Editorial – edição 135

Editorial_JomarCom o cuidado de prender o riso e dando um solene aperto de mão, faço sempre questão de parabenizar as crianças pela queda dos dentes de leite, por reconhecer ali, naquelas carinhas muito engraçadas, uma importante marca do crescimento. A janela do sorriso banguelinha talvez seja o primeiro de muitos ritos de passagem explícitos que experimentamos ao longo das nossas vidas.

A partir desse momento se seguem o aparecimento dos primeiros pelos pubianos e das axilas – com o inevitável cecê, as espinhas no rosto e tantas outras fases que pontuam socialmente o nosso amadurecimento. Entretanto, para muitos existe um momento, aparentemente corriqueiro, mas carregado de um significado muito especial: acontece quando, pela primeira vez, ficamos adoentados de cama, e já não moramos mais com nossos pais. Nessa hora, se a ficha ainda não havia caído, certamente vai cair, nos mostrando que estamos na vida por nossa própria conta, já segurando as rédeas do nosso destino. É aí que tomamos mais consciência da importância de nos mantermos saudáveis, de termos que aprender a lidar com as doenças e, principalmente, com a fragilidade que ela nos impõe.

Na aquicultura não se dá muito diferente, sendo também possível identificar na recente história da atividade em nosso país, os momentos que pontuaram a sua trajetória, provas do seu amadurecimento. Posso citar, entre muitos exemplos, o domínio da reprodução das carpas; as expedições nos barcos camaroneiros que capturaram fêmeas ovadas do camarão rosa para as primeiras desovas em laboratório; a expectativa comercial após o domínio da propagação dos peixes redondos; o lançamento pela Purina da MR 35, a primeira ração comercial para camarão fabricada no país; as tentativas com o Penaeus japonicus, que não deu muito certo, mas permitiu o aprendizado do manejo de reprodutores indoor; a chegada do M. rosenbergii e do Litopenaeus vannamei; o impacto da reversão sexual da tilápia; a relutância das grandes fábricas de ração em investir na produção de alimentos para os peixes de água doce e o medo de não ter um mercado maduro capaz de absorver; a novidade e leveza do tanque-rede de pequeno volume; a Crassostrea gigas reproduzindo na UFSC; o mega modismo dos pesqueiros; a criação da SEAP; as 90 mil toneladas de camarão produzidas em 2003; o surto da NIM; a mancha branca fazendo ruir os sonhos em Santa Catarina; a criação do MPA – e o absurdo de ter quatro ministros em três anos; a certeza do tambaqui, do pintado, do pirarucu como espécies nativas de enorme potencial zootécnico; a mancha branca no Nordeste, entre tantos outros momentos que nos dão a certeza de que a aquicultura brasileira não é mais uma atividade para amadores. Amadureceu, anda com as próprias pernas, procura ter hábitos saudáveis e está cuidando da própria saúde.

A forma como uma atividade zootécnica lida com a sanidade atualmente, dá a real dimensão do seu comprometimento com a sustentabilidade. Nesta edição trazemos mais um artigo preparado pela equipe da Acqua Imagem, mostrando a forma como o setor lida com a vacinação, o monitoramento da qualidade da água, tratamentos preventivos, exames parasitológicos, entre tantos outros temas ligados à sanidade da produção. Os leitores conhecerão também mais alguns aspectos do complexo manejo do sistema de bioflocos, em uma série que a Revista Panorama da AQÜICULTURA vem publicando sobre esse tema, com a certeza de que são informações importantíssimas para quem vai lidar com esse, que é um dos sistemas mais promissores quando se deseja produzir camarões em regiões afetadas por surtos virais, como tantas existentes no Brasil. Nesta edição também pegamos emprestado a graça e a beleza do acará disco para a nossa matéria de capa, por também concordamos com os autores do artigo Francisco Borges Morais e Ronald Kennedy Luz, que com o domínio da produção de alevinos dessa espécie, será possível recolocar o Brasil no próspero cenário do comércio mundial. Afinal, a espécie é nossa.

À todos, mais uma vez, boa leitura.

Jomar Carvalho Filho
Biólogo e Editor