A energia de um cata-vento – Editorial #187

A energia de um cata-vento

O reaproveitamento e a transformação contêm muitas das soluções que o setor aquícola deseja

A primeira estrutura eólica construída para gerar eletricidade surgiu em 1890, na Dinamarca, e somente um século depois, em 1992, a primeira turbina eólica foi instalada no Brasil. Olhares céticos de então certamente torceram o nariz quando compararam a fragilidade do cata-vento com a solidez do concreto das gigantescas hidrelétricas, que naqueles anos surgiam por todo canto do país. Hoje, passados 30 anos, e com os céticos já à parte, a energia eólica responde por 11% da matriz energética brasileira, e nada indica que seu uso irá parar de crescer.

A adoção da energia eólica no Brasil me veio à cabeça quando soube da Verde Água, uma microempresa do município de Palhoça (SC), que produziu no ano passado 36 mil litros de um biofertilizante elaborado a partir do extrato da alga Kappaphycus alvarezii, produzida localmente. Pude imaginar o sorriso dos céticos de plantão (e eles estão em todos os locais) comparando esse volume “ínfimo” de biofertilizante com as 48 milhões de toneladas de fertilizantes consumidas pelo Brasil no ano passado, a um custo de importação de 71 bilhões de reais. Eles provavelmente desconhecem que foi um cata-vento erguido em 1992, que tornou possível consumirmos hoje no Brasil a energia elétrica vinda dos ventos, essa fonte limpa, inesgotável e sustentável.

As mudanças e conquistas tecnológicas no Brasil têm seu tempo próprio e, na maioria das vezes demoram mais do que gostaríamos. A produção de biofertilizantes de algas é um exemplo disso. A pesquisa foi iniciada há mais de 15 anos pela Epagri em parceria com a UFSC, e daí surgiram as tecnologias de cultivo e de processamento da alga, que já foram assimiladas com sucesso pelos maricultores de Palhoça. O produto da Verde Água, garante a Epagri, tem um desempenho excelente na produção de verduras, legumes e frutas.

A produção de biofertilizantes também ocorre em outros países. No Peru, por exemplo, várias empresas estão utilizando os resíduos da pesca e da aquicultura com essa finalidade. Não é de hoje que análises econômicas da produção aquícola brasileira apontam para a necessidade de se aproveitar os resíduos, seja para obtenção de moléculas bioativas, que segundo especialistas podem ser mais rentáveis que o próprio filé, ou para a produção de biofertilizante. Além disso, o reaproveitamento é uma prática que está totalmente em harmonia com a economia circular, e já não se discute mais os benefícios econômicos da adoção dessas práticas.

O reaproveitamento na aquicultura é sem dúvida uma tendência, e são indiscutíveis as vantagens do reaproveitamento da água nos sistemas de recirculação (RAS na sigla em inglês). Esse é um dos temas abordados nesta edição. Trazemos ainda muitos outros artigos relevantes para todos aqueles que se dedicam ou querem se dedicar profissionalmente à aquicultura. Convido a todos para mais um mergulho nas nossas páginas que, como de costume, foram preparadas especialmente para você, leitor.

Jomar Carvalho Filho

Biólogo e Editor