Editorial – Edição 80

Ao discursar na abertura da I Conferência Nacional de Aqüicultura e Pesca, o Presidente Lula lembrou das inúmeras críticas que recebeu por ter criado a SEAP. Bem humorado, referiu-se aos seus críticos, como pessoas que acham que os peixes vêm voando e caem no prato da gente. “Eles não têm a dimensão da totalidade de vocês”, disse para uma platéia composta por pescadores e aqüicultores, a esta altura honrados com o seu reconhecimento. E prosseguiu: “nós fomos muito criticados porque criei o Ministério, mas eu nunca consegui entender porque em nosso país a pesca era tratada como um item do Ministério da Agricultura, quando temos uma costa marítima como é a nossa e essa quantidade toda de água doce”. Foi ovacionado.

O Presidente não poupou elogios ao Ministro José Fritsch, e fez questão de dissipar todos os rumores da mídia, que naquela altura davam como certa a saída de Fritsch na primeira reforma ministerial. A presença de Lula exorcizou o ambiente, desarmou espíritos e preparou os participantes para uma maratona de três dias de debates em torno de um único documento, que servirá de base para dar rumo a política de aqüicultura e pesca no Brasil.

A Conferência também serviu para a escolha das entidades que terão assento no 1º Conselho Nacional de Aqüicultura e Pesca, que será constituído por 84 representantes de órgãos governamentais e da sociedade organizada. A atividade aqüícola, como era de se esperar, ficou minimamente representada através da Abracoa – Associação Brasileira de Criadores de Organismos Aquáticos; Aquabio – Sociedade Brasileira de Aqüicultura e Biologia Aquática, ABCC – Associação Brasileira de Criadores de Camarão e a Abraq – Associação Brasileira de Aqüicultura, que terá direito ao maior número de assentos (três).

sse fato me trouxe, mais uma vez, a pergunta que não quer calar: o que é hoje a Abraq? Muita gente me pergunta isso, mas eu mesmo venho há tempos tentando saber. Tenho perguntado aos velhos associados, fundadores, gente que se empenhou para estruturar a Abraq e, a resposta mais comum que ouço é: não existe mais, esquece, acabou. Mas como acabou, se agora acaba de ganhar três assentos no Conselho Nacional de Aqüicultura e Pesca?

Só quem deve ter essa resposta é o Sr. Adilon de Souza, cuja reeleição para um segundo mandato na presidência da Associação, esfarinhou a Abraq naquele desastroso Simbraq realizado em Goiânia. Ao vê-lo circulando, como agora na Conferência Nacional, quase sempre ao lado de autoridades, tento imaginar a quem ele acha que representa. Adilon de Souza é presidente de uma legenda oca, de uma instituição cuja sede ninguém sabe onde fica. Desconhecemos o seu telefone, fax, e-mail ou qualquer outra informação, além, é claro, daquela que somente deve constar do seu cartão de visitas, que lhe abre as portas dos gabinetes dos políticos. Faça um teste leitor, e tente descobrir pelos métodos usuais, como acessar essa instituição que diz representar a aqüicultura brasileira.

Sou da época que a Abraq existia, sim, e seus Simpósios eram iluminados pelo brilho dos olhos dos alunos que neles publicavam suas primeiras pesquisas acadêmicas. A Abraq sempre terá o mérito de ter servido de porta de entrada para o mundo da aqüicultura, para a maior parte dos que hoje estão dentro d’água fazendo despescas. Acho que ando com saudades da velha Abraq, e não sou só eu. Sabemos também que, como os peixes, ela não virá voando e cairá na nossa frente para novamente representar quem faz a aqüicultura em nosso país.

Jomar Carvalho Filho
Biólogo e Editor