E um dia a ficha cai – Editorial #191:

Na aquicultura tem coisas que só existem na ficção científica. Só que não…


São cada vez mais frequentes as notícias que chegam dos empreendimentos que produzem salmão em grandes estruturas construídas em terra firme, já presentes em diversos países ao redor do mundo. As “land-based salmon farms” são mega construções que comportam sofisticados sistemas de recirculação (RAS) que permitem a produção do salmão em locais até então impensáveis e cada vez mais próximos dos grandes centros consumidores. 

Essas “fazendas marinhas terrestres” conseguem eliminar gargalos insolúveis da salmonicultura em tanques-rede, como o piolho do mar, parasita que desde sempre tira o fôlego da indústria, que é obrigada a usar produtos químicos antiparasitários e antibióticos para lidar com as infecções. Chama a atenção o fato de que, até bem recentemente, as “land-based farms” eram vistas como uma excentricidade, uma tendência exótica de algo que só aconteceria num longuíssimo prazo e que só veríamos funcionando décadas adiante. Isso me faz lembrar das inovações maravilhosas que víamos nos carros de F1 e que num piscar de olhos estavam presentes nos carros populares.

O fato é que as fazendas “land-based” já estão desempenhando na terra o papel que os tanques-rede desempenham no mar. Vale, portanto, questionar se aqui no Brasil, num futuro que ainda desconhecemos, a produção que hoje vem dos tanques-rede, e até mesmo a que vem de viveiros escavados, será também proveniente de instalações como essas que hoje produzem salmão. E não são poucos os motivos que nos permitem questionar sobre essa possibilidade. Destaco a queda da qualidade das águas dos nossos reservatórios, que seguem a tendência de deterioração da qualidade ambiental que assistimos nos rios e outras massas d´água do país, resultado do descaso e da intensificação da ação direta humana (antrópica). Há exemplos também de longos períodos de estiagem decorrentes das mudanças climáticas, sem falar nas possíveis dificuldades e até impossibilidades de conviver com patógenos presentes nos ambientes de cultivo. E com respeito aos viveiros escavados, pouco sabemos como será o impacto dos efluentes diante da intensificação e do adensamento das criações. 

Portanto, pensando no futuro, sigo acreditando que os sistemas fechados parecem guardar chaves importantes para acionar a aquicultura que será praticada no Brasil em algum momento, que não sabemos se está próximo ou não.

E é também por essa razão que mantenho as páginas desta revista abertas para os que se dedicam a aprimorar essa tecnologia, tanto para a produção de peixes como para camarão. E, como não poderia deixar de ser, nesta edição o tema é abordado em dois excelentes artigos.  

A todos uma boa leitura, 

Jomar Carvalho Filho
Biólogo e Editor