Em defesa dos nossos peixes

Em palestra proferida no II Seminário de Aquacultura da Universidade Santa Úrsula, no Rio de Janeiro, o Dr. Marcelo José Melo da CODEVASF apresentou importante trabalho intitulado “Alternativas de espécies nativas da Bacia do São Francisco para a piscicultura”, realizado juntamente com o Dr. Yoshimi Sato da Estação de Hidrobiologia e Piscicultura de Três Marias – MG.

Melo destacou que o País conta com uma área inundada de 3 milhões de hectares e nela habitam uma enorme variedade de espécies. Enfatizou que somente a Bacia Amazônica abriga cerca de 2.000 espécies de peixes e a do São Francisco deve conter cerca de 150, sendo que 73 delas já foram identificadas na região de Três Marias.

Apesar da enorme variedade, poucos estudos foram realizados em relação à adaptação das espécies à piscicultura. Melo acha que isso se deve possivelmente ao imediatismo dos dirigentes e técnicos dos órgãos nacionais ligados ao setor que, ao invés de se dedicarem ao estudo das espécies indígenas, preferem importar espécies exóticas com tecnolgia de cultivo já definida, como aconteceu em passado recente com a introdução de carpa, tilápia e truta. Este fato, segundo os autores do trabalho, contribuiu sobremaneira para que muitas espécies nativas, com grande potencial para a piscicultura, permanecessem no anonimato.

Em sua apresentação o palestrante destacou o trabalho desenvolvido pela CODEVASF e lembrou a que função do órgão é a irrigação. A piscicultura que a CODEVASF desenvolve é por força de legislação que determina a obrigatoriedade de peixamento das represas e açudes das empresas que lidam com a irrigação.

A Estação de Hidrobiologia de Três Marias já reproduz 15 espécies nativas para peixamento e caracteriza-se por não comercializar seus alevinos. Os estudos realizados nos últimos anos, tanto no ambiente natural quanto em cativeiro, demonstraram que várias espécies da Bacia do São Francisco podem vir a ser utilizadas na piscicultura, tanto intensiva quanto extensiva.

PRINCIPAIS ESPÉCIES

Foi levado em consideração o valor comercial e o crescimento para se eleger as espécies com aptidão para o cultivo. Sete famílias foram estudadas e 16 espécies apresentaram aptidão para a piscicultura.

São as seguintes: Matrinchã – Brycon lundii; Dourado – Salminus brasiliensis;Surubim- Pseudoplatymona coruscan; Pacamã – Lophiosilurus alexandri; Pirá – Conorhynchus conirostris; Mandi-açú – Duopalatinus emarginatus; mandi-amarelo – Pimelodus maculatus; Traira – Hoplias malabaricus; Trairão – Hoplias lacerdae; Piau-verdadeiro – Leporinus elongatus; Piau-branco – Schizodon knerii; Curimatã-pacu – Prochilodus marggravii; Curimatã-pioa – Prochilodus affinis; Cascudo-preto – Rhinelepis aspera; Cascudo – Pterygoplichthys etentaculus e Pescada – Pachyurus aquamipinis.

Os estudos realizados na Bacia do São Francisco resultaram em um número muito grande de espécies cultiváveis. Segundo seus autores, esta Bacia é uma das mais pobres e certamente estudos semelhantes em outras bacias brasileiras evidenciarão a potencialidade de muitas outras espécies para piscicultura. Os autores, finalmente, destacam a certeza de que se os estudos necessários para desenvolver técnicas de manejo dessas espécies forem realizados com seriedade, irão permitir ao Brasil passar a condição de exportador de espécies de peixes para centros adiantados em piscicultura, ao contrário do que ocorre atualmente com a predominância de importações.