Editorial – Edição 84

jomar78

“ Na noite de ontem (07 de setembro de 2004) três pistoleiros contratados pela Empresa Joli Aqüicultura Ltda – produtora de camarão em cativeiro, alvejaram a bala e torturaram um grupo de pescadores – entre os quais duas crianças, moradores da comunidade de Curral Velho, município de Acaraú. Na manhã do dia 7, trabalhadores da citada empresa abriram a cerca da fazenda e com uma draga ameaçavam escavar terrenos de mangue de livre acesso dos moradores. Um grupo de moradores da comunidade foi ao local conversar com o gerente e funcionários da empresa para saber o que estava acontecendo. Naquele instante houve um acordo e a empresa garantiu que não seria feito nenhum desmatamento, concordando em retirar a draga.
Ao final da tarde, dois pescadores que se dirigiam para pescar próximo a essa área foram recebidos à bala pelos seguranças da Empresa Joli. Assustados, esses pescadores chegam na comunidade para comunicar o ocorrido. Preocupados com a situação, um grupo de dezesseis pessoas decidiu ir conversar novamente com os funcionários da empresa para saber o motivo de tanta violência. Lá chegando, a cerca de 50 metros, também foram recebidos à bala por pistoleiros contratados pela Empresa e sete pessoas foram alvejadas pelos tiros em várias partes do corpo. Entre os baleados estão os pescadores Dione (adolescente), Caburé, Raimundo, Cleilton de Paula (14 anos), Mardônio de Paula (15 anos) e José Ronaldo. Este último recebeu socorro no hospital da Acaraú, porque foi levado de moto pelo pescador João Colombo, que conseguiu escapar ileso da situação. … Na delegacia, o grupo não foi interrogado e não pôde prestar queixa. Apenas foram orientados pelos policiais “a deixar para lá”. … Na tarde de hoje, 8 de setembro, os pescadores João Colombo dos Santos, Agenor Raimundo Neves e o adolescente Mardônio de Paula estão em Fortaleza, prestando queixa na Corregedoria da Polícia Civil e participando de audiência com o Procurador Geral da República, Alessander Sales, às 13h30min, na Procuradoria Geral da República”

Estava me preparando para escrever este editorial, quando recebi por e-mail as informações acima, distribuídas através da RedManglar. Achei que seria interessante compartilhá-la através deste editorial. Visitei recentemente Curral Velho e vi a luta dessa comunidade para sobreviver à ganância dos empresários de duas fazendas próximas, que de forma arbitrária, vêm ao longo dos últimos anos interferindo em seu cotidiano e nos recursos naturais que a comunidade sempre dependeu para sobreviver.

Na minha opinião, os conflitos provocados pela carcinicultura estão cada vez mais intensificados e, se nada for feito, a opinião pública, em pouco tempo, terá a pior percepção possível da atividade. É preciso dar um basta na intolerância, que deve ser evitada a qualquer custo. Carcinicultores e ambientalistas, devem, de forma urgente, estabelecer um canal de diálogo e um ponto de equilíbrio. Da mesma forma, a banda podre da carcinicultura deve ser punida com o rigor da lei.
Não só as comunidades são prejudicadas, mas também a própria atividade, que vê seu nome aos poucos sendo enlameado por causa de gananciosos, quando são tantos os produtores que têm trabalhado corretamente para que a carcinicultura brasileira seja praticada de forma consciente e sustentável. Se, ao contrário, nada for feito, provavelmente a carcinicultura não será a única atividade a ter a sua imagem manchada. Os respingos certamente recairão sobre as demais atividades da nossa aqüicultura.

Pode até parecer uma coincidência o fato de termos recebido a notícia da ação de pistoleiros em Curral Velho, justo no momento em que estamos fechando uma edição onde os conflitos da carcinicultura são tratados. Mas, o fato é que esses conflitos são antigos e freqüentam de forma recorrente as páginas dos noticiários. Este assunto foi suficientemente importante para me levar do Rio de Janeiro a Curral Velho, um lugar distante 380 quilômetros de Fortaleza, para que eu pudesse conhecê-lo de perto. Tem muita gente, porém, que está muito mais próxima, e ainda não andou por lá, para entender como a carcinicultura, apesar de ser uma das atividades produtivas mais promissoras do Brasil, também pode causar muitos danos. Fica aqui um convite para que a matéria que trata deste tema nessa edição seja lida com respeito aos dois pontos de vista. A carcinicultura é uma atividade espetacular e nada justifica que ela esteja atrelada a derramamentos de sangue.
A todos uma boa leitura

Jomar Carvalho Filho
Biólogo e Editor