Editorial – Edição 137 – maio/junho 2013

Em 2011 um grupo de produtores de tilápia do Paraná se mobilizou para barrar as importações brasileiras do panga.

O movimento cresceu e chegou até a mesa do então ministro Gregolin, que recebeu em audiência mais de 20 representantes da aquicultura e da pesca industrial, que àquela altura alegavam que seus frigoríficos estavam abarrotados de pescado nacional, encalhados por conta do sucesso das vendas do panga.

Passado esse tempo, tanto os empresários da pesca como os produtores de tilápia seguem seu rumo sem mais se importar com esse peixe. É bem verdade que apesar de baratos, os filés de panga que recebem o passaporte para vir pro Brasil são os mais gordinhos, e o prato com eles, se for muito repetido, passa a ser enjoativo. Não sei de nenhum estudo que tenha avaliado um possível dano, causado pela presença do panga, principalmente para os produtores de tilápia, mas é fato que esse assunto ficou para trás e já não se ouvem reclamações indignadas.

Hoje são outras as reclamações dos aquicultores. Os produtores de camarão estão empenhados e se mantêm firmes contra a importação do camarão argentino. Insistem que há riscos sanitários, sim. E se baseiam em artigos científicos redigidos por pesquisadores argentinos. Coube ao juiz da 8ª Vara Federal, em Brasília, julgar a ação movida pela ABCC contra a decisão do MPA de apoiar a importação baseada numa análise de riscos. Para sorte dos pescadores argentinos, a decisão do juiz foi favorável à importação, afirmando que a ABCC não conseguiu provar o alegado risco sanitário à produção nacional, legitimando assim a posição do MPA. O que poucos sabem é que essa decisão também foi comemorada pelos carcinicultores do Equador, que vão aproveitar a porteira aberta, para vender o camarão equatoriano no Brasil. Não deve ser à toa que o presidente da Câmara Nacional de Aquicultura (CNA) do Equador, José Antonio Camposano, declarou publicamente que dá como certa a sua demanda junto a Organização Mundial do Comércio (OMC).

Sem muito clima para o diálogo, governo e carnicicultores brasileiros passaram a conversar em juízo. Para o presidente da ABCC, Itamar Rocha, o MPA se comporta como quem está querendo acabar com a aquicultura, justamente o setor que mais se empenhou para que esse ministério fosse criado e atuasse defendendo seus interesses. Itamar alertou na abertura da Fenacam 2013 que, junto com o camarão importado, vem aí a tilápia de Singapura, do Vietnã e do Equador.

No caso da importação do panga, o pior não aconteceu e os produtores de tilápia não quebraram, mas é preciso levar em conta que são espécies diferentes, e o panga foi apenas mais um pescado barato, como a polaca do Alasca e a merluza argentina. Agora, porém, estamos diante de camarões e tilápias que também produzimos aqui, e que irão determinar preços competindo pela escolha do consumidor. Ficam algumas perguntas: os produtores brasileiros, com nosso “custo Brasil”, estarão preparados e competitivos para enfrentar uma invasão estrangeira do mesmo pescado que cultivam? O MPA fez ou está fazendo o seu dever de casa, fortalecendo o setor com políticas e ações para torná-lo competitivo? O fato é que as demandas dos produtores são sempre as mesmas, estão aí há anos e pouca coisa mudou. Nada das licenças ambientais e nada das vias desimpedidas para acesso ao crédito.

Impossível não ouvir e refletir sobre as palavras e argumentos de Itamar Rocha, ele próprio um dos que mais se empenhou para que o MPA fosse criado. De fato, a situação é preocupante.
A todos boa leitura,

Jomar Carvalho Filho
Biólogo e Editor