Editorial – edição 110

Jomar Carvalho Filho, Editor da Panorama da AQUICULTURA

Para os criadores de camarão, a sexta-feira dia 21 de novembro será uma data difícil de esquecer, algo parecido com uma sexta-feira 13 de efeito retardado. Nesse dia, logo pala manhã, nas bucólicas alamedas do Jardim Botânico do Rio de Janeiro, bem longe, portanto, do dia-a-dia de um viveiro de camarão, estiveram reunidos os membros da Câmara Técnica de Biodiversidade, Fauna e Recursos Pesqueiros do CONAMA, que acabaram por aprovar a minuta de uma nova Resolução que traz, no seu Artigo 8, a afirmação de que os apicuns e os salgados fazem parte do ecossistema manguezal, passando assim a serem considerados como Áreas de Preservação Permanente (APP).

O Artigo 8, que se sustenta em considerações técnicas discutíveis (ver o artigo de Marcio Vaz dos Santos na edição 91 setembro/outubro de 2005, dessa revista), foi incluído na Resolução através da força do lobby de grupos que têm interesses contrários aos dos carcinicultores. O seu estrago é muito fácil de imaginar, bastando lembrar que uma boa parte dos viveiros de camarão hoje em produção no Brasil ocupa áreas de apicuns e salgados. E agora José? A minuta já seguiu para a Câmara Técnica de Assuntos Jurídicos e, em breve, será submetida à Plenária do CONAMA, instâncias que os carcinicultores sabem que têm poucas chances de reverter a situação.

Na noite da mesma sexta-feira, outra bomba: depois de muitas chamadas prometendo mostrar o potencial brasileiro para a produção de pescado, a Rede Globo acabou matando os carcinicultores de susto (e de raiva), ao incluir no programa Globo Repórter, uma entrevista totalmente equivocada com o professor do Departamento de Ecologia da UFRN, e ativista ambiental, Aristotelino Monteiro Ferreira, onde este, a título de mostrar o “perigo” que a carcinicultura representa ao meio ambiente, acusou, levianamente, em cadeia nacional, uma fazenda de camarão de ter sido a responsável pela tragédia ambiental que matou em julho de 2007, toneladas de peixes no rio Potengi. Foi um balde de água fria, num dia que já tinha começado quente. O setor da carcinicultura ficou sem entender como esse professor “não sabia” a respeito da documentação levantada pela Polícia Federal mostrando o envolvimento de uma empresa imunizadora que, de forma irresponsável, despejou direto no Potengi o conteúdo da estação de tratamento de efluente (ETE) de uma fábrica de refrigerantes, a qual prestava serviços. E pior, os carcinicultores não entenderem também as razões que levaram a TV Globo a não apurar a “denúncia” do professor Aristotelino, antes de levá-la ao ar. E o que se viu foi, mais uma vez, a carcinicultura sendo usada como “bode expiatório”, só que dessa vez, em cadeia nacional. Blim, blim!

Por sua importância, esse tema mereceu destaque nesse editorial. Acaba que ele reflete um pouco da fragilidade do setor aqüícola brasileiro e a forma como está sujeito às interferências dos grupos contrários ao seu desenvolvimento. Sabemos que demora muito tempo para se construir uma indústria sólida, mas num estalar de dedos, ou numa mexida num controle remoto, é possível ver todo esse trabalho ir por água abaixo. A união, portanto, é mais do que necessária.

Feliz 2009.

A todos, uma boa leitura

Jomar Carvalho Filho
Biólogo e Editor