Editorial – edição 107

Nunca vi ninguém ter pena ou sendo solidário com a China, nas vezes em que seus produtos aqüícolas foram barrados nos mercados dos EUA e da União Européia, por estarem em desacordo com as normas internacionais de sanidade. Ao contrário, suponho até que muitos aqüicultores, espalhados por vários países, incluindo o Brasil, tenham festejado a oportunidade de negociar num mercado sem a incômoda presença chinesa. Algo muito parecido deve ter acontecido quando saiu publicada a notificação da OIE sobre a presença da febre aftosa no Mato Grosso, que de imediato embarreirou a exportação da carne bovina brasileira para muitos países. Não tenho dúvidas de que produtores espalhados pelo mundo festejaram a má sorte dos pecuaristas brasileiros.

Assim funciona o mercado globalizado, com produtos de origem animal e vegetal circulando de um canto a outro do planeta, e deixando repentinamente de circular por esbarrarem nas cada vez mais estreitas regras que regem essa movimentação de produtos vivos, frescos ou congelados.

A gente sabe que ninguém gosta de falar sobre doenças, principalmente nós brasileiros que, por superstição ou medo, nem pronunciamos a palavra câncer, como se isso fosse o suficiente pra afastar essa doença do nosso corpo. Mas, não podemos fechar os olhos para as patologias porque elas minam a capacidade competitiva dos produtores e enfiam, como ninguém, a mão no bolso do aqüicultor. Isso explica porque os temas ligados a sanidade dos produtos da aqüicultura ocupam grande parte da pauta desta edição. Falamos da certificação sanitária, das doenças de notificação obrigatória e, das doenças que, mesmo não sendo de notificação obrigatória, podem fazer uma atividade florescente como a tilapicultura, se tornar inviável economicamente.

Abordamos também nesta edição as preocupações dos cientistas e dos fabricantes de rações de todo o mundo, que reunidos em um simpósio internacional de nutrição, buscavam alternativas diante das inesperadas mudanças no cenário mundial dos ingredientes. Os aumentos recentes no preço da farinha de peixe, que colocam em cheque a viabilidade econômica da fabricação e do uso das rações balanceadas para peixes carnívoros, foi o tema mais discutido.

Nas próximas páginas o leitor encontrará ainda os avanços do uso dos bioflocos na engorda dos camarões e os primeiros passos do Projeto Polvo Nordeste, que pretende, através da engorda de juvenis de polvos capturados pela pesca a vela, melhorar a qualidade de vida e a renda das comunidades pesqueiras. E muito mais…

A todos, boa leitura.

Jomar Carvalho Filho
Biólogo e Editor