Editorial – edição 95

A intimidade com a água deve tornar mais fácil o trabalho dos aqüicultores, craques que são em dar nós em pingo d’água na hora de comercializar sua produção. Ao contrário do que muitos pensam, os pescados vindos da aqüicultura procuram não utilizar os mesmos canais de comercialização tradicionalmente usados pelos pescados da pesca extrativa.

Ao fugirem dos vícios e cacoetes desse comércio, os aqüicultores procuram negociar com o menor número possível de intermediários, o que inevitavelmente os colocam mais próximos do consumidor final, mas trazem para si a responsabilidade de ter que conhecer mais de perto esse consumidor, seus gostos e seus hábitos.
O hábito de se consumir pescados no Brasil é um dos temas abordados nessa edição, em excelente artigo de Osmar Tomazelli Jr. e Letícia Philippi, que faz uma análise profunda do consumo domiciliar de pescados, tentando ainda nos responder se o brasileiro é, ou não, um comedor de pescados.

A comercialização, no que diz respeito aos produtos aqüícolas tem, portanto, contornos desafiadores. Ao aqüicultor não basta produzir de forma equilibrada e sustentável. É preciso enfrentar o desafio de ter que encontrar a todo o momento canais de comercialização com características peculiares, capazes de remunerá-lo satisfatoriamente.

Mas, por que não se concentrar apenas nos processos produtivos e comercializar nos tradicionais pregões da pesca? Simplesmente porque os produtos aqüícolas nos pregões tradicionais apurariam preços muito próximos, ou mesmo inferiores, aos custos de produção. Eis o motivo pelo qual as negociações devem ser diferenciadas quando se trata de pescados cultivados. A criatividade, então, passa a ter um papel fundamental e muitas vezes até determinante no sucesso ou fracasso dos empreendimentos aqüícolas.

Falando em criatividade e desafio, publicamos também nessa edição o caminho percorrido por um piscicultor do Estado do Rio de Janeiro, que procurou uma tradicional indústria de conservas para escoar suas tilápias em forma de filés.

Nas próximas páginas você também conhecerá a mecânica do uso e reuso da água nos sistemas fechados com recirculação; um excelente estudo mostrando as vantagens da alimentação noturna no ganho de peso das tilápias; as novas fronteiras da aqüicultura com os cultivos de microalgas para a obtenção de produtos de valor comercial, e muito mais….

A todos, uma boa leitura.

Jomar Carvalho Filho
Biólogo e Editor