Cultivo de Pintado e Cachara – Espécie Nativa

O pintado é o nome popular dado a peixes de duas espécies muito parecidas, encontradas em vários rios, principalmente os que compõe a Bacia do Paraguai, São Francisco e Amazonas.

São peixes de couro, ou seja, não possuem escamas no corpo. Possuem barbilhões que são originados no maxilar e mandíbula, conhecidos popularmente como bigodes. As nadadeiras peitorais e dorsal possuem um acúleo (ferrão, espinho), que produzem ferimentos bastante dolorosos quando mal manejados. Todas as espécies do gênero são carnívoras.

O nome científico das duas espécies trabalhadas são Pseudoplatystoma coruscans e Pseudoplatystoma fasciatum. Há, dentro da nomenclatura popular algumas diferenças entre os nomes, sendo que podemos encontrar variações de uso, como por exemplo: pintado (São Paulo e Paraná), cachara (Pantanal) e surubim (Pantanal Mato-Grossense e Paraná).

Quando nos referimos às duas espécies chamaremos de pintado o P. coruscans e o cachara o P. fasciatum. A diferença entre elas é marcante no desenho das manchas que existem ao longo do corpo. O pintado tem manchas redondas pretas e o cachara possui desenhos pretos com várias formas, desde círculos até pintas, passando por riscos de formas variadas. O formato dos peixes é semelhante, assim como a palatabilidade da carne, sendo que um e outro, apresentam elevado valor de mercado.

Existe no entanto, uma diferença muito importante entre os dois, que é o tamanho em que são encontrados na natureza. Os pintados são maiores, atingindo o peso máximo de até 70 kg e o cachara é de menor tamanho, atingindo até 20 kg de peso. Ambos podem alcançar mais de um metro de comprimento. Outra característica comum, além da carne apreciada pela sua excelente palatabilidade, é que não possuem espinhos, apenas ossos, não oferecendo portanto, dificuldades e/ou riscos na alimentação humana.

QUAL É A IMPORTÂNCIA DO PINTADO NA PISCICULTURA?

A primeira desova obtida artificialmente foi a do cachara na Ve-nezuela, por Kossowski e Madri em 1985 onde puderam ser obtidos vários alevinos. Outras tentativas foram realizadas posteriormente, igualmente com sucesso, tanto em pintado como em cachara.

Ocorre, no entanto que a despeito da facilidade de desova destes peixes, havia um obstáculo na larvicultura que invariavelmente resultava na mortalidade de quase todas as larvas. Nesta fase apesar dos esforços dos pesquisadores, apenas poucos alevinos sobreviviam ( no máximo 500 unidades por piscicultura). Várias teorias foram estabelecidas para explicar o fenômeno e tentar solucioná-lo.

1 – Alimentação inadequada na fase de larvas;

2 – Canibalismo acentuado;

3 – A larva de pintado seria susceptível a doenças;

4 – A larva exigiria condições ambientais específicas.

Após muitas desovas, tanto de pintado, como de cachara, finalmente foi descoberta a solução do problema, que é principalmente alimentar; então pudemos obter a produção de alevinos em grandes quantidades. Assim, abrimos as portas para a utilização destas espécies em piscicultura.

Os piscicultores de todo o território nacional estavam ávidos por esta possibilidade, já que os dois são os peixes de maior valor comercial na região Sudeste, grande consumidora de pintado. O interesse é grande, mesmo sabendo-se que as espécies são carnívoras, exigindo portanto, alimentação cara e de tecnologia elevada. Tal fato é pouco importante quando imaginamos que algumas espécies mais produzidas no mundo são carnívoras, como o salmão, a truta e outras, e nem por isso deixam de ser comerciais. O fato de possuirem carne sem espinhos torna os peixes especialmente importantes para um futuro processo de industrialização.

Desta forma, o pintado alia várias vantagens, como a aceitação do consumidor ao elevado valor nutricional do peixe.

COMO PRODUZIR PINTADO EM CATIVEIRO

A preocupação original da criação era como alimentar esses peixes, já que têm como hábito, o consumo de peixes vivos. Assim, no primeiro momento, a recomendação foi de utilizá-los para controlar espécies indesejáveis, como lambarís e carás, em policultivo com outros peixes, a uma densidade de 10 a 15% da população total. Com isso teríamos dois benefícios:

1 – Eliminação da concorrência por espécies invasoras;

2 – Produção de uma percentagem final de pintado que poderia representar até 35% do valor total da biomassa.

A preocupação, então, era a de que o pintado poderia vir a atacar os outros peixes de engorda, porém, devemos considerar que os alevinos, estando com o mesmo tamanho vão crescendo juntos, não sendo possível ao pintado comer um outro peixe (pacu, piauçu ou curimbatá) de mesma idade.

Neste sentido foi testada a engorda de cachara conjunta com a tilápia do Nilo, apresentando nesta condição , um crescimento de 1,5 a 2,0 kg por ano.

Rodrigues e Nielson (1990) obtiveram bom crescimento de cachara na Colômbia, também em consórcio com tilápias, conforme mostra a tabela seguinte:

No entanto, logo pudemos condicionar os alevinos a consumirem alimentos inertes, e passamos a alimentá-los com carne moída de coração de boi, o que ofereceu ótimos resultados práticos, dispensando então a necessidade de peixes vivos. Tal alimentação, oferecida no final da tarde, reduziu o canibalismo a níveis mínimos. Observamos também que apesar da carne permanecer horas no fundo do tanque, ainda assim era procurada e consumida pelos pintadinhos. Tal fato sugere que o pintado poderá facilmente ser condicionado a comer ração balanceada peletizada, dispensando alimentos de elevado valor comercial.

De fato outros indícios sugerem que não será problema a alimentação com ração:

1. Peixes adultos, mesmo sendo originários do rio, são dóceis no trato, habituando-se a comer na mão do tratador, desde peixe picado até bolinhos de ração;

2. Os peixes respondem a esta alimentação apresentando corpo roliço e formação normal de gametos (óvulos e esperma).

Até o momento porém, não testamos esta possibilidade convenientemente, pelo que sugerimos aos criadores de pintado tentarem o uso de ração comercial de trutas ou outros produtos como resíduos de abatedouros, a fim de solucionar o problema de alimentação dos peixes.

Assim, podemos supor que o pintado e o cachara poderão ser não apenas a principal espécie em sistema de policultivo, como a espécie a ser utilizada em monocultivo com uso de ração, ou simplesmente o carnívoro a ser consorciado com tilápias.

A reprodução e obtenção de alevinos foram igualmente viabilizadas, tanto para o pintado, como para o cachara, porém, ainda não possuimos nenhum dado comparativo entre crescimento de um ou outro. Podemos supor que o pintado, por atingir tamanho maior que o cachara poderia crescer mais rapidamente, porém esta hipótese ainda não foi comprovada.

Dentro dos ensaios realizados até o momento, podemos citar um problema sério observado durante a criação dos alevinos (já na piscicultura de engorda) e que poderá ser o próximo obstáculo da criação. Até a fase de 12 a 15 cm, há uma forte ocorrência de odonatas (libélulas) nesses tanques e que ocupam o mesmo espaço do pintado, ou seja, a vegetação marginal que adentra o tanque produzindo sombra. Como sabemos, as odonatas são insetos que na sua fase aquática predam peixes pequenos, sendo um dos sérios problemas existentes na produção de alevinos de várias espécies no país. Até o momento não foi possível constatar a predação de pintadinhos pelas odonatas, mas tudo leva a crer que poderá ser grande e sugerimos aos piscicultores um tratamento adequado, prevendo-se este problema. A nossa sugestão é que até o tamanho de 10 cm, estes peixes sejam criados em tanques pequenos (10 a 100 m2) que permitam a observação diária da ocorrência de odonatas assim como uma alimentação mais controlada aos pintadinhos. Nesta idade, milhares de alevinos poderão ser mantidos em tanques pequenos, desde que se providencie uma boa renovação de água, visando suprir oxigênio e que se alimente com carne moída nesta fase, já que com pouca carne (100 g/dia) podemos alimentar milhares de peixes.

Como os peixes crescem muito rápido, este tratamento terá um curto período de duração. A seguir, transcrevemos o resultado de crescimento obtido por Sato e colaboradores (1988), com pintado, para esta fase:

A partir deste tamanho os alevinos poderiam ser colocados em viveiros grandes sem problemas de predação por odonatas.

Maurício Xavier Cury – Eng. Agrônomo,
Presidente da associação Sul Matogrossense de Aqüicultura