O vídeo de Jorge Seif Jr. – Editorial, edição #172

Secretário de Aquicultura e Pesca culpa o flagelo do saneamento das cidades e isenta a aquicultura de poluir o meio ambiente

Circula nos grupos de whatsapp um vídeo do secretário da SAP, Jorge Seif Jr. fazendo uma análise do impacto da aquicultura para o Meio Ambiente  (assista o vídeo). Nas suas palavras, “pega um pedacinho de rio, um pedacinho de mar, bota um bijupirá, bota um camarão lá dentro, bota uma tilápia lá dentro, bota um pacu, um tambaqui lá dentro, um pirarucu e 3-4 vezes por dia joga ração pro peixe. Isso é poluir o meio ambiente? O que está destruindo os nossos mares, nossos rios e nossos estuários é o lixo e o esgoto das grandes cidades”, sentenciou Jorge Seif Jr., protestando contra a falta de ETAs – Estações de Tratamento de Esgotos.

Sabemos, no entanto, que as causas da poluição das águas são multifatoriais, e não residem apenas na falta de ETAs, e isso não isenta a aquicultura de ser uma atividade que também polui, como todas do setor produtivo. Admitir isso não pode ser confundido com jogar contra o setor aquícola, muito pelo contrário. Negar que a produção aquícola pode ser poluidora não é, e nem será a melhor estratégia para solucionarmos o travamento das licenças ambientais do setor, fato que certamente estava na mira das palavras de Seif Jr..

Em 2014 tive o privilégio de ser convidado pelo governo da Dinamarca para, junto a outros brasileiros, conhecer as moderníssimas instalações aquícolas, empresas e instituições de pesquisa e fomento do país. Fomos recebidos no Ministério do Meio Ambiente e da Alimentação (sim, no nome “Ministry of Environment and Food of Denmark” a palavra Meio Ambiente antecede a Alimentação) e lá aprendemos que nas décadas de 80 e 90, a situação ambiental da Dinamarca mostrava sinais alarmantes de degradação. Os rios se encontravam com índices inaceitáveis de nutrientes e outros poluentes, e isso motivou uma grande intervenção do governo para reverter esse processo. Todas as atividades produtivas tiveram que se adequar a uma nova proposta de uso dos recursos naturais. Com relação a aquicultura, não foi mais emitida licença de funcionamento para nenhuma piscicultura que operasse com taxa de conversão alimentar (FCR) superior a 1:1. Hoje, as indústrias dinamarquesas de ração elaboram alimentos que permitem conversão de peixes carnívoros de até 0,7:1. Para se ter uma ideia, no Brasil, os melhores desempenhos zootécnicos utilizam 1,3:1, mas a maioria situa-se próximo a 2 ou mais quilos de ração para se obter um quilo de pescado. Além disso, lá os cultivos em terra passaram a ter que operar em sistemas fechados com recirculação – uso mínimo da água com o mínimo de efluente. Não é a toa que a Dinamarca colhe os frutos de ser líder nessa tecnologia, que em breve daremos muita atenção.

O Secretário da SAP é um administrador e empresário do setor pesqueiro, portanto não tem formação na área, tampouco tinha obrigação de conhecer detalhes do processo produtivo da aquicultura. Mas a sua fala, usando o flagelo da falta de saneamento do país, não pode ser usada para dar ao setor aquícola uma carta branca para crescer a qualquer custo. As falas atuais de Seif refletem o discurso de uma parte do setor, e Seif precisa conhecer também os que pensam diferente dos que o cercam nos últimos meses. Existe uma nova geração que também está comprometida com a produção em escala de pescado, de olho na qualidade e na preservação do meio ambiente. Pieguices à parte, gente da academia e do setor produtivo que sabe que uma atividade verdadeiramente sustentável preserva o bem de tudo e de todos.

Nessa edição o leitor da Panorama da AQÜICULTURA vai encontrar muitos conhecimentos sobre a aquicultura multitrófica integrada, vai se atualizar sobre o off-flavor, um problema grave que tem aborrecido produtores e frigoríficos de pescado no Brasil, e muito mais.

Jomar Carvalho Filho
Biólogo e Editor


Assista ao vídeo do Secretário da SAP, Jorge Seif Jr.