Cultivo de Litopenaeus vannamei: Água doce ou oligohalina?

Por: Anita Rademaker Valença
Programa de Pós-graduação em
Oceanografia, Universidade Federal de Pernambuco (UFPE).
E-mail: [email protected]
George Nilson Mendes – Laboratório de Aqüicultura
Departamento de Zoologia, Centro de Ciências
Biológicas da UFPE,
E-mail: [email protected]


Tradicionalmente o cultivo do camarão é feito em áreas costeiras, muitas vezes próximas a estuários, valorizadas por sua beleza e riqueza de fauna e flora. São também áreas muito visadas pelo setor imobiliário e por grupos de ambientalistas. Ultimamente, em decorrência do sucesso da carcinicultura brasileira, o custo unitário do hectare nessas áreas têm se tornado cada vez mais valorizado, muitas vezes inviabilizando o início da atividade, principalmente para os pequenos e médios produtores.

Uma modalidade de cultivo tem chamado a atenção ultimamente pelo seu rápido crescimento, é a engorda do camarão L.vannamei em águas interiores, longe da costa. Dependendo da região, o valor do hectare de terra nas imediações de um açude, ou em local que disponha de lençol subterrâneo de água doce ou salobra, pode ser até 20 vezes menor do que o valor do hectare nas áreas próximas ao mar.

No Brasil o crescimento desta modalidade de cultivo já vem sendo realizado em todo o nordeste, destacando-se Itabaiana-PB, onde a produtividade está em torno de 10 ton/ha/ano. Também na região de Curimataú, a mais seca da Paraíba, com índice pluviométrico médio inferior a 200 mm/ano – no interior nordestino a média é de 400 a 600 mm/ano – vem sendo desenvolvido o Projeto Peixe-Camarão-Halófito-Sal (PCHS), utilizando rejeito de dessalinizador desenvolvido pela Fundação Parque Tecnológico da Paraíba, sediada em Campina Grande. No final de 2002 foram despescados 3,6 toneladas de camarão Litopenaeus vannamei em 3,2 hectares de área. A sobrevivência e o peso final ficando em torno de 70% e 12 g, respectivamente.

O sabor do camarão criado nestes ambientes não difere daquele criado em água salgada segundo testes sensoriais feitos no Equador e nos EUA. Porém, é necessário manter-se um rigoroso padrão de qualidade da água do cultivo.

Osmorregulação?

Não é só no Brasil que o cultivo do L.vannamei é realizado em águas interiores. No Equador, os produtores notaram que na época das chuvas os camarões sobreviviam e cresciam bem em viveiros onde a salinidade chegava a zero. No México, granjas afastadas da costa, que anteriormente se dedicavam ao cultivo do camarão de água doce Macrobrachium rosenbergii (o camarão da Malásia), passaram a cultivar com sucesso o L. vannamei.

Esses fatos ilustram a grande capacidade desse camarão em se adaptar a uma ampla faixa de salinidade, resultado da sua ótima capacidade de osmorregulação. Mas o que é osmorregulação? A grosso modo, poderíamos dizer que um ser vivo é composto por uma solução aquosa envolta por uma membrana, a superfície do corpo e, para se manter vivo, é preciso que o volume desse organismo e as concentrações dos íons, aminoácidos, etc. (solutos) da sua solução aquosa sejam mantidos dentro de limites bastante restritos. A osmorregulação é justamente o processo que regula a concentração desses solutos no fluido corpóreo dos animais, mantendo-os em equilíbrio com o meio onde vive.

As alterações nas concentrações dos íons no meio aquático, fazem com que os animais reajam de duas maneiras. Alguns se adaptam ao meio alterando a concentração osmótica dos seus fluidos corpóreos até que se igualem ao meio em que estão imersos, permanecendo, dessa forma, isosmóticos em relação a este meio – tais animais são considerados osmoconformadores. Já outros animais utilizam-se de mecanismos reguladores para que sejam mantidas as suas próprias concentrações de íons, independente da concentração do meio – são denominado osmorreguladores.

Os camarões peneídeos possuem espécies estenohalinas, isto é, não toleram grandes variações de salinidade, e espécies eurihalinas, que suportam grandes variações de salinidade. Dentre as espécies eurihalinas podemos citar os camarões Penaeus monodon, Litopenaeus schmitti e o Litopenaeus vannamei. A espécie L. vannamei é conhecida como potente osmorreguladora, podendo habitar desde águas com salinidades superiores a 40‰ até águas com salinidades muito próximas a zero. Essa tolerância a amplas faixas de salinidade está relacionada com o ciclo de vida migratório destes camarões, onde a reprodução ocorre no oceano, sendo as larvas levadas pelas correntes marinhas para dentro dos estuários e das baías, onde crescem. Durante a migração para os estuários as larvas passam por grandes mudanças morfológicas e fisiológicas necessárias à sua adaptação aos estuários, ambientes menos estáveis que os oceanos. Quando aí chegam, se encontram na fase chamada pós-larva (PL), onde são semelhantes aos juvenis, diferenciando-se apenas pelo número de dentes rostrais e proporções do corpo.

As pós-larvas e os juvenis de L. vannamei são organismos estuarinos extremamente eurihalinos, isto é, se adaptam a uma ampla faixa de salinidade. Em salinidades baixas estes animais são hiperosmóticos em relação ao meio circundante, isto é, a sua concentração interna de sais é maior que a do ambiente, levando o animal a se deparar com dois problemas: (1) a água tende a fluir para o seu interior, e (2) os solutos (íons, aminoácidos, etc.) tendem a ser perdidos, porque a concentração interna é superior e também porque a água que entra precisa ser excretada, levando consigo alguns solutos.

Como conseguem então compensar essa perda de solutos? Uma forma de obter os íons necessários se dá através da alimentação. Entretanto, pesquisas indicam que mesmo quando passam fome, estes animais conseguem manter as suas usuais concentrações internas, cabendo então às brânquias a responsabilidade pela captação de íons do meio, através do transporte ativo nos crustáceos hiperosmóticos. Existem muitas pesquisas que relacionam a idade das PLs e o conseqüente desenvolvimento das suas brânquias, para determinar o período ideal para que seja feita a aclimatação para “águas doces”. O pleno desenvolvimento dos arcos branquiais é hoje considerado fundamental para o sucesso da aclimatação. No entanto a capacidade osmorregulatória só se desenvolve plenamente quando as estruturas branquiais e um certo nível de atividade da enzima (Na+ , K+)-ATPase existirem. Esta enzima está envolvida no transporte de cátions em muitos tecidos de vertebrados e invertebrados. Os cátions por ela transportados constituem-se nos íons importantes para o metabolismo do camarão, como o sódio e o potássio. Além deles, os aminoácidos, a exemplo da arginina, lisina e glicina, também são importantes para manutenção do equilíbrio osmótico do animal.

No congresso da WAS, realizado em Salvador em maio de 2003, pesquisadores da Auburn University, entre eles o Dr. Allen Davis, apresentaram os resultados de um trabalho em que analisaram o efeito da idade e dos íons potássio (K+) e magnésio (Mg++) na aclimatação de PLs a águas interiores de baixa salinidade em duas fazendas no oeste do Alabama. A sobrevivência, em torno de 75%, foi afetada pela ausência de um destes íons na água, e foi maior (89%) para os tratamentos em que os dois íons foram acrescentados à água. Da mesma forma, a sobrevivência e o crescimento das PLs aumentaram com o aumento da idade, tendo a maior sobrevivência (94%) ocorrido quando a aclimatação foi feita quando as pós-larvas tinham 27 dias de vida (PL27) e a menor (67%), com PL15.

O camarão marinho cultivado em baixa salinidade retira os minerais necessários para sua osmorregulação da água e da alimentação, tendo a ração um importante papel como fonte de minerais para o animal, podendo mesmo ser determinante no sucesso de um cultivo. Vale ressaltar aqui o trabalho do Dr. Muylder, também apresentado no último congresso da WAS realizado em Salvador. Ele comparou as perdas de minerais nos péletes de ração em água salgada e doce. Verificou que os íons Na+ e K+, após 1 hora de submersão, foram os que mais se liberaram dos péletes e esta perda foi maior e mais rápida na água doce. Os íons Ca++ e Mg++ não foram afetados pela salinidade. A perda de potássio (K+) na ração foi de 77% após 1 h de imersão.

Propriedades da Água

Muitas pesquisas têm sido feitas para determinar quais os limites para o cultivo do Litopenaeus vannamei relacionadas à idade da pós-larva, íons essenciais para sua sobrevivência e métodos de aclimatação para cultivos em águas de baixa salinidade. Nos Estados Unidos as universidades que mais têm investido nesta linha de pesquisa são a Auburn University no Alabama, a Texas A&M University e o Instituto Oceanográfico Harbor Branch, na Flórida. No Brasil o Laboratório de Aqüicultura do Dep. Zoologia da UFPE foi o primeiro a pesquisar o assunto e, atualmente, várias universidades e órgãos de pesquisa no Brasil vêm contribuindo com mais conhecimento e tecnologia para o cultivo deste animal em águas interiores.

Toda água contém substâncias dissolvidas. Associadas a temperatura, essas substâncias (sais, gases, pequena quantidade de compostos orgânicos e vários poluentes) constituem-se em fatores de grande importância sob o ponto de vista fisiológico. Assim sendo, a qualidade da água do cultivo é determinante para o sucesso ou o fracasso do empreendimento em águas interiores.

Os principais parâmetros que devem ser considerados no cultivo do L. vannamei nessas águas são a salinidade, os cloretos (Cl-), a dureza e a alcalinidade, e os parâmetros recomendados podem ser vistos na tabela.

Salinidade

A salinidade é a medida da concentração dos íons dissolvidos na água expressa em gramas por litro ou partes por mil (ppt ou ‰). Muitos artigos têm como título cultivo de camarão marinho em água doce. Isto tem causado a falsa impressão de que o Litopenaeus vannamei pode ser cultivado em qualquer água. E não é bem assim. De acordo com as pesquisas o limite mais baixo é de 0,5 ppt de sais dissolvidos na água.

Acontece que 0,5 ppt é o limite didaticamente citado para separar uma água doce de uma de baixa salinidade ou oligohalina. Segundo Fast (1986), citado por Boyd em seu “Manual de manejo da qualidade da água”, as águas são classificadas em relação à salinidade como: água doce até 0,5 ppt; oligohalina de 0,5 a 3,0 ppt; mesohalina de 3,0 a 16,5 ppt; polihalina de 16,5 a 30,0 ppt; marinha de 30,0 a 40,0 ppt; hipersalina > 40,0 ppt.

Aí está a confusão, pois uma água com 0,5 ppt de salinidade tanto pode ser classificada como doce ou como oligohalina. Para discernir entre uma e outra devemos nos basear em outros parâmetros como alcalinidade, dureza, condutividade, clorinidade, pois águas oligohalinas apresentam valores mais altos destes parâmetros se compararmos com a água doce.

Há vários métodos para se medir a salinidade da água, e estes se baseiam no efeito dos sais dissolvidos sobre as propriedades físicas da água. O mais prático, sem dúvida, é o uso do instrumento chamado de refratômetro. Os refratômetros manuais normalmente utilizados pelos criadores de camarão não medem a salinidade com necessária precisão quando esta é baixa, por isto nem sempre quando este registra 0 ppt de salinidade, isto corresponde a realidade.

Outro instrumento usado é o condutivímetro, que mede a quantidade de mineral dissolvido na água e também a capacidade de uma solução aquosa conduzir uma corrente elétrica. Quanto maior a proporção de íons na água maior a condutividade. A condutividade é medida em mmhos/cm (micromho por centímetro). A água destilada tem uma condutividade em torno de 1 mmhos/cm, enquanto a água doce normalmente tem condutividades de 20 a 1500 mmhos/cm. Os condutivímetros permitem estimar rapidamente o grau de mineralização da água, alguns são calibrados para leituras diretas da salinidade e total de sólidos dissolvidos na água.

Outro método relativamente simples de se medir a salinidade da água é através da sua clorinidade. A clorinidade é definida como o peso total dos íons cloreto, brometo e iodeto em 1 kg de água do mar após todo brometo e iodeto terem sido substituídos pelo cloreto. Os cloretos correspondem a 55% dos íons inorgânicos dissolvidos na água do mar a 35 ppt. Para medir os cloretos na água usam-se kits de análise de água vendidos por empresas especializadas de aqüicultura. Para calcular a salinidade, converta o valor de clorinidade usando a fórmula abaixo de Boyd e Lichtkippler:

Salinidade(ppt)=30+(1,805 x Cl-)/1000, onde:
S = nível de salinidade da água (ppt ou g/L) 
Cl- = concentração de cloretos da amostra de água analisada (ppm ou mg/L).

Ou ainda, segundo Wyk et al. (1999), baseado no fato de que os cloretos correspondem a 55% dos íons presentes na água do mar a 35 ppt, pode-se calcular a salinidade aproximada em ppt dividindo-se a concentração de cloreto encontrada por 550. Por exemplo, se a concentração de Cl- medida foi 300 ppm, a salinidade correspondente será 0,545 ppt (= 300/550). Este é um método preciso e barato para medir as águas de baixa salinidade, cujo sal dominante é o cloreto de sódio.

Do ponto de vista prático, o produtor que cultiva ou pretende cultivar o camarão L. vannamei e depende de água de poço salinizada, deve preocupar-se apenas com o período de chuvas e a vazão do seu poço. Ou seja, antes de começar a construir seus viveiros, deve verificar qual foi o maior índice pluviométrico da sua região, e se o seu poço será capaz de suprir água suficiente para manter os parâmetros da água dentro dos níveis recomendados para o cultivo.

A vazão ideal para abastecer um sistema de cultivo é de 9.000 litros/hora. Normalmente os poços das regiões do agreste e do sertão do nordeste raramente apresentam vazão superior a 3.000 litros por hora, insuficiente, portanto, para manter um cultivo, mas que podem ser utilizados como complemento e ajuste dos parâmetros hidrológicos dos viveiros. Por outro lado, existem também diversos rios, riachos, açudes e barragens nessas regiões que apresentam características hidrológicas ideais para o desenvolvimento dessa nova modalidade de cultivo do camarão marinho.

Dureza e Alcalinidade

A concentração total de todos os cátions divalentes, expressa em mg/L de carbonato de cálcio, é a dureza total. Os cátions divalentes são íons de carga positiva de valência 2, dos quais os predominantes na água são o cálcio (Ca++ ) e o magnésio (Mg++). Estes dois íons podem ser absorvidos pelo camarão através das brânquias. A dureza é geralmente medida através de método químico de titulação, embora também existam fitas coloridas indicadoras como as usadas para medir pH. Água com uma dureza total de 0 – 75 ppm é considerada mole, 75 – 150 ppm é moderamente dura, 150 –300 ppm é dura e maior que 300 ppm é muito dura. A água do mar tem uma dureza total de aproximadamente 6.600 ppm.

A alcalinidade total é a concentração total de bases na água, expressa em miligramas por litro do equivalente de carbonato de cálcio (CaCO3), é derivada da dissolução do calcário contido nos solos. As características do solo determinam a concentração alcalina.

A dureza e a alcalinidade são freqüentemente confundidas pois ambas são expressas em mg/L de CaCO3 e costumam apresentar concentrações iguais na maioria das águas. Entretanto, se a alcalinidade for derivada da dissolução de carbonato de sódio ao invés de carbonato de cálcio ou magnésio, é possível ocorrer baixa dureza e alta alcalinidade. As águas ácidas costumam apresentar dureza mais elevada que a alcalinidade, pois a base bicarbonato é neutralizada pela acidez, enquanto os íons responsáveis pela dureza não se modificam.

A dureza e a alcalinidade vêm sendo consideradas como os mais importantes parâmetros para o sucesso de um cultivo do L. vannamei em águas interiores, mais importante até que a salinidade. Isto porque elas parecem suprir os íons necessários para o equilíbrio osmótico destes camarões. No laboratório de aqüicultura da UFPE comprovamos este fato ao cultivar L. vannamei em água doce, 0 ppt aferido pelo método de “Mohr-Knudsen”, por um período de 112 dias alcançando peso médio final de 8,5g e sobrevivências de 66,6% e 73,3%, a dureza da água variando de 100 a 268 mg/L de CaCO3.

Valores baixos de dureza e alcalinidade podem ser aumentados através da calagem da água ou do solo. Para calagem da água de viveiros já povoados a preferência deve recair para o uso do calcário agrícola dolomítico, pois apresentam maiores teores de magnésio. Quanto mais fina a granulometria do calcário, melhor. A cal hidratada e cal virgem devem ser usadas apenas no solo dos viveiros vazios, pois se aplicados na água fazem o pH subir muito rapidamente e isto pode ser prejudicial para as pós-larvas de camarões. É importante lembrar que em águas de viveiro com 80 a 100 mg/Litro de alcalinidade, o calcário agrícola geralmente não se dissolve, por isto, para não perder dinheiro, sempre que puder, o produtor deve proceder a análise da dureza e da alcalinidade da água ou do solo antes da calagem. Geralmente aplica-se entre 100 a 200 kg de calcário por 1.000 m2 (ou 1.000 a 2.000 kg/hectare).

O tipo de solo tem uma grande influência nos valores de dureza e alcalinidade, isto porque ambas derivam principalmente da dissolução do calcário contido nos solos. Antes de se decidir por uma área para cultivo do camarão, um procedimento correto seria a análise da água e do solo. Os cultivos de L. vannamei em água doce no estado de Colima no México, são feitos em viveiros cujos solos são compostos de Calcita e Dolomita de Cálcio, Magnésio e Silicoaluminato de Cálcio e Magnésio. A presença destes minerais contribui para a manutenção da dureza e alcalinidade da água nos viveiros e favorece o crescimento do camarão.

Vocação do vannamei

Como vimos, a versatilidade do Litopenaeus vannamei para adaptar-se a diferentes tipos de água é o grande atrativo para a migração dos cultivos de camarão das áreas litorâneas para o interior. Segundo levantamento da Associação Brasileira dos Criadores de Camarão (ABCC), há 30 mil poços sem uso no semi-árido nordestino porque a água é salobra. A criação de camarões é uma das atividades que mais emprega mão-de-obra no país e a interiorização da produção de camarão marinho pode contribuir para diminuir a pobreza do homem nordestino. Porém para que a atividade seja bem-sucedida mais esforços devem ser feitos para a compreensão dos limites e requerimentos fisiológicos do Litopenaeus vannamei nos diferentes tipos de água, principalmente pelos órgãos de fomento a pesquisa, que devem incentivar as universidades a desenvolver projetos que forneçam subsídios aos carcinicultores nessa nova modalidade de cultivo.