento da necessidade de aeração mecânica.

Os parâmetros de qualidade de água devem ser monitorados diariamente. O oxigênio dissolvido não deve alcançar valores inferiores a 3 ppm ao amanhecer. Para manutenção dos parâmetros de qualidade de água, aeradores mecânicos são recomendados na proporção de 0,5 a 1hp para cada 500 kg de biomassa de camarões a ser produzida. Dependendo das condições de disponibilidade de água e bombeamento, é recomendável incrementar o nível de aeração.

Nos primeiros dias de cultivo é fornecida uma relação de 1,5 kg de ração para cada 100.000 pls, podendo-se aumentar esta quantidade através de uma relação 0,5 kg de ração a cada dia, dependendo da disponibilidade de alimento natural, até o décimo dia de cultivo. A partir daí, é efetuada uma biometria e através do cálculo de biomassa, os camarões são alimentados diariamente na relação de 3-5%. Parte da alimentação, 10 %, é fornecida em bandejas que servem como indicadoras de consumo.

Transferência

Quando os juvenis alcançarem o peso médio 1 a 2g, após 30-40 dias de cultivo, é recomendado que sejam transferidos para os viveiros definitivos. A forma como é feita a transferência é de extrema importância para o sucesso dessa modalidade de cultivo, sendo necessário um criterioso manejo desses juvenis. Quanto maior for o peso médio final dos camarões, maiores cuidados de manejo serão necessários para minimizar o estresse ocasionado aos camarões durante o processo de transferência. Um dia antes, por exemplo, procede-se a análise dos camarões, verificando a dureza da carapaça através de amostragem. Camarões moles não devem sofrer o processo de transferência, que consta das seguintes etapas:

1 – retirada dos camarões através da rede de despesca de 2 mm, não deixando acumular mais que 20 kg de juvenis por colheita (Fotos 2 e 3);
2 – pesagem e biometria; e,
3 – transporte até os viveiros de engorda.

Foto 2
Foto 2
Foto 3
Foto 3
O transporte dos camarões para os viveiros definitivos pode ser feito de várias maneiras:

• À seco: essa modalidade consiste em fazer uma despesca do berçário e transferir os camarões nos balaios (Fotos 4 e 5), em caminhonetes até os viveiros de engorda. A fazenda experimental Yakult/UFSC realizou um estudo para determinar o tempo que os animais suportam fora da água. Foi determinado que para o período de verão, temperaturas superiores a 260C, a etapa de transferência não deve ser superior a 5 minutos. Para as temperaturas de inverno, inferiores a 24oC, pode ser efetuada em até 10 minutos, com 100 % de sobrevivência.

Foto 4
Foto 4
Foto 5
Foto 5

• Camaroduto: quando a distância entre os viveiros berçários e os viveiros de engorda é muito grande ou as estradas não estão em boas condições, a transferência pode ser efetuada através de um reservatório de água ligado a dutos de irrigação de 100 mm de diâmetro. O reservatório de água é elevado a uma altura de até 3 m. Os camarões são pesados e elevados até a caixa para seguirem por gravidade até os viveiros de cultivo. O abastecimento da caixa de água é feito por uma eletro bomba submersível de 2,0 hp. Este procedimento já vem sendo utilizado no nordeste desde 1990, pelo Engenheiro de Pesca Enox de Paiva Maia. Algumas fazendas de Santa Catarina já utilizam está técnica com sucesso.

• Caixas de transporte: a Fazenda Experimental Yakult já utilizou esse método, utilizando uma gaiola de tela por dentro da caixa, fazendo com que os camarões sejam retirados e a água permaneça dentro da caixa, agilizando o procedimento de transferência (Fotos 6 e 7). Recomenda-se que a água da caixa de transporte seja constantemente renovada.

Foto 6
Foto 6
Foto 7
Foto 7

É importante salientar que a biomassa transferida do berçário intensivo para os viveiros de engorda é elevada, e todos os cuidados são necessários para minimizar o estresse da transferência. Deve-se levar em conta principalmente a questão meteorológica, escolhendo um dia com temperatura amena, ou então fazer a transferência durante à noite.

Dentre os desafios que surgem para o aperfeiçoamento desta modalidade de cultivo, podemos citar: a diminuição do ciclo de cultivo com melhor taxa de crescimento semanal dos juvenis; a minimização da conversão alimentar através da utilização de substratos verticais para incremento da produtividade aquática; bem como o melhor uso das bandejas como indicadoras de consumo e a otimização do dimensionamento e uso de aeradores mecânicos através de sistemas de cultivo com baixa renovação.