Editorial – edição 136

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Escrevo sempre os editoriais da Panorama da AQÜICULTURA depois de ter preparado toda a revista, até mesmo depois de vê-la totalmente diagramada, e agora não está sendo diferente.

Ao longo do processo de construção de cada edição, alguma coisa em especial, um depoimento ou até mesmo uma inovação me fisga a atenção, fazendo-me refletir com mais interesse sobre o fato. Na maioria das vezes é daí que me chegam os temas que acabo abordando nesse espaço.

Dessa vez o que me chamou a atenção foi a correspondência da Associação Brasileira de Criadores de Camarão (ABCC), assinada pelo seu presidente Itamar Rocha, endereçada ao ministro Crivella, com pleitos do setor. Nela a ABCC reitera o pedido para que o MPA suspenda a Análise de Risco de Importação (ARI) do camarão argentino Pleoticus muelleri, por colocar em risco a sanidade dos camarões cultivados no Brasil.

Nos argumentos do setor, um deles afirma que a Argentina importa crustáceos da Tailândia, um dos países gravemente afetados pela Síndrome da Mortalidade Precoce (EMS na sigla em inglês), e que, de alguma maneira por essa via, a enfermidade poderia chegar ao Brasil. Nessa mesma correspondência a ABCC chama a atenção do ministro Crivella para a grande oportunidade que está se abrindo no mercado internacional, e que permitirá a volta dos camarões brasileiros aos cardápios dos EUA e da Europa.

Segundo a ABCC, esse é o momento de voltarmos a ser exportadores. Tal fato se sustenta em informações de que haverá, até final do ano, um déficit de 400 mil toneladas de camarão no mercado internacional em decorrência das mortalidades por EMS na China, Malásia, Vietnã e Tailândia. A mesma fonte garantiu para a associação que o preço desse crustáceo (tamanho 80-100/kg, padrão que o Brasil produz), chegará a US$ 6,20/kg, um valor superior ao que conseguimos vender nos melhores momentos de 2002. Na ponta do lápis, não restam dúvidas de que os carcinicultores brasileiros podem estar diante de um ótimo negócio. Mas seria sustentável? Como fica o mercado brasileiro?

Sabemos que este mercado acena vivamente demandando mais produto e se diz desabastecido, a ponto de impetrar ação na justiça para que o governo libere a importação desse crustáceo. E tudo indica que está prestes a ser atendido.

Na prática, exportar significa desabastecer ainda mais os consumidores brasileiros, que se fidelizaram ao camarão produzido aqui. Nunca houve tanto camarão em nossas mesas. Mas, me parece uma conta que não fecha. A ABCC, ainda na mesma correspondência ao ministro Crivella, reafirma um compromisso assumido com o Secretário-executivo do MPA, Átila Maia, de intensificar e dobrar a produção brasileira de camarão cultivado nos próximos dois anos, o que permitirá a volta ao mercado internacional sem comprometer o abastecimento interno.

Quem acompanha o desejo do setor de crescer e, principalmente, crescer de forma sustentável sem sustos e surtos, sabe que esse é um compromisso que, para ser concretizado, precisa contar com ações efetivas diretas, muito focadas e com grande força política. São condições que em nenhum momento da história recente da aquicultura brasileira vimos acontecer, e nada acena favoravelmente nesse sentido, muito pelo contrário.

Resta então a curiosidade para ver onde vai dar essa retórica, e se ela efetivamente se transformará em fartas despescas. Até porque o quadro epidemiológico na Ásia mudou com o fato novo da identificação feita pelos pesquisadores da Universidade do Arizona, do agente causador da EMS (leia nesta edição). A expectativa é que os países asiáticos afetados voltem a produzir os volumes habituais num espaço razoavelmente curto de tempo.

Bem, o meu voo para Palmas (TO) acaba de pousar. Despeço-me aqui desejando uma ótima leitura a todos, e com o compromisso de levar do Tocantins um ótimo material para ser compartilhado na próxima edição.

Jomar Carvalho Filho
Biólogo e Editor