Editorial – edição 121

JomarEditorial104

Estive na cidade do Porto no início de outubro para participar do evento Aquaculture Europe 2010. Eu e outros 37 brasileiros que encontrei por lá, fomos bisbilhotar o que a turma do velho continente anda fazendo na nossa área. Em geral, o que nos chegam são notícias da Noruega e sua fabulosa indústria aquícola capitaneada pelo salmão que, junto com a pesca, formam a segunda maior força da economia do país.

Vale lembrar que a Noruega não faz parte dos países que compõem a União Européia (UE). Quanto aos demais países, poucas são as notícias que chegam até nós.

Sobre o acolhedor Portugal constatei que o país é, de fato, um dos melhores lugares pra se comer bem na face da terra e, concluí entre um prato e outro que, se comer peixe fosse um determinismo hereditário, nós brasileiros teríamos herdado toda a fome por pescado que sentem nossos ancestrais portugueses. Se isso fosse, de certo não nos contentaríamos com esse pouco que comemos, já que lá o pescado é a vedete de todos os cardápios, e o bacalhau a nossa maior tentação.

De além-mar, eu trouxe uma notícia boa e outra ruim: a boa é que as instituições de pesquisa e a indústria de equipamentos e insumos para a aquicultura da União Européia (UE) continuam a desenvolver o que há de mais moderno em termos de tecnologia, automação, precisão, alimentação, etc. Os aquicultores da UE recebem todo o apoio dos políticos, que se referem a aquicultura como uma indústria muito promissora. Os mercados estão repletos de pescado proveniente da aquicultura e os restaurantes aceitam normalmente os produtos aquícolas. Não é de hoje que processadores e varejistas descobriram as vantagens dos produtos da aquicultura e, os médicos seguem recomendando cada vez mais o consumo de pescado.

Já a má notícia é que, apesar de todo esse cenário extremamente favorável descrito acima, a produção total da aquicultura praticada na UE caiu 1,2% ao longo dos últimos dez anos. Sim, crescimento negativo, apesar dos estudos mostrarem que as águas da UE podem suportar uma quantidade de pescado muitas vezes superior a que atualmente é cultivada. Esse tema foi o ponto alto das discussões na cidade do Porto. Afinal, apesar de todo o potencial e de já produzir 1,4 milhão de toneladas por ano, a UE ainda precisa importar 9,5 milhões de toneladas de pescado, vindo de todos os cantos do mundo, para abastecer a sua crescente demanda.

Ao falar sobre o evento nesta edição, procurei me focar na brilhante palestra de Javier Ojeda, Gerente Geral da APROMAR, a principal associação espanhola de produtores de peixes marinhos. Ojeda, analisou profundamente a situação atual da UE, e mirou de forma certeira no alvo apontando a falta de governança, como a principal causa que tem levado produtores a não conseguirem suas licenças para que possam produzir nos locais mais adequados. Isso, nos últimos anos, jogou a competitividade lá pra baixo, junto com a produção aquícola que acabou reduzida de tamanho na última década. A palestra do Ojeda me lembrou o Brasil em diversos momentos e, à medida que eu o ouvia, aumentava a vontade de compartilhar com você, leitor da Panorama da AQÜICULTURA, o que ele concluía. Vale a leitura da página 61.

Leia também, no artigo de capa dessa edição, como é produzido o recém aprovado salmão transgênico, em um elucidativo texto de Ricardo Tsukamoto e Neuza Takahashi que, certamente, nos ajudará a descobrir se estamos diante de um monstro de laboratório ou de um peixe que pode ajudar a aumentar sobremaneira a oferta de pescado de boa qualidade na nossa mesa.

A todos boa leitura,

Jomar Carvalho Filho
Biólogo e Editor