Editorial – edição 132

Editorial_JomarEm agosto o ministro Marcelo Crivella, da Pesca e Aquicultura esteve na Noruega. Em Ålesund, visitou uma das quatro maiores fábricas de bacalhau do mundo, onde conheceu os processos de salga, secagem e embalagem do produto.

Foi também a uma piscicultura em tanques-rede com produção anual de quatro mil toneladas, que exporta 95% dos peixes que produz. Ao término da visita Crivella reafirmou que “temos no Brasil condições tão boas quanto, ou até melhores, de utilizar os reservatórios com sistema produtivo em tanques-rede, similares aos noruegueses. A cooperação bilateral permitirá a transferência de tecnologia para atingirmos uma maior produção”.

A notícia da viagem do ministro, quando divulgada na Lista de Discussão Panorama-L, gerou vários comentários entre os participantes, e muitos questionaram se haveria mesmo a necessidade dessa cooperação, já que em termos de águas tropicais, talvez tenhamos mais a ensinar do que a aprender. O fato das nossas características ambientais e de cultivo serem completamente diferentes as das encontradas na Noruega, trouxe sugestões de novas formas de cooperação, como a troca de experiência na organização do setor, na gestão de políticas públicas e na descoberta de meios para incentivar a atividade. Participantes desacreditados com as ações governamentais garantiram, porém, que tudo não passa de um pretexto para que o ministro fosse passear nos fiordes da Noruega. Mas não faltou quem saísse em defesa do MPA, lembrando que os noruegueses sabem tudo sobre o manejo e produção em tanques-rede de grande volume, uma tendência na nossa tilapicultura, e que já desenvolveram equipamentos comprovadamente eficazes para a seleção de peixes, despesca e vacinação, sem falar que são craques quando o assunto é a nutrição de peixes.

A verdade é que essa não foi a primeira visita de ministros da Pesca e Aquicultura à Noruega. Já nos últimos anos muitas missões, capitaneadas pelo MPA e pela SEAP, levaram a esse país todos os ministros que ocuparam essa pasta, assim como um grande número de funcionários do primeiro escalão, acompanhados de seletos representantes do setor produtivo.

O fato é que os aquicultores ainda estão longe de perceber no seu cotidiano, qualquer resultado positivo decorrente dessas inúmeras missões oficiais. Ainda na Lista de Discussão Panorama-L, comentou-se que os produtores não são consultados sobre o que desejam ou com quem desejam fazer acordos bilaterais. Houve quem dissesse que teria sido mais proveitoso se Crivella visitasse a Hungria e trouxesse debaixo do braço novos reprodutores de carpas, já que os existentes no Brasil há muito perderam as suas melhores características zootécnicas.

O que não pode acontecer é apenas o encanto e deslumbramento, sem que se efetivem vantagens concretas para ambos os países, e aí não custa lembrar dos nossos índios, que se rendiam aos brancos colonizadores quando eram presentados apenas com missangas, espelhos e facões. Na prática os aquicultores brasileiros aguardam, não é de hoje, os alardeados benefícios que são negociados pelo governo brasileiro cada vez que os ministros voltam de uma visita de parceria, como essa para a Noruega. Ao que parece, o resultado da troca de generosidades protocolares se concretiza apenas no volume crescente das importações do bacalhau norueguês, que se mantém isolado no topo da pauta de pescado. Em 2010, segundo o próprio MPA, foram mais de 43 mil toneladas de peixe salgado e seco, avaliados em 292 milhões de dólares.

A todos uma boa leitura,

Boa leitura,

Jomar Carvalho Filho
Biólogo e Editor