Uma polêmica extemporânea

Espécies exóticas desde sempre são protagonistas no cenário da aquicultura brasileira, mas isso ainda incomoda muita gente.

Editorial # 192

São poucos os países que criam com sucesso as suas espécies nativas. O Equador, maior exportador mundial de camarão, é um exemplo disso, já que o camarão vannamei é nativo do seu litoral. Na Noruega, onde o salmão do Atlântico é nativo, os lucros da salmonicultura só não superam os da produção de óleo e gás, principais itens da economia do país. No Brasil, os peixes redondos cultivados vêm ganhando destaque nas gôndolas dos mercados e têm pela frente um caminho promissor, já trilhado com sucesso pela tilápia, que como sabemos é uma espécie exótica.  

Se olharmos o resto do mundo, a tilápia, o camarão vannamei e o salmão são exóticos na quase totalidade dos países onde hoje são produzidos com sucesso. Assim como acontece com as demais espécies de animais e plantas que diariamente frequentam as nossas mesas, esses animais vêm sendo selecionados e melhorados geneticamente, o que os torna cada vez mais atraentes para o setor produtivo. Portanto, não me parecem justas as críticas ao setor aquícola brasileiro por adotar espécies não nativas para produzir o pescado nosso de cada dia.

A introdução de uma espécie exótica nunca é tarefa simples e requer planejamento. As trutas, por exemplo, já eram desejadas por brasileiros em 1913, ano em que duas remessas de ovos embrionados chegaram ao Rio de Janeiro com o objetivo de povoar os riachos do Alto da Boa Vista, hoje um bairro carioca encravado na Floresta da Tijuca. Tinha tudo para dar errado, e deu. Vingaram apenas 150 alevinos de truta arco-íris, que provavelmente sucumbiram na primeira onda de calor do verão carioca. A truta arco-íris é nativa dos EUA, e só vingou no Brasil a partir de 1949, quando ovos embrionados foram trazidos da Dinamarca – onde a espécie é exótica – pelo Ministério da Agricultura, que decidiu fazer algo diante da inexistência de peixes nos rios de nossas regiões montanhosas. No entanto, os peixes introduzidos nos rios da Serra da Bocaina não se estabeleceram da forma como era esperada, mas as técnicas de cultivo que surgiram daí permitiram que a truticultura nacional se estabelecesse, ainda que timidamente.

A introdução da tilápia também tem as suas estórias. Há quem diga que os peixes foram trazidos na década de 1950 para controlar plantas nas represas das hidrelétricas. Mas foi somente em 1971 que o DNOCS realizou a primeira introdução oficial da tilápia-do-Nilo (Oreochromis niloticus) e da tilápia de Zanzibar (Oreochromis hornorum) para peixamento dos reservatórios da região Nordeste. Nos anos 1980 as estações de piscicultura das hidrelétricas de São Paulo e Minas Gerais produziram grandes quantidades de alevinos também para o peixamento dos seus reservatórios e venda ou distribuição a produtores rurais. 

Foi dessa maneira que a tilápia rapidamente se disseminou nos reservatórios e nas propriedades rurais do Nordeste, Sudeste e Sul do país. Na época não se conheciam as técnicas de reversão sexual e, por se reproduzirem precocemente, se multiplicaram intensa e descontroladamente nos grandes reservatórios, nos açudes particulares e nas pisciculturas. O resultado foi uma imensa produção de peixes cada vez menores, que eram encontrados em qualquer lagoa. Tilápia passou a ser sinônimo de peixe sem valor, cheio de espinhos e com gosto de barro. Ou seja, tinha tudo pra dar errado, mas acabou dando certo.

Em 25 anos, a péssima imagem da tilápia se desfez, graças a muito trabalho e algumas mudanças, entre elas a prática do cultivo monosexo, o uso de tanques-rede, melhoramento genético, abate e processamento profissional, além de uma legislação modificada para que as águas da União possibilitassem a expansão da produção. A tilápia passou a ser sinônimo de um peixe de altíssima qualidade e conquistou entre os brasileiros a mesma boa aceitação que tem em outros países, razão pela qual o Brasil passou a exportá-la para diversos destinos.

O tempo passou, e me causa surpresa que a tilapicultura ainda seja motivo de polêmica e sofra críticas por utilizar uma espécie não nativa, introduzida há 70 anos. Demonizar a atividade é algo antigo e absolutamente sem sentido, até porque é impossível remover o peixe das águas brasileiras, independentemente da presença ou não da prática da aquicultura. Faço minhas as palavras do professor José Eurico “Zico” Cyrino, da Esalq-USP, em artigo publicado aqui na Panorama da AQÜICULTURAhá 27 anos: “Se uma espécie, seja qual for, nacional ou exótica, já tiver sido translocada ou introduzida em uma determinada bacia, como limitar seu aproveitamento? Ou por quê? A limitação ao uso das tilápias é calcada em um discurso preservacionista extemporâneo e demagógico. Como todos sabem, tilápias estão disseminadas por todos os corpos aquáticos do Brasil, tendo sido aqui introduzidas há tanto tempo que dificilmente a espécie pode ainda ser considerada exótica. Se tilápias estão do lado de fora das gaiolas, por que não poderiam estar do lado de dentro também? …”

Enfim, na página 13 desta edição, o leitor vai entender melhor os motivos que me colocaram novamente diante dessa polêmica. 

A todos, boa leitura. 

Jomar Carvalho Filho
Biólogo e Editor