Editorial – edição 127

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Em julho passado começaram a surgir em algumas fazendas pernambucanas, acentuadas mortalidades de camarão, que se intensificaram com o passar do tempo.

Outras ocorrências, desta vez no Rio Grande do Norte, passaram a ser comentadas à boca pequena, reforçando a suspeita de que o vírus da mancha branca (WSSV) estaria por trás dos prejuízos que se espalhavam na região. Não houve, porém, precisão nas informações, tampouco alguém ou alguma instituição, pública ou setorial, que tenha vindo a público declarar, comentar ou alertar sobre o que estava se passando. Silêncio e uma desmesurada e incompreensível cautela foi o que encontrei na apuração das informações. Junto à indústria de ração foi possível saber que havia uma queda acentuada nas vendas e, na ponta da cadeia, sabia-se que compradores de camarão já estavam pagando mais caro pelo produto, por conta da queda na oferta.

Em 16 de setembro, mais de dois meses após as primeiras mortalidades, o biólogo Alexandre Wainberg, carcinicultor na Lagoa de Guaraíras, no Rio Grande do Norte, postou e-mail para a Panorama-L, Lista de Discussão da Panorama da AQÜICULTURA, comentando essas mortalidades e se dizendo perplexo com a falta de informações precisas para que o setor pudesse se orientar, caso realmente a carcinicultura estivesse diante de um surto do vírus. Trechos pinçados das várias mensagens que Wainberg postou estão na seção Notícias& Negócios Online, dessa edição.

O silêncio em torno do assunto levou a Confederação Nacional de Agricultura (CNA) a encaminhar, em 21 de setembro, ofício ao MPA solicitando a verificação da possível ocorrência do vírus da mancha branca no Nordeste. Duas semanas depois, a Secretaria de Monitoramento e Controle da Pesca e Aquicultura do MPA (SEMOC), enviou técnicos ao Rio Grande do Norte (05/10/2011) e Pernambuco (06/10/2011) para coletar amostras, que foram encaminhadas ao LANAGRO, em Minas Gerais. Em 27 de outubro, passados vinte dias, o MPA convocou representantes do setor para uma reunião em
Brasília, quando divulgou que as amostras analisadas foram positivas para a mancha branca em Pernambuco, e que as amostras colhidas no Rio Grande do Norte (pós-larvas) estavam negativas para o vírus.

E Em 2003, ainda comemorando a produção recorde de 90 mil toneladas, os produtores da Região Nordeste assistiram de mãos atadas à devastação provocada pelo vírus da mionecrose infecciosa (NIM). A produção caiu para 35 mil toneladas nos anos seguintes e até agora, oito anos depois, a indústria do camarão ainda não conseguiu superar o que foi produzido naquele ano. Em 2005 foi a vez dos produtores de Santa Catarina, que sentiram na boca o sabor amargo da impotência, deixado pelo vírus da mancha branca.
Até hoje estão parados, sem saber que rumo tomar.

O que se esperava agora, diante da má experiência da NIM no Nordeste e da mancha branca no Sul, era que o setor, que movimenta milhões de dólares e gera empregos e renda para milhares de pessoas, estivesse maduro e pronto para por em prática um protocolo de medidas para lidar da melhor forma possível, e de maneira articulada, com um patógeno desse porte. E não é isso que está sendo observado.

Por outro lado, o silêncio ainda é a tônica. A princípio acreditava-se que era por conta da possibilidade das portas do país serem abertas para o camarão importado, caso se confirmasse a mancha branca. O MPA, no entanto já esclareceu que um fato nada tem a ver com outro, valendo, portanto, os estudos de análise de risco de mportação. Segundo a Organização Internacional de pizootias (OIE), a mancha branca é uma doença de notificação obrigatória, e para que possa ser combatida, os países, incluído o Brasil, têm a obrigação de declarar a sua presença ao órgão internacional, para que a informação se torne pública. Mas, aqui em nosso país, as notificações internas parecem não ser tão necessárias. O resultado do laudo do LANAGRO confirmando o WSSV em Pernambuco passou a ser conhecido somente através da Lista Panorama-L, uma vez que participantes desse fórum estiveram presentes na reunião do dia 27 de outubro no MPA. Até o fechamento desta edição este importante tema, que põe em risco um enorme investimento feito pelo mais bem organizado setor da aquicultura brasileira, ainda não havia sido exposto no site do MPA ou de alguma associação setorial. Prudência é importante, mas
agilidade é essencial.

Contra doenças, particularmente virais, a boa informação é o melhor remédio.

A todos uma boa leitura,

Jomar Carvalho Filho
Biólogo e Editor