Editorial – edição 138

Jomar Filho

Toda atividade zootécnica, seja ela qual for, é passível de ser afetada por doenças e eventos naturais. Como em um castelo de cartas, os envolvidos vão sendo afetados, deixando fragilizados todos os elos da cadeia produtiva, do produtor ao consumidor final.

No caso de commodities de grande valor, em que estão em jogo mercados internacionais altamente disputados, as crises nos cultivos alcançam também as chancelarias de governo e criam disputas acirradas entre nações, sejam elas por questões sanitárias ou econômicas.
Neste momento assistimos os preços do camarão subirem consideravelmente nos Estados Unidos e na Europa, em decorrência da epidemia da Síndrome da Mortalidade Precoce (EMS), que está afetando severamente a produção da China, Tailândia, Malásia e Vietnã, países que até bem pouco tempo, em 2011, eram responsáveis por 70% dos camarões exportados.

A China, que antes da epidemia, produzia anualmente mais de 1,5 milhão de toneladas de camarão e exportava cerca de 200 mil toneladas desse total, atualmente, por conta da EMS, parou de exportar e passou a importar camarão da Índia e do Equador, para satisfazer a sua demanda doméstica. O mesmo vem acontecendo com o Vietnã, que agora também está importando matéria prima com a nalidade de manter em atividade a sua indústria de processamento, grande geradora de mão de obra. Especialistas tailandeses, ouvidos pelo Bangkok Post, a rmam ser impossível prever mudanças no atual cenário epidemiológico e econômico, pelo menos para os próximos dois anos.

Em maio deste ano, a grande surpresa foi o aparecimento da EMS nos cultivos da costa oeste mexicana, com efeitos devastadores sobre a produção. Entre os especialistas, parece haver um consenso de que é inevitável que ela se espalhe por outros países da América Latina, fato que complicará ainda mais o já abalado abastecimento mundial desse crustáceo. O impacto desta epidemia está sendo amplamente divulgado, da mesma forma que, com a ajuda da Sociedad Latinoamericana de Acuacultura, todas as medidas sanitárias publicadas pelas autoridades mexicanas estão sendo avaliadas e discutidas em tempo real pelo setor produtivo de diversos países da região, principalmente pelos produtores e técnicos equatorianos, preocupados com o futuro da sua indústria.

Enquanto isso no Brasil, os carcinicultores se limitam a observar silenciosamente a marcha do vírus da mancha branca, seus grandes estragos e seu determinado avanço para o norte. A barreira geográ ca do estuário do rio Potengi, antes considerada intransponível, já cou para trás. Pela frente agora, os viveiros dos municípios do norte do Estado do Rio Grande do Norte e os do Estado do Ceará.

Lidar com doenças, não importa a origem, é um aprendizado que todo aquicultor precisa, seja ele um criador de camarão, peixe ou molusco. Entretanto, mais que lidar com as doenças, é preciso tentar evitá-las. Na tilapicultura, por exemplo, a redução da densidade inicial de estocagem pode evitar doenças e prejuízos ao produtor e, sobre esse tema, publicamos nesta edição o artigo da pesquisadora Fabiana Garcia, da Apta Noroeste Paulista, além de muitos outros artigos relacionados à produção aquícola sustentável.

A todos, boa leitura,

Jomar Carvalho Filho
Biólogo e Editor