Editorial Edição 81

O início do ano foi bastante desastroso para a aqüicultura brasileira. As chuvas caíram como há muito não se via no sertão nordestino e o seu rastro trouxe muita desgraça para os aqüicultores, e um prejuízo ainda difícil de ser avaliado. Temporais que nenhum instituto de meteorologia teve a capacidade de prever, caíram de forma pontual em determinadas regiões, arrasando desde os cultivos em tanques-rede no médio São Francisco, até uma boa parte das fazendas litorâneas de camarão distribuídas por vários estados.

Me dei conta do problema, quando um dia de janeiro abri o jornal O Globo e me deparei com a foto de uma canoa passando próxima ao telhado da sede da Piscicultura Santa Clara, em Propriá, Alagoas, um cenário que anteriormente conheci. A parede quase toda submersa ainda deixava ler “venda de alevinos”, escrito em letras afogadas, que davam a dimensão das perdas.

Mas os estragos não pararam por aí. Causas ainda desconhecidas, mas associadas às fortes chuvas localizadas que caíram na região do médio São Francisco, mataram, entre 2 e 12 de fevereiro, mais de 500 toneladas de tilápias cultivadas em tanques-rede na região. Não é possível prever ainda quais os fortes reflexos que isso trará para o futuro da atividade, já que a quase totalidade dos piscicultores afetados não possui reserva de capital e, em sua maioria, encontram-se ainda bastante endividados por conta dos empréstimos para a compra das gaiolas, alevinos e ração. A abertura de comportas da CHESF, por conta das cheias localizadas, parece ter sido o gatilho que desencadeou essa estranha mortalidade, mas até agora as verdadeiras causas ainda encontram-se desconhecidas, como poderá ser visto em artigo nesta edição.

Ao chegarem nos estuários, as chuvas que caíram por todo o sertão continuaram a trazer prejuízos e tristezas, desta vez para muitos carcinicultores. As enchentes ultrapassaram a maior parte dos taludes dos viveiros nos principais estuários do Rio Grande do Norte, nos mesmos dias que o setor, na capital, brindava a Fenacam. Ao dar a volta na lagoa de Guaraíras o cenário era desolador, com os viveiros alagados dando a dimensão das tragédias pessoais decorrentes da invernada fora de hora. Tristeza de uns, alegria de outros. Nunca se viu tanto camarão ser capturado de tarrafa para ser vendido nas beiradas das estradas, fazendo a alegria dos pescadores, restaurantes e turistas.

Lidar com perdas é sempre complicado, principalmente numa atividade emergente, onde os que dela participam ainda não têm a sabedoria para sair de situações limite, e onde a falta de capital traz a desesperança. Um problema em cadeia, já que a indústria de processamento, que só sobrevive graças a matéria prima dos viveiros, também sente o tranco da quebra de safra, sem falar da indústria de alimentos e demais insumos.

A atividade vive um momento delicado, onde deve prevalecer a parceria dos agentes financiadores da produção, com os produtores, fornecedores de insumos e o próprio governo. Aliás, uma boa hora para o governo intermediar e reafirmar a necessidade dessas parcerias para que o setor não sofra retrocessos desnecessários por conta dos prejuízos deste início de ano. O aqüicultores vítimas das cheias não podem ficar desamparados. Ao contrário, precisam de estímulo para logo estarem mostrando o melhor da sua produção.

A todos uma boa leitura.

Jomar Carvalho Filho
Biólogo e Editor