Editorial – Edição 58

 

Nesta Edição os leitores encontrarão um artigo sobre a fazenda de camarões da empresa Yakult, que após passar três anos desativada e colocada à venda, foi finalmente doada ao Laboratório de Camrões Marinhos da UFSC. Mais do que mostrar a seriedade dos técnicos envolvidos na carcinicultores catarinenses, que logo no primeiro ciclo já despescaram 24 toneladas de camarões, o artigo mostra que as fronteiras da carcinicultura comercial foram definitivamente derrubadas. O que antes era considerado inviável fora da Região Nordeste/Norte, hoje faz a alegria de muitos produtores catarinenses que andam encantados com o Litopenaeus vannamei, o já popular camarão vannamei.

Ao prepararmos esse artigo, por diversas vezes veio-me à cabeça um documentário que assisti faz algum tempo, ilustrado por uma historinha a respeito de uma mulher, que seguia sobriamente em seu carro por uma estrada sinuosa e muito estreita. Ao se preparar para uma das curvas fechadas, assustou-se ao ver se aproximar um outro carro que saía desajeitadamente da curva vindo em sua direção. A batida por pouco não aconteceu e ainda assim, a senhora pôde ver o motorista assustado gesticular em sua direção e xingar…vaaacaaa!!!! Muito polida, a senhora mal teve tempo para lamentar a grosseria e o mau humor das pessoas, antes de atropelar, logo em seguida, uma enorme vaca para no meio da estrada. O documentário, que lamentavelmente não tive chance de rever, era sobre a vantagem de encararmos um mesmo fato sobre diversos pontos de vista. Por anos acreditei, de fato, que construir fazendas de camarão fora das Regiões Norte e Nordeste seria jogar dinheiro fora. Hoje, parabenizo aqueles que, ao contrário de mim, sempre acreditaram que isso seria possível.

A carcinicultura brasileira está vivendo um momento de glória, também favorecido pelas boas perspectivas do mercado internacional. Apesar disso, os criadores do Norte/Nordeste nunca se viram tão ameaçados pelos ONG’s, por conta de um Projeto de Lei desastrado de uma senadora da República que tentou aprovar o desmatamento de 10% dos manguezais brasileiros, legitimida pela necessidade urgente de desenvolver a carcinicultura em nosso país, não se importando que isso custe 270 mil hectares de florestas de mangue. Temos que reconhecer que nunca se viu um político “defender” tão gloriosamente uma causa da aqüicultura brasileira, e tampouco se viu tantos grupos organizados protestando contra o desenvolvimento da criação de camarão no país. O que se espera é que, quem quer que tenha acionado o lobby, agora acalme a turba.

Nesta edição trazemos também para os leitores um artigo de Cláudio Angelo Agostinho e Francisco Wechsler, especialistas que fazem parte do primeiro time da ranicultura brasileira, falando sobre as técnicas de fertilização artificial para as rãs-touro através da aplicação de hormônios gonadotrópicos. A técnica, que em muito se assemelha ao que se faz com os peixes, vai permitir que os ranicultores possam finalmente obter girinos ao longo de todo o ano, solucionando um dos gargalos da atividade. Entre os muitos, o leitor encontrará também um artigo sobre o jundiá cinza, um bagre nativo das águas do Sul do Brasil de grande potencial zootécnico, que vem se somar às dezenas de peixes que confundem os piscicultores na hora da escolha de qual vai criar. Coisas de quem vive cercado pela maior ictiofauna do planeta.

Aproveito também este espaço para me juntar na dor, a todos que tiveram o privilégio de conviver com o querido Antônio Lisboa. Além da saudade, fica sua vasta obra publicada e seu grande trabalho a frente do curso de Engenharia de pesca da Universidade Federal Rural de Pernambuco.

A todos, uma boa leitura.

Jomar Carvalho Filho – Biológo e Editor