Editorial – edição 51

A emergente indústria do cultivo de camarões marinhos no Brasil está convivendo com uma ameaça muito séria. Perto daqui, países da América Central já sofrem as terríveis conseqüências dos vírus YHV e WSSV, responsáveis pela quebradeira da indústria em muitos países asiáticos. Os estragos são radicais e muitas vezes irreversíveis, já que as mortalidades podem chegar a 99%, suficientes para nocautear qualquer produtor. É quase inevitável conviver com esses vírus e acabar com eles pode ser impossível. A situação é grave e só há um jeito de evitar essa tragédia anunciada: trancar as fronteiras para toda e qualquer importação de crustáceos, vivos ou congelados. Isto porque, esses vírus permanecem ativos mesmo na carne congelada de camarões, siris e outros crustáceos, apesar de não resistirem na água do mar por mais de três dias, se não acharem um crustáceo hospedeiro.

Não vale comprar cadeado após a visita do ladrão ou parar de fumar após o câncer de pulmão. É função do governo tomar medidas para evitar essa tragédia. É preciso conscientizar a indústria aqüícola do perigo, bem como os importadores de pescados para que saibam extamente o porquê da necessária proibição, para que nada entre por debaixo dos panos.

Os produtores esperam que o recém criado DPA – Departamento de Pesca e Aqüicultura levante essa bandeira, apesar das dificuldades internas de conciliação de interesses, já que o órgão também representa todo o setor pesqueiro, inclusive as empresas que pescam, importam, transformam e comercializam camarões, cuja representatividade é bem mais expressiva que a dos aqüicultores junto aos podres poderes. É como dormir com o inimigo.

A união entre produtores e a certeza de que contam com a cumplicidade dos órgãos que os representam, é peça chave para estruturar uma indústria forte e estável como, por exemplo, a do catfish nos EUA. Já se vai longe o tempo em que se achava que tudo que era bom para os EUA era bom para o Brasil, mas não devemos fechar os olhos para os ensinamentos que essa próspera indústria tem para nos oferecer e, nesta edição apresentamos sua trajetória de implantação e os meios que utilizou para transformar um peixe outrora desvalorizado, em um produto super atrativo nos cardápios americanos.

Soluções criativas e organização parecem ser a palavra de ordem nesses dias de maxidesvalorização. Assim, destacamos nesta edição o Projeto Plataran, Plataforma da Ranicultura Brasileira, que pretende redirecionar o setor a partir de uma radiografia precisa de toda a cadeia produtiva, apontando soluções para que as rãs beneficiadas sejam mais acessíveis ao consumidor.

O leitor também vai saborear os 50 anos da truta no Brasil, e matérias sobre como conservar pescados utilizando irradiação, mini-pisciculturas de killifish, um peixe ornamental em extinção que pode ser cultivado em pequenos espaços, além de mais um artigo de Fernando Kubitza, desta vez destacando a importância das rações completas na eficiência dos cultivos e na preservação dos parques aqüícolas em grandes reservatórios.

A todos, mais uma vez, boa leitura.

Jomar Carvalho Filho
Biólogo e Editor