Editorial – Edição 70

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Seguindo o rastro dos eventos da WAS – Sociedade Mundial de Aqüicultura que, aliás, anda as voltas com a preparação da conferência do ano que vem, em Salvador – BA, fui parar na China, onde também estavam presentes muitos brasileiros que, como eu, foram atraídos por tudo que este país representa para a aqüicultura.

A China é, de fato, surpreendente apesar de eu ter deixado por lá toda a visão romântica que tinha a seu respeito. A começar pela arquitetura ocidental moderna, de bom gosto, diga-se de passagem, mas que já transformou completamente o horizonte das grandes cidades, como Xangai e Pequim, onde tudo é sempre grande, muito grande, e nada parecido com a China cinematográfica a que estamos habituados a ver. Muitos carros, bicicletas e muita gente por todos os lados, quase sempre falando ao celular. Logo descobri que os chineses não são nada “zen”, e que são perigosíssimos ao volante. Têm costumes curiosos como o deselegante hábito de cuspir com freqüência em qualquer lugar e não consideram isso uma falta de educação. Os chineses não sabem falar “não”, o que os impedem de dizer “não entendi nada”, preferindo sempre sorrir e deixar o dito pelo não dito. Dizem que isso faz parte da alma chinesa, que também os impedem de esperar que você saia do elevador, ou do metrô, para que entrem a seguir. Simplesmente vão atropelando. Ser chinês é claro que não é só isso, mas é isso também. E esse entendimento já melhora muito a vida de um estrangeiro quando estiver por lá. Na China, faça como os chineses.

E lá estavam muitos brasileiros, curiosos como eu, para conhecer a arte que os levou a liderar a produção mundial de pescados. Este povo sabe melhor que ninguém como criar peixes. Dá para supor que são movidos pelo simples fato de gostarem muito dos peixes, que estão por toda parte. Arrisco a dizer que é um dos animais mais fáceis de serem vistos vivos por lá. Basta ir a um restaurante que eles estarão nos aquários, nadando antes de serem consumidos.

E haja peixe para tanta gente. Apesar de todos os incentivos anticoncepcionais, o governo chinês espera que nas próximas quatro décadas o país incorpore à sua população atual de 1,25 bilhões de pessoas, 400 mil pessoas, ou 2,5 vezes a população atual do Brasil. E a aqüicultura chinesa é peça fundamental na estratégia para alimentar toda essa gente. Política aqüícola na China é coisa séria e sobre esse assunto, eles têm muito a nos ensinar.

Essa edição está impregnada do espírito aqüícola chinês. Nela, o leitor vai ter a oportunidade de ver o panorama da aqüicultura chinesa através de uma entrevista com dois especialistas locais; vai saber como foi o maior encontro da aqüicultura mundial e as expectativas dos organizadores para o evento no Brasil e, ainda vai pegar uma carona nos apontamentos de viagem de Fernando Kubitza. Vai ler também sobre a inauguração das primeiras instalações do Projeto São Francisco, e ainda encontrará um artigo muito interessante sobre a prática do uso de aeradores mecânicos na carcinicultura brasileira, escrito por Alberto Nunes. E muito mais: o uso da silagem em Cuba, as comemorações de 15 anos da Abrat… Aproveitem, boa leitura

Jomar Carvalho Filho
Biólogo e Editor