Editorial_edição 56

jomar (1)

No início dos tempos, toda alimentação humana era proveniente da caça e dos vegetais que se podiam coletar aqui e ali. Na escassez da caça ou diante dos invernos rigorosos onde nada vicejava, os grupos migravam a procura de novos locais onde pudessem ter fácil acesso ao alimento. Eram grupos pequenos que favoreciam a natureza nômade dos que viveram naquele tempo. Mas a ordem sempre foi “crescer e multiplicar” e uma população grande não podia mais ter um comportamento nômade. Levantar acampamento e viajar ficava cada vez mais complicado e o ideal era se fixar em um único lugar. Mas como fazer para dar o que comer? Deve ter sido justo num desses momentos de estresse que, com fome e sem ânimo algum para migrar novamente, alguém mais esperto do grupo inventou a nossa tão conhecida agricultura. A idéia era boa: pegavam umas mudinhas de plantas conhecidas, plantavam uma ao lado das outras e pronto…era esperar crescer, colher e saborear o que vinha direto do quintal. Daí em diante só precisariam caçar e pescar para se alimentar de proteína animal. Mas, ao que parece, também ficou cansativo ir cada vez mais longe atrás de caça. E foi provavelmente aí, nesse momento da existência humana que outro hominídeo espertus deve ter inventado a pecuária. Era simples: caçavam e mantinham ainda vivos alguns animais, prendiam entre quatro cercas, davam o que comer, se dessem sorte os animais até se reproduziriam e pronto…proteína animal direto do quintal para o prato.

Bem, tudo isso não passa de uma divertida elocubração de como deve ter acontecido a invenção da agricultura e da pecuária. Mas, e a aqüicultura? Acho que com tanta água carregada de peixes ao seu redor, o homem relaxou e ficou um pouco preguiçoso até que começasse a ver alguma utilidade no fato de criar alguma espécie de pescado. Muito provavelmente o início deve ter sido, motivado por hobby, talvez algum aquariofilista crônico incurável que achou por bem represar alguma água e nela colocar algum peixe. Sei que os chineses – e sempre eles – já cultivavam peixes há 6 mil anos atrás. Mas esses anos todos não foram suficientes para que a aqüicultura passasse a ser conhecida por todos. Muita gente nos dias atuais, principalmente no Brasil, jamais ouviu falar nessa palavra.

Milênios depois os estoques naturais de pescados alcançam seus limites de exploração e o alerta vermelho pisca avisando a humanidade que os pescados estão sendo detonados furiosamente com a ajuda de tecnologias hiper-sofisticadas de captura. Os hominídeos espertus de hoje em dia sabem que a ordem agora é cultivar se quiserem continuar a alimentar no futuro os seus filhos com pescados.

Atualmente, um entre quatro pescados consumidos no mundo já é produzido pela aqüicultura e aposto que você leitor, de alguma forma já sabia que ia ser assim um dia. Como já sabe também que essa relação vai aumentar de uma forma muito rápida e que a aqüicultura será em breve uma atividade tão conhecida como a agricultura e a pecuária e, gerará cada vez mais empregos, divisas e saúde aos homens sobre a terra. Isso se o homem praticar uma aqüicultura consciente e não despejar toneladas de produtos químicos na água para cuidar da saúde de seus peixes prejudicando a própria saúde, como alerta nesta edição um artigo sobre a lernea e os cuidados no seu tratamento.

No Brasil é cada vez maior o número dos que sabem que a profissionalização é a tônica na chegada desse ano 2000. Nessa edição trazemos também, para os que trilham o caminho da profissionalização, um tema que não pode deixar de estar presente no cotidiano de um produtor. Trata-se dos conceitos de custos, com sugestões de como organizá-los de forma a permitir uma melhor avaliação do desempenho econômico de um empreendimento. Trazemos também um interessante e detalhado estudo de casos que mostra as performances de cultivos de tilápias em tanques-rede onde os investimentos necessários para produção representam 30-40% daqueles necessários para produzir a mesma quantidade de peixes em viveiros convencionais. Falando em custos e investimentos, apresentamos também outro tema polêmico que pode mexer com o bolso do produtor: a cobrança pelo uso das águas. E, muito mais…

Em nome de toda a equipe da revista, desejo a todos uma boa leitura e uma ano 2000 pleno de saúde e prosperidade.

Jomar Carvalho Filho – Biólogo e Editor