Editorial #157

Editorial_Jomar_124

Da beleza dos casarios antigos, o que primeiro nos chama a atenção são os telhados, com suas telhas coloniais feitas artesanalmente por escravos, que usavam como molde as próprias coxas, o que explica sua irregularidade de tamanho.

Diz a lenda que veio daí a expressão “feito nas coxas”, hoje usada de forma pejorativa para designar qualquer coisa mal feita, ainda que muitos telhados coloniais, de tão bem feitos, tenham transcendido o tempo e façam, ainda hoje, parte do nosso olhar.

No nosso setor aquícola, sempre cito como exemplo de coisa mal feita, ou feita nas coxas, as estatísticas da produção aquícola brasileira que tivemos que engolir por quase duas décadas. Sem sair dos gabinetes refrigerados, funcionários vomitavam números feitos nas coxas, não raramente com o único intuito de jogar purpurina sobre seus próprios trabalhos, garantindo seus cargos. Até mesmo ex-ministro, em recente pleito municipal, usou dessa fórmula perversa de enganar, para conquistar a prefeitura. Dizer que quase dobrou a produção de pescado no Brasil enquanto esteve no cargo, foi uma mentira repetida diariamente na campanha do prefeito eleito da cidade do Rio de Janeiro. Até porque, para os que ousassem contesta-lo, lá estariam as estatísticas oficiais, feitas nas coxas, para calar os opositores.

Mas como não há mal que sempre dure, felizmente o IBGE entrou no circuito, e o setor aquícola parece ter se salvado dessa manipulação de informações. Cabe agora ao respeitado instituto de estatística usar de toda a sua expertise para levantar e divulgar, a cada ano, a produção aquícola do ano anterior. Foi assim que, no final de setembro, pelo terceiro ano consecutivo, os números da produção brasileira de 2015 foram divulgados. O país produziu 574.163 toneladas de pescado e cresceu 2,27%, num ano marcado por uma estiagem nunca vista, mortalidades, doenças virais e problemas de mercado. Esse é apenas um dos ótimos temas que reservamos a você, leitor, que, além de conhecer com riqueza de detalhes o perfil da produção brasileira, vai também se inteirar das estratégias de planejamento e condução dos cultivos que possibilitam maximizar a produtividade e os lucros; das instituições de pesquisa e do capital intelectual brasileiro para o desenvolvimento da cadeia de ornamentais; do decreto paulista que facilita e estimula o licenciamento ambiental; da inauguração do maior e mais moderno laboratório do mundo, dedicado a pesquisa com sanidade de peixes; e, muito mais…

A todos uma boa leitura,

Jomar Carvalho Filho
Biólogo e Editor