Não está fácil para ninguém -Editorial 183

Produzir peixes tropicais numa escassez hídrica e entradas de massas de ar polar é o desafio do momento

(Editorial ed. 183)

Um frio intenso, como há muito não se via, tomou conta de boa parte do país no mês de julho. As temperaturas despencaram e as grandes cidades assistiram ao sofrimento dos moradores das ruas, muitos, felizmente, salvos a tempo pela acolhida generosa das redes de solidariedade. Enquanto isso, no campo, geadas que se multiplicaram por todo canto, fizeram com que toneladas de alimentos fossem deixadas para trás, num cenário de prejuízos como há muito não se via. 

Como se o frio não bastasse, vivemos uma estiagem fora dos padrões, que segundo especialistas, foi a pior dos últimos 111 anos, e, nas regiões onde se concentra boa parte da produção agropecuária e as grandes hidrelétricas, as chuvas pararam de cair. A escassez hídrica, além de pressionar os preços dos alimentos, fincou uma bandeira vermelha nas contas de energia, que agora bem mais caras, dificultam ainda mais a vida de muitos.

Para a aquicultura brasileira a combinação de baixas temperaturas e estiagem não é nada boa. O frio quando não mata os peixes faz com que eles deixem de se alimentar fragilizando seu sistema imunológico, o que abre portas para as doenças de inverno. Uma dificuldade a mais para o produtor que se dedica à criação de peixes tropicais.

Além de reduzir as possibilidades de renovação de água de quem cria em viveiros, a estiagem baixa os níveis dos reservatórios onde se concentra boa parte dos investimentos para produção de tilápia em tanques-rede. Vimos isso em 2013 e 2014, quando o baixo nível dos reservatórios nocauteou produtores em diversos estados.

A briga do setor aquícola com a ONS – Operadora Nacional do Sistema Elétrico para manter um nível satisfatório para a produção de peixes nos reservatórios é desproporcional e a corda sempre parte do lado dos piscicultores. Foi assim, recentemente, no Lago do Manso, no Mato Grosso, e pode ser lida nessa edição. A água drenada para geração de energia baixou tanto que deteriorou sua qualidade. Em seguida, a entrada de uma frente fria disparou o gatilho de uma inversão térmica, provocando uma mortalidade de grandes proporções. O prejuízo dos piscicultores fez ressurgir a discussão acerca da importância do seguro aquícola, uma proteção muito desejada, cuja adesão ainda é baixa.

O Painel Intergovernamental sobre Mudanças Climáticas (IPCC) fez, na primeira semana de agosto, alertas a respeito das mudanças no regime de chuvas. Um bom exercício de leitura para quem pretende se manter na atividade. Diante de massas polares e da ausência de chuvas que, ao que tudo indica, podem ser mais frequentes, é importante que validemos sistemas de cultivo capazes de produzir pescado, mesmo com essas dificuldades.

Você vai ler também nessa edição o curioso processo desenvolvido pela Epagri, de Santa Catarina, que permite a produção de ostras para serem vendidas desconchadas. Trazemos ainda um excelente artigo sobre a criação do tambaqui em RAS, em todas as suas fases, resultado da pesquisa realizada na UFMG; uma atualização sobre a utilização dos insetos na alimentação aquícola, e muito mais. 

A todos uma boa leitura!

Jomar Carvalho Filho
Biólogo e Editor

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