Editorial #Edição 150

Editorial_Jomar“Ninguém faz ideia do que vem lá”

No final de julho recebi um convite da Innovation Norway, a agência de desenvolvimento do governo da Noruega, para conhecer a indústria aquícola do país e visitar a feira Aqua Nor, possivelmente a maior do mundo, que acontece a cada dois anos na cidade de Trondheim.

A Noruega, assim como o Brasil, está entre os países que mantém um ministério especialmente voltado para a pesca e a aquicultura. No ano passado o país despescou nada menos que 1.25 milhões de toneladas de salmão. Isso significa que todos os dias as empresas norueguesas produzem 14 milhões de refeições com esse peixe.

O valor total do pescado exportado pelo país alcançou a casa dos US$ 850 milhões. Segundo a ministra Elisabeth Aspaker, o pescado norueguês é já vendido em 140 países, e uma em cada cinco pessoas em todo o mundo come o salmão norueguês pelo menos uma vez por ano.

Na Noruega ninguém questiona a importância da existência de um ministério da pesca e aquicultura, principalmente quando se sabe que 98% dos alimentos que consumimos são produzidos nos continentes e que apenas 2% são produzidos no mar. A pressão sobre os ecossistemas terrestres já é grande e aumenta a cada dia, acompanhando o crescimento da humanidade e a sua consequente demanda por alimentos.

Ao contrário do Brasil o que vi na Noruega foram pessoas orgulhosas de terem um ministério da pesca e aquicultura. Lá governo abre os caminhos da produção, facilita o acesso a tecnologias e ao crédito, abre as portas de novos mercados, dialoga com o setor produtivo e promove o pescado cultivado como uma proteína de qualidade que todos devem escolher na hora de comprar.

Já aqui no Brasil, enquanto escrevo esse editorial, acompanho de perto a agonia dos aquicultores brasileiros engajados e comprometidos com o crescimento do setor, diante de mais uma possibilidade de extinção do MPA. A opinião pública, de tanto ouvir que a solução dos problemas do nosso país passa também pela decisão de se acabar com o MPA, já se convenceu da sua inutilidade, sendo este ministério o primeiro a ser citado nas listas de cortes.

Lamentavelmente, 12 anos depois de ser criado, não foi possível alardear os benefícios de se ter um ministério eficiente, condutor de uma política de estado voltada para o incremento da oferta de pescado. Além disso, a rotatividade dos sete ministros que ocuparam a pasta nestes 12 anos, expôs a fragilidade do MPA, que mais parece moeda de barganha usada para acomodar aliados de última hora. Uma pena.

Na inevitável reforma ministerial o MPA pode até se manter do jeito que está, mas isso parece ser pouco provável. O mais provável é que passe a fazer parte do Ministério da Agricultura (MAPA), possivelmente na forma de uma secretaria. Os mais otimistas, diante desse cenário, apostam na possibilidade de Helder Barbalho vir a ocupar a pasta do MAPA, no lugar da ministra Katia Abreu. De certo é que ninguém faz ideia do que vem lá.

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Muito já foi dito sobre a vida e a obra do meu amigo Alexandre Wainberg, e a sua partida recente ainda dói. Resta-nos, como consolo, saber que a sua determinação traduzida em conhecimentos aprofundados sobre os manejos da aquicultura jamais será esquecida, assim como o seu jeito simples, seu sorriso largo e seus olhos apertados por trás dos óculos “fundo de garrafa”. Registro aqui mais um carinho para Marcinha, Bianca e toda a sua família.

A todos boa leitura,

Jomar Carvalho Filho
Biólogo e Editor