Doenças e Parasitas na Alevinagem

Dois Boletins Técnicos da autoria do biólogo Sérgio Tadeu J. Tamassia, da Estação Experimental de Caçador – SC, foram lançados recentemente pela Epagri – Empresa de Pesquisa Agropecuária e Extensão Rural de Santa Catarina S.A. São eles o Boletim Técnico n° 76 – Carpa comum (Cyprynus carpio): produção de alevinos e o Boletim Técnico n° 78 – hipófise de carpa comum (C. carpio). As duas obras, de conteúdo claro e didático, podem ser solicitadas à Estação Experimental de Caçador pelo telefone (049) 663-0211. Abaixo, reproduzimos o capítulo 14 do Boletim Técnico n° 76, que trata de doenças e parasitas na alevinagem, assunto solicitado por diversos leitores à redação da Panorama da AQÜICULTURA.

No sistema de produção de alevinos, devido a sua curta duração e cuidados intensivos, a ocorrência de doenças não é muito intensa. Segundo Jhingran & Pullin (1985), bons manejos, boa nutrição e água de excelente qualidade são a chave para se evitar problemas durante o processo de produção de alevinos.

De uma maneira geral, a ocorrência de problemas de doenças e/ou parasitas em tanques de alevinos é detectada a partir da observação de comportamento anômalo dos peixes,  como flutuando na superfície, nadando lenta e descoordenadamente, cardumes se concentrando no local de abastecimento do viveiro, peixes de coloração escura, etc.

Tão logo se constate algum destes indicadores, deve-se coletar alguns espécimens, tentar identificar a causa do problema e se for uma das descritas abaixo, tomar as medidas indicadas.

Apresentam-se aqui as doenças parasitas cuja ocorrência foi possível constatar durante a condução do sistema de produção em massa de alevinos de carpa comum, no Projeto de Piscicultura de Caçador – EPAGRI.

DOENÇA DA BOLHA DE AR

É uma doença não infecciosa associada a anomalias nas características físico-químicas da água. É muito comum em peixes criados em sistemas intensivos onde bombas e água aquecida são utilizadas. Pode representar um problema para a criação de peixes que venham a utilizar água descartada por condensadores de termoelétricas ou água captada logo abaixo de hidroelétricas.

Caracterização da doença
É caracterizada pela formação de borbulhas de gás nas mais variadas partes do corpo. No Projeto de Piscicultura de Caçador/EPAGRI, observou-se visualmente que borbulhas de gás ocorreram geralmente sob a pele na região do saco vitelínico das pós-larvas.

Causas da doença
Está associada à supersaturação gasosa (nitrogênio, oxigênio) da água, supersaturação que pode se instalar internamente nos líquidos corpóreos dos peixes. Se este excesso de gás deixar a solução dentro do tecido, à semelhança do processo da síndrome gasosa dos mergulhadores, a doença pode desenvolver-se.

A supersaturação pode ser causada em centros de incubação por fugas de ar nos sistemas de bombas, tubulações ou válvulas, ou ainda por aumento repentino de temperatura quando se procede ao aquecimento da água.

Prevenção
A doença pode ser prevenida fazendo a água de abastecimento fluir por uma série de telas sobrepostas, pouco antes de ser utilizada nos equipamentos de incubação/ larvicultura.

SAPROLEGNIOSE
Saprolegniose é o nome que se usa para caracterizar uma infecção micótica da pele e das brânquias dos peixes, a qual pode ser atribuída a inúmeras espécies de fungos, sendo o mais comum a Saprolegnia sp, que é comum em água doce e possui distribuição mundial.

Foi considerada como uma infecção secundária que geralmente ocorre após traumatismos por doenças, manejos inadequados, etc. Mas atualmente já se constatou que pode ser uma infecção primária que ocorre em casos de predisposição do peixe, principalmente devido à má alimentação ou qualidade da água associada a abaixamento de temperatura.

É muito comum a ocorrências deste fungo sobre ovos de peixe em incubação. Inicialmente eles se instalam nos novos mortos, mas após certo período de desenvolvimento também
contaminam os ovos sadios, matando-os.

Ciclo de vida
A Saprolegnia pode apresentar reprodução sexuada ou assexuada, sendo esta última a forma preponderante para a
multiplicação do organismo em uma infecção. Os esporângios
contêm grande número de zoósporos biflagelados que, quando
maduros, são lançados na água. Dependendo da temperatura requer de 24 a 48h para completar o ciclo de vida.

Características da infecção
Germinando a partir de um foco, a infecção se alastra por sobre a pele do peixe ou casca do ovo. Quando a infecção é intensa, a colônia que permanece do lado externo se apresenta como um chumaço de algodão colado à superfície do corpo do animal ou do ovo.

Prevenção e tratamento
O verde de malaquita (livre de Zn) é o produto mais comumente
utilizado para o controle das infecções micóticas, sendo utilizado nas seguintes formas:
ovos – aplicação de 1 ppm de verde de malaquita diariamente
por 1 hora, durante todo o processo de incubação;
matrizes – após manejo, banho com verde de malaquita, a
uma concentração de 1 a 2 ppm, por 1 h, ou solução de permanganato de potássio, a uma concentração de 10 ppm, por 90 minutos.

ARGULOSE
É uma doença causada por copépodos da família Argulidae, que é um parasita que perfura a pele do peixe por meio de mandíbulas. Podem atingir tamanho de até 8,5 mm sendo, portanto, visíveis a olho nu e, devido a sua carapaça dorsal, podem se assemelhar a uma escama (Figura 1).

Representação esquemática do Argulus

Raramente causam mortalidade em peixes adultos, mas em ataques intensos (até 400 parasitas/peixe) causam pesadas lesões na pele do peixe, retardando o crescimento, comprometendo o desenvolvimento pleno das gônadas e anemia, podendo também facilitar a transmissão de outras doenças.

Ciclo de vida
Os argulídeos são parasitas desde o momento do nascimento, mas deixam o hospedeiro por ocasião das mudas e da reprodução. A fêmea adulta deposita sobre objetos submersos de 20 a 250 ovos que eclodem após 10 a 20 dias. As larvas livres nadantes dispõem de dois dias para achar um hospedeiro.

A metamorfose da fase nauplius até a fase copépoda adulta
leva aproximadamente duas semanas. Na fase adulta o parasita
pode sobreviver até dezesseis dias sem hospedeiro. O Argulus se reproduz rapidamente na temperatura de 20 a 28 °c.

Características da doença
Através do aparelho bucal afiletado perfuram a epiderme do hospedeiro para sugar os fluidos corpóreos. Os peixes bastante atacados nadam veloz e irregularmente e raspam-se me objetos sólidos.

Observando-se a superfície dos peixes é facilmente
reconhecida a presença dos Argulus, que se apresentam
como uma pequena escama. Adicionalmente, em peixes parasitados, é comum constatar-se a ocorrência de argulídeos na cavidade branquial e nas paredes internas do opérculo.

Tratamento
Devido ao seu ciclo de vida, raramente ocorrem nos viveiros
externos de alevinagem, principalmente porque estes são tratados com inseticidas durante o controle químico do zooplâncton.

Entretanto, atenção especial deve ser dada a água que será adicionada aos viveiros de alevinagem externa, posteriormente ao controle químico do zooplâncton, no sentido que esta nova água não traga este parasita. Já no que diz respeito às matrizes, a sua ocorrência é mais freqüente. Tão logo se constate a presença do parasita em algum tanque de matriz, os peixes devem ser imediatamente retirados e submetidos a tratamento em uma solução de Neguvon (Thichlorphon) a 3 ppm durante duas horas.

O tanque problema é deixado seco, pois os adultos e ovos sobre
o fundo são rapidamente aniquilados pela ação solar. Após dois
dias o tanque já apresenta novamente condições de uso.

ICTIOPHTIRÍASE OU DOENÇA DO PONTO BRANCO
É um parasito obrigatório que produz severa irritação epitelial,
acompanhada por intensa produção de muco e hiperplasia. Comum quando os peixes estão em alta concentração, é uma das causas mais comum de mortalidade entre os peixes de água doce e possui distribuição mundial. Como todas as classes etárias de carpa são suscetíveis, ela representa um sério problema para a piscicultura.

Características do parasito
O agente patogênico é um protozoário oval ou redondo, que pode alcançar 0,5 a 1,0 mm de diâmetro e cujo nome científico é
Ichthyophthirius multifillis. O corpo é todo coberto por cílios e é facilmente reconhecível ao microscópio ótico, por seu tamanho e seu núcleo característico em forma de ferradura, na adulta (Figura 2).

Representação esquemática do Ichthyophthirius multifilis

Ciclo de vida
O parasito maduro, chamado trofozoíto, rompe a pele do hospedeiro e se apóia num substrato submerso rígido onde forma o cisto. Numa temperatura de 24 a 26 °C, em 72 horas são produzidos por bipartição 1.000 a 2.000 células filhas chamadas tomitos, dentro destes cistos. Os tomitos dissolvem o cisto e por natação dispõem de 48 horas para localizar um novo hospedeiro. Na epiderme deste leva de 3 a 4 dias numa temperatura de 21 a 27 °C para se tornar adulto. Na figura 3, está representado de maneira esquemática o ciclo de vida deste parasito.

Característica da doença
A doença é facilmente reconhecível pois os peixes atingidos apresentam o corpo todo recoberto por manchas brancas e comportamento anormal, procurando os locais com água corrente e raspando-se pelo fundo e laterais do tanque.

Estratégia para tratamento
Pelo fato de o parasito se alojar sobre a epiderme, é impossível
exterminá-lo por meio de drogas. Para a sua erradicação deve-se agir sobre outra parte do seu ciclo de vida. Uma maneira efetiva é matar os adultos emergentes ou a forma imatura livre nadante.

Tratamento adotado
O tratamento proposto por Rychlicki em 1968 consiste na aplicação de cal hidratada ou cal de construção (hidróxido
de cálcio) a lanço sobre a água do tanque em duas doses, com
intervalo de dois a três dias, com vistas a manter o pH em 8,5 a
9,0. Os peixes mostraram, desde as suas fases larvais, elevada
resistência ao pH elevado.

OUTRAS DOENÇAS
Existe uma série muito grande de doenças causadas por
protozoários, que atacam a pele e as brânquia dos peixes. No Projeto de Piscicultura de Caçador/EPAGRI, foi identificada a
ocorrência das seguintes: COSTIASE (Fig 4), TRICODINOSE
(Fig 5), CHILODONELOSE (Fig 6).

Estas infecções ocorreram em viveiros com excesso de alimentação artificial e/ou viveiros nos quais as pós-larvas/
alevinos estavam debilitados. Os peixes atacados por algum destes problemas apresentavam algumas das seguintes características: superfície do corpo avermelhada, formação excessiva de muco, superfície do corpo opaca-branco-azulada de aspecto aveludado e/ ou brânquias branco-opacas.

Tratamento
Controlam-se estes problemas alimentando-se as pós-larvas o maior número de vezes por dia ao invés de se colocar grande quantidade de alimentos poucas vezes por dia, afim de evitar a sobra de alimentos nos viveiros. Se, entretanto, as pós-larvas do viveiro já apresentam sinais de estarem infestadas, pode-se lançar mão de dois procedimentos:
– tratamento com formol por cerca de 24 horas a 40 ppm nos
viveiros externos;
– aplicação única de 4 a 5 ppm de oxicloreto de cobre nos
viveiros.