Editorial #153

Não é de hoje que os produtores de tilápia, o principal peixe da piscicultura brasileira, ganham centavos de Reais por quilo que produzem. No entanto, existem dados que comprovam que o negócio está longe de ser ruim. Muito pelo contrário. Mesmo convivendo com riscos de toda sorte, estiagem e aborrecimentos com a legislação (ou a falta dela), tilapicultores não abandonam o ofício, ainda que sejam obrigados a custear toda a produção com o dinheiro do próprio bolso. Muitos até abandonam o reservatório em frente de casa e partem em busca de reservatórios em outros estados, como no caso dos produtores do Castanhão. Criar tilápia está valendo a pena, e são raríssimos os que saem da atividade. Em entrevista nesta edição, o Secretário Executivo da Peixe BR, Francisco Medeiros, lembrou que mesmo com um PIB negativo de 4,8%, a piscicultura brasileira consegue crescer acima de 10%.

Essas margens apertadas, no entanto, podem melhorar bastante, é o que diz Fernando Kubitza, em outro artigo desta edição. Kubitza afirma a urgência de ir além dos 30% de aproveitamento da tilápia para que o produtor possa ser mais bem remunerado. E essa é uma responsabilidade que cabe a indústria de processamento. Kubitza garante que o que existe em curso para baixar o custo de produção da tilápia nas fazendas é uma negociação interminável com os fabricantes de ração sobre preço e décimos de conversão alimentar. Não que isso não seja importante, disse o especialista, mas é de se esperar um maior impacto na lucratividade do setor, e isso só pode ser feito com o melhor aproveitamento do peixe, passando até pela elaboração de novos cortes.

A verdade é que para todos os cantos que olhamos é possível ver o que o destino reserva para a aquicultura brasileira e para quem nela está envolvido, tanto nas águas continentais como no mar. Trazemos ainda nesta edição um artigo do biólogo Miguel Sepulveda, mostrando mais uma vez o potencial da alga Kappaphycus, e o que isso tem a ver com a economia que o Brasil faria, se produzisse parte, ou toda, a carragena que consumimos pagando caro no mercado internacional. Os nutrientes que a alga precisa, o sol e a mão de obra já forjada nas tarefas do mar e disposta a produzir, temos de sobra. O que pode estar faltando para um salto rumo ao sucesso?

Seria bom conhecer e juntar todas as peças do quebra cabeça da aquicultura brasileira. O ordenamento dos parques e áreas aquícolas, tal como foram concebidos, certamente ainda é peça importante que está faltando, e isso embarrera a expansão da aquicultura. Antonio Ostrensky e Roberto Montanhini Neto falam nesta edição sobre os desafios para o sucesso da piscicultura em parques aquícolas, numa análise de caso dos reservatórios do rio Paranapanema.

Nas próximas páginas também trazemos um tema “cabeludo” para muitos, mas da maior importância para quem não quer perder dinheiro na aquicultura: a análise de um investimento. Afinal, o que é preciso para que saibamos se o investimento que queremos fazer será um sucesso, ou se estaremos jogando dinheiro pelo ralo?

O bom desempenho da atividade aquícola no Brasil não é mera retórica. A despeito das dificuldades, são milhares de produtores que hoje vivem da riqueza das águas. Tenho certeza que a aquicultura há de ocupar, muito em breve, o espaço de destaque que lhe é reservado na economia do nosso País.

A todos uma boa leitura,

Jomar Carvalho Filho
Biólogo e Editor