Editorial – edição 117

Jomar Carvalho Filho, Editor da Panorama da AQUICULTURA

Tsunamis, terremotos, invernos inesperados e quebradeiras econômicas. Quem é capaz de apontar a maior ameaça que a indústria aquícola de um país pode sofrer? Assistimos aos estragos devastadores da tsunami que varreu a costa da Indonésia nas vésperas do ano novo de 2004, e ainda estão frescas na memória de todos as imagens chocantes da força das águas, que não poupou laboratórios e viveiros. Passados poucos anos, a indústria aquícola deste país sobreviveu à tragédia e, em 2008 já ocupava o quarto lugar no ranking dos maiores produtores mundiais de camarão.

Neste mesmo ano, a produção de tilápias na China sofria o seu mais duro golpe, consequência de um rigoroso e inesperado inverno, talvez o maior vivido pelo povo chinês nos últimos anos. Com tudo isso, e em apenas um ano, os tilapicultores chineses deram a volta por cima batendo recordes de produção, com estimativas que se aproximam de um milhão de toneladas de tilápias despescadas em 2009.

Já nos Estados Unidos, a crise econômica seguida da quebradeira de muitas instituições financeiras, mexeu no bolso do cidadão americano, e foi capaz de reduzir, pela primeira vez, as crescentes importações de filés frescos de tilápia feitas pelo país. Em 2009 os consumidores de tilápia dos EUA reduziram em 6,6% as suas aquisições nos países da América Latina, um volume suficiente para ter deixado muitos produtores desnorteados neste ano que passou. Mas, nem ondas gigantes, tampouco ondas de frio ou instabilidade econômica, têm tanta capacidade de dizimar a indústria aquícola de um país, como as enfermidades em animais de cultivo. Os patógenos chegam invisíveis e sorrateiros, invadindo laboratórios de alevinos de peixes e pós larvas de camarões, se instalam nos viveiros de engorda e acabam se alojando nos animais, bloqueando o bolso dos produtores e, muitas vezes, nocauteiam de uma vez por todas o empreendimento.

A salmonicultura chilena, que bem sabe o que é isso, irá despescar em 2010 a sua menor safra desde que alcançou o posto de segunda maior indústria salmoneira do mundo, até ser contaminada pelo vírus da anemia infecciosa do salmão (ISA). Bem sabem também os carcinicultores equatorianos e brasileiros, cujos resultados pós doenças traumatizaram empresas e muitas pessoas envolvidas com a cadeia produtiva.

Por essas e por outras é que a Panorama da AQÜICULTURA vem nos últimos anos focando, com lentes poderosas, o tema “sanidade aquícola”. Nesta edição, o especialista Henrique Figueiredo enfoca a importância da prevenção das doenças na larvicultura, como forma de evitar que patógenos sejam transportados para outras propriedades, assegurando não só a saúde dos animais, mas também a saúde econômica e a sustentabilidade dos negócios. Métodos de prevenção são abordados também no primeiro dos três artigos escritos pela equipe de especialistas da UFSC, que pretende mostrar aos leitores o que são, como agem e quais as vantagens do uso correto dos probióticos.

A sabedoria popular diz que quanto maior o coqueiro, maior o tombo do coco ou de quem o está colhendo. Mas, é certo também que para ter as delícias do coco é preciso subir alto, de preferência com segurança, sem riscos de queda. A aquicultura brasileira experimenta um crescimento ainda muito aquém da sua vocação, mas seja qual for o rumo que irá tomar, precisa conhecer muito bem os riscos que esse crescimento envolve.

A todos uma boa leitura,

Jomar Carvalho Filho
Biólogo e Editor