Quando uma rede pesca fake news no lugar de peixes – Editorial #194

Do nada, nos primeiros dias de outubro, alertas de mensagens que se mostraram falsas começaram a pipocar nos celulares anunciando uma iminente invasão de tilápia vietnamita no mercado nacional. E o que era esperado aconteceu: a falta de explicações sobre as verdadeiras motivações para esse suposto ataque abriu uma lacuna generosa para as manifestações dos “especialistas aqua” que vivem a navegar nas águas nem sempre claras das redes sociais. 


Por mais de 20 dias, muita informação desconexa circulou em torno de um acordo bilateral que teria sido assinado pelos ministros da agricultura dos dois países, na presença do PR (presidente da república). E logo verificou-se que a cerimônia realmente tinha acontecido em 25 de setembro nas dependências do Ministério das Relações Exteriores. 

Segundo os criativos criadores e disseminadores de fake news, o objetivo desse acordo seria rifar a indústria brasileira da tilápia cultivada, para permitir que todos os envolvidos na assinatura do tal acordo pudessem se locupletar com as vantagens financeiras decorrentes da suposta invasão da tilápia asiática. Li muita gente conhecida repercutindo esse absurdo, sabe-se lá com que finalidade, e senti vergonha alheia.

Curiosamente, semanas se passaram sem que o barulho das redes despertasse o juízo de algum representante do governo no sentido de estancar a sangria de besteiras infundadas que jorrava na internet. O próprio ministro da Pesca e Aquicultura, André de Paula, em 9 de outubro, desperdiçou a oportunidade de dar um basta. Quando perguntado pelo Estadão sobre o tema, saiu-se com a pérola de que iria convencer Lula a interromper as negociações com as autoridades do Vietnã. Sua infeliz declaração acabou por chancelar todas as narrativas falsas que circulavam, e colocou mais lenha na fogueira.

Mais duas semanas se passaram até que o próprio ministro distribuísse uma nota, em 23 de outubro, afirmando não existir qualquer negociação comercial em curso entre o Brasil e o Vietnã envolvendo a importação de tilápia, e que também não havia pedido de licença de importação de tilápias oriundas do Vietnã registrado no Ministério da Agricultura e Pecuária do Brasil. Bingo! Era só isso que deveria ter sido dito no primeiro sinal de fumaça. Aliás, mesmo depois da nota, houve “especialista aqua” afirmando que “onde há fumaça, há fogo”. Kkkkk – rindo pra não chorar.  

O fato é que ninguém teve a curiosidade de pesquisar no site do Ministério das Relações Exteriores os atos assinados por ocasião da visita do primeiro-ministro do Vietnã ao Brasil em 25 de setembro. São quatro, e estão lá na íntegra, sem ne-nhu-ma menção a importação de tilápia, nem mesmo de panga. 

Parece que ainda estamos longe de aprender a lição. Um setor e seus representantes não podem ficar reféns de futricas e notícias falsas. Essa não foi a primeira, e infelizmente não será a última a circular. Da mesma forma, as autoridades constituídas para fomentar a aquicultura brasileira também não podem assistir de cadeira a um circo pegando fogo alimentado por notícias plantadas por alguém – ou quem sabe um grupo – com interesses próprios.

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E sobre esta nova edição que está em suas mãos, sei que sou suspeito para dizer – mas está verdadeiramente excelente! Foi, como sempre, preparada especialmente para quem gosta, trabalha e respira a aquicultura com responsabilidade e propósito. 

Boa leitura a todos

Jomar Carvalho Filho
Biólogo e Editor