Editorial – edição 119

Jomar Carvalho Filho, Editor da Panorama da AQUICULTURA

Da primeira vez que vi na TV a logomarca do Ibama no cantinho da publicidade de uma marca nacional de automóveis, só não caí prá trás porque já estava sentado.

Nunca que me passaria pela cabeça que nosso órgão ambiental federal comercializaria a sua logomarca para ajudar uma indústria a vender mais os seus produtos, muito menos automóveis. Mas, isso é outro papo. Onde quero chegar é que o gênio da publicidade que negociou aquele contrato não teve outra intenção a não ser a de passar a mensagem de que nós, incautos telespectadores e possíveis consumidores, estávamos diante de uma indústria sustentável certificada pelo Ibama, apesar de cuspir diariamente milhares de veículos que se embebedam de combustível fóssil e saem por aí despejando “zilhões” de toneladas de CO2. Alguém lá na agência de publicidade descobriu que sustentabilidade, antes de mais nada, é uma palavra que vende.

Mas o que, afinal, se esconde debaixo desse enorme guarda-chuva chamado “sustentabilidade”, e de que forma a aquicultura se abriga sob ele?

Segundo Wagner Valenti, professor da UNESP, de Jaboticabal-SP, e seus colaboradores, em artigo nesta edição, a simples adoção de práticas e de sistemas que consideram conceitos da sustentabilidade, como o uso de boas práticas de manejo (BMP), são uma forma de caminhar em direção à sustentabilidade, mas, por si só, não é o bastante. Para eles, é essencial que se possa medir a sustentabilidade dos sistemas usados, das técnicas de manejo e das novas tecnologias que vêm sendo geradas e adotadas, para que se possa avaliar o grau de sustentabilidade do empreendimento.

Fernando Kubitza aborda esse tema no seu aspecto mais pragmático, face ao grande desafio que a aquicultura tem, ao ter que triplicar, até 2050, a sua produção atual de forma a atender as necessidades de consumo de pescado para alimentação humana. Segundo Kubitza, é preciso enfrentar grandes desafios para reduzir a dependência de recursos naturais não renováveis, minimizar a emissão de efluentes, utilizar rações cujos ingredientes não concorram diretamente com a alimentação humana, entre outras medidas importantes.

Fiz questão também de incluir nesta edição um artigo publicado na renomada revista Science, que aborda os avanços da carcinicultura rumo à sustentabilidade, que hoje já permitem que a produção de camarões seja feita praticamente sem efluentes, em áreas distantes do litoral, mudando completamente a má reputação que a carcinicultura carrega nas últimas décadas.

A sustentabilidade, portanto, não é apenas um conceito da moda para ser usado quando se deseja incorporar valor e incrementar as vendas de um produto. Como disse Wagner Valenti, o desafio para se construir uma aquicultura realmente sustentável passa por um aprendizado contínuo e pela capacidade de criar sistemas capazes de responder às mudanças ambientais, sociais e econômicas que ainda estão por vir.

A todos uma boa leitura,
Jomar Carvalho Filho
Biólogo e Editor