Editorial – Edição 59

Por muitas décadas, até a recente mudança para a CEASA-RJ, praticamente todo pescado consumido na cidade do Rio de Janeiro passava pelos pregões noturnos que varavam as madrugadas no amplo andar térreo do prédio da pesca, ainda hoje de pé, próximo a estação das barcas que partem do Rio para Niterói.

Numa dessas madrugadas, há 11 ou 12 anos atrás, numa roda onde estavam também presentes alguns pregoeiros, ouvi coisas difíceis de serem esquecidas. O assunto era a presença dos camarões criados nos viveiros nordestinos que por aqui chegavam, tímidos a procurar nichos no mercado carioca. Para os camarões, aqueles

senhores só tinham adjetivos depreciativos. Nem a aparência, nem o sabor e tampouco o preço mereciam naquela ocasião a menor atenção daqueles famosos intermediários. Aliás, se dependesse deles, a carcinicultura poderia perfeitamente ter acabado por aqueles dias.

Ainda bem que prever o futuro nunca foi o forte daqueles velhos pregoeiros donos de riquíssimas bancas feudais de leilão. Basta ver como os seus negócios evoluíram até os dias de hoje. Foi bom, no entanto, ter visto nos anos seguintes um quadro bem diferente daqueles traçados por aqueles Nostradamus da carcinicultura. Não demorou muito para que as feiras livres e os supermercados do Rio de Janeiro passassem a vender os vannameis sem que ninguém mais se importe de onde vêm ou pra onde vão. Os velhos pregoeiros certamente agora lamentam por não poderem dispor de mais quantidades desses camarões alados, que teimam em voar direto do Nordeste para abastecer as mesas européias, da mesma forma que hoje, nenhum deles seria capaz de lembrar do “sabor de isopor” que tanto os incomodava naqueles camarões.

O mundo dá voltas. Atualmente assistimos hipermercados buscando na aqüicultura a qualidade que há muito deixaram de encontrar nas CEASAS e nos CEAGESPs. E não buscam somente os camarões. Querem também tilápias, pacus, pintados, trutas, ostras e mexilhões. O consumidor exige qualidade, fazendo com que eles rastreiem passo a passo o processo produtivo dos produtos a serem oferecidos, pagando mais por isso ao produtor. O Departamento de Fazendas do Carrefour está aí, aberto para credenciar fornecedores capazes de abastece-los com produtos que são produzidos sem agredir o meio ambiente e que não façam uso de substâncias polêmicas. É uma moda? Não, tudo indica que é uma tendência. É só uma questão de tempo para que todas as cadeias de supermercados tenham a mesma conduta pioneira.

Hoje, passados muitos anos daquela madrugada, lamento por todos os aqüicultores que desistiram de produzir, desmotivados pela falta de interesse que o mercado tinha pelo que não era tradicional, e aproveito para parabenizar aqueles que perseveraram por acreditar no valor do pescado cultivado. Os dias melhores estão finalmente chegando.

A todos uma boa leitura.

Jomar Carvalho Filho – Biólogo e Editor