Editorial #155

Jomar Carvalho Filho, Editor da Panorama da AQUICULTURA

Todas as atividades zootécnicas têm lá os seus percalços, suas surpresas e sustos. É assim na avicultura, suinicultura, pecuária, e na aquicultura não é diferente. Também temos nossas mazelas que são capazes de provocar impactos econômicos de grandes proporções.

E quando não são as doenças, os aquicultores sempre estarão vulneráveis a inundações, estiagens prolongadas e geadas inesperadas, entre tantas outras condições que podem ser adversas para eles. Mas como uma sina, uma teimosia que ninguém explica direito, tudo renasce adiante, ficando os percalços pra trás.

No Ceará, neste momento, tanto os produtores de tilápia como os de camarão vivem dias bastante difíceis. No açude do Castanhão, agora com 8% da sua capacidade hídrica, a estiagem tirou todos os piscicultores da água depois das severas mortalidades ocorridas a partir de maio. Agora nenhum produtor, nem por sua conta e risco, pode usar o açude, até que as condições se restabeleçam. Para se ter uma ideia, do Castanhão já saíram mensalmente 1.600 toneladas de tilápia, uma produção que ajudou muito a popularizar o consumo desse peixe no estado. Hoje, por conta do desabastecimento, a tilápia eviscerada já alcançou 8,70 reais o quilo, um preço recorde, sonho de todo piscicultor, mas que esconde por trás um contingente de produtores parados, contabilizando seus prejuízos.

Enquanto isso, no litoral cearense, é a mancha branca que vem deixando um rastro de perdas econômicas. Da região de Aracati o surto do vírus já se alastrou rapidamente, atingindo cultivos no município de Trairí, localizado acima de Fortaleza, faltando pouco para que cheguem na vizinha Acaraú, praticamente tomando todo o litoral do estado. O Ceará produziu 44 mil toneladas de camarão em 2014 e 50 mil toneladas em 2015, com projeções que apontavam para uma produção de 60 mil toneladas para esse ano. Entretanto, por conta da mancha branca e também da grave crise hídrica, a expectativa atual é de que a produção deste ano fique ao redor das 40 mil toneladas, apoiadas ainda na produção do primeiro semestre, não tão afetada pela doença. Para 2017, no entanto, é impossível fazer previsões.

Diante do quadro climático, os tilapicultores cearenses não podem fazer muito, a não ser esperar que as chuvas caiam abundantemente, ou ainda que as águas da transposição do São Francisco, prometidas para esse ano, façam o Castanhão sangrar novamente. Os carcinicultores, por sua vez, têm pela frente o desafio de mudar o olhar sobre a atividade, a maneira de pensar e os seus paradigmas, para então partirem para novos sistemas de produção, que permitam o cultivo mesmo na presença da mancha branca. O campo já nos mostra exemplos de sucesso, como alguns sistemas intensivos que despontam no Rio Grande do Norte, onde criadores afetados pela mancha branca já obtêm produtividades entre 10 a 15 toneladas, manejando pequenos viveiros em sistema intensivo.

Diante disso tudo, há uma certeza que nos tranquiliza. É a de que os aquicultores sempre darão a volta por cima, movidos talvez por uma “força estranha”, como diz o cantor, que faz com que os alimentos continuem a chegar, apesar dos problemas, nas mesas de todos nós. Daqui, estamos torcendo pelos aquicultores cearenses.

A todos boa leitura

Jomar Carvalho Filho
Biólogo e Editor