Cultivo de Polvos: Epagri inicia o cultivo experimental em Santa Catarina

Por: Jomar Carvalho Filho
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Embora a pesca do polvo em todo o mundo tenha experimentado um crescimento significativo nos últimos 20 anos, a sua produção ainda se encontra longe de atender a grande demanda do mercado por este molusco. O consumidor espanhol, no entanto, já conta desde 1996, com o polvo cultivado com sucesso nas águas da Galícia. Lá, o cultivo do Octopus vulgaris se desenvolve com o apoio do Instituto Oceanográfico de Vigo, instituição que também lidera as pesquisas voltadas para a larvicultura e engorda deste animal.

No Brasil, um intercâmbio técnico entre a EPAGRI – Empresa de Pesquisa Agropecuária e Extensão Rural de Santa Catarina S.A., e o Instituto Oceanográfico de Vigo, está permitindo a instalação do primeiro cultivo experimental de polvo no país, instalado em outubro último no litoral do Município de Bombinhas, na costa catarinense. Segundo Francisco (Chico) Oliveira Neto, responsável na Epagri pelo desenvolvimento do cultivo de moluscos no estado, a opção pelo cultivo do polvo da espécie Octopus vulgaris é a de oferecer mais um produto aos maricultores catarinenses, visto que estes já se utilizam das áreas propícias desenvolvendo o cultivo de mexilhões e ostras.
O Octopus vulgaris (Figura 1), é um polvo nativo tanto da costa brasileira como espanhola e, segundo Chico Neto, merece atenção pela sua fantástica precocidade e excelente capacidade de converter seus alimentos. Além disso, complementa Chico Neto, a importância do polvo como recurso pesqueiro é amplamente reconhecida em todo o mundo, não pelos volumes de captura, que são inferiores a muitas outras espécies marinhas, mas pelo fato de ser um produto culinário altamente apreciado.

A Engorda Experimental

O trabalho experimental iniciado recentemente no litoral catarinense tem como referência o trabalho desenvolvido pelos espanhóis. No Brasil, a Epagri recebe também a consultoria da oceanógrafa Érica Vidal, especialista em cefalópodos, hoje desenvolvendo pesquisas na Estação Marinha de Aqüicultura da Fundação Universidade do Rio Grande – FURG.

A larvicultura deste animal vem sendo estudada há muitos anos, inclusive no Brasil, através da equipe da FURG. No entanto, os principais centros de pesquisa que se dedicam ao estudo da larvicultura dessa espécie ainda não conseguiram solucionar um gargalo desse processo, que ocorre ainda na fase planctônica da paralarva, desencadeando uma grande mortalidade. Tal fato, segundo os especialistas, é decorrente do desconhecimento que ainda existe acerca do comportamento alimentar nesta fase.

Figura 1 - Exemplar do Octopus vulgaris
Figura 1 – Exemplar do Octopus vulgaris

Assim, o cultivo, na forma como é praticado atualmente, baseia-se fundamentalmente na engorda de juvenis de 300 a 500 gramas, capturados no meio ambiente, principalmente nos locais onde se cultiva mexilhões e ostras. Os polvos, por serem grandes predadores desses moluscos, invadem os cultivos para se alimentar. Para capturá-los são utilizados pequenos potes, feitos de PVC (Figura 2), tal como é efetuado pela frota comercial que explora esse recurso pesqueiro. Os potes são distribuídos bem próximos às estruturas de cultivo de ostras e mexilhões e, segundo Chico Neto, há uma disponibilidade muito grande de juvenis, suficiente para atender ao cultivo sustentável de polvos.

Figura 2- Estrutura para captura de juvenis
Figura 2- Estrutura para captura de juvenis

Para receber os animais, foi construída uma jaula em aço inoxidável que, mesmo em se tratando de um cultivo experimental, seguiu todas as características das que são utilizadas na Espanha. Uma plataforma flutuante sustenta a jaula (Figuras 3 e 4) que mede 1,5m x 1,5m x 1,5m (3,4 m3), onde foram estocados experimentalmente neste primeiro cultivo 15 juvenis de polvo. Esta densidade é bastante inferior a recomendada, que é de 10 a 15 kg por m3. Mas, segundo Chico Neto, por hora o objetivo não é testar a densidade, e sim o manejo e a dieta.

Figura 3 - Jaula para engorda de polvos, suspensa por guincho.
Figura 3 – Jaula para engorda de polvos, suspensa por guincho.
Figura 4 - Plataforma flutuante para sustentação das jaulas de engorda de polvo. Ao fundo cordas de cultivo de ostras e mexilhões no Parque Aqüicola do Canto Grande, Bombinhas, SC.
Figura 4 – Plataforma flutuante para sustentação das jaulas de engorda de polvo. Ao fundo cordas de cultivo de ostras e mexilhões no Parque Aqüicola do Canto Grande, Bombinhas, SC.

Alimentação

Dentro da jaula, em cada um dos quatro cantos, foi instalado um conjunto de abrigos, compostos de vários “T”s de PVC, encaixados, mas sem se comunicarem internamente um com outro (Figura 5 ). Isso permite que os animais busquem a necessária proteção e disponham de espaço para que se mantenham bastante ativos.

Figura 5 - Conjunto de abrigos, compostos de vários  “T”s de PVC encaixados, sendo dispostos no interior de jaula de cultivo.
Figura 5 – Conjunto de abrigos, compostos de vários  “T”s de PVC encaixados, sendo dispostos no interior de jaula de cultivo.

A alimentação é fornecida diariamente, tomando como base 10% do peso total dos animais. A dieta que está sendo fornecida é composta de peixes (40% do total ofertado) provenientes da fauna acompanhante da pesca comercial; crustáceos (40%) sendo que normalmente são ofertados siris; e, moluscos (20%), e neste caso tem sido ofertado mexilhões. Os peixes, siris e mexilhões são mantidos congelados e, na véspera, são descongelados e ofertados inteiros aos polvos, dentro de um comedouro fechado (Figuras 6 e 7), onde nada escapa para o meio ambiente. Isso permite que as sobras sejam diariamente controladas. Para se alimentar, cada polvo tem que entrar dentro do comedouro, apanhar a comida e levar para o seu abrigo.

Figura 6 - Comedouro para alimentação dos polvos
Figura 6 – Comedouro para alimentação dos polvos

Todo o manejo e as instalações, segundo Chico Neto, são voltados para aproveitar a grande precocidade do polvo e a sua enorme capacidade de se adaptar ao confinamento. Na Espanha os juvenis também são capturados com 300 – 500 gramas e são despescados quando atingem entre 2,5 – 3 quilos, que é o tamanho comercial ideal. Segundo Chico Neto, aqui no Brasil a expectativa é de se obter o mesmo peso final obtido atualmente na Espanha, num período de quatro meses de engorda. O Octopus vulgaris é capaz de ganhar entre 500 a 1.000 gramas a cada mês. Esses índices são observados nas engordas realizadas na Espanha, onde a mesma espécie é engordada em condições ambientais semelhantes às encontradas no litoral catarinense.