Entrevista: Albert Bartolomeu de S. Rosa

A região do Baixo São Francisco possui bom clima, abundância de recursos hídricos e de solo, além de relevos favoráveis à piscicultura, uma atividade que vai de encontro aos anseios dos produtores locais e das indústrias nacionais de pescado processado. O local, onde já foram implantados mais de 800 hectares de viveiros, possui ainda 13 mil hectares em áreas de irrigação que poderão se transformar no maior pólo de aqüicultura da América Latina. Para apoiar o Programa de Desenvolvimento da Aqüicultura, a CODEVASF – Companhia de Desenvolvimento do Vale do São Francisco mantém seis Estações de Piscicultura, que vêm desenvolvendo pacotes tecnológicos em reprodução e alevinagem de espécies de peixes de importância econômica e ecológica, tecnologia de cultivo artificial de peixes em canais de irrigação, estudos sobre as lagoas marginais do rio São Francisco e, estudos de caracterização limnológica, ictiológica e de biologia pesqueira, que visam a produção de modelos de manejo ambiental para os grandes reservatórios d’água. Esses trabalhos vêm sendo realizados em parceria com várias universidades, dentre as quais as a UFMG – Universidade Federal de Minas Gerais, a UFSCar – Universidade Federal de São Carlos, a USP de São Paulo e UFAL – Universidade Federal de Alagoas.

Mercovale

Desde 1946, quando foi inserido na Constituição Federal um plano de aproveitamento econômico do São Francisco, que a Assembléia Constituinte reconhece a importância do rio para o desenvolvimento da região Nordeste. Ao longo desses anos, a CVSF – Comissão do Vale do São Francisco viu-se transformar em SUVALE – Superintendência do Vale do São Francisco para finalmente ser constituída a CODEVASF, uma instituição sediada em Brasília com área de atuação nos estados de Minas Gerais, Goiás, Bahia, Pernambuco, Alagoas, Sergipe e Distrito Federal. A missão da CODEVASF é planejar e executar ações para o desenvolvimento do Vale do São Francisco, com ênfase no aproveitamento dos recursos de água e solo.

Com esse intuito, foi realizado em maio último na cidade de Penedo – Alagoas, o V Mercovale – Encontro de negócios no Vale do São Francisco, numa parceria da CODEVASF com o Ministério da Integração Nacional, Ministério da Agricultura e Abastecimento, Governo do Estado de Alagoas, SEBRAE, Prefeitura Municipal de Penedo e, a Fundação Teotônio Vilela. No V Mercovale foram divulgados o potencial da região, os investimentos feitos até agora e as oportunidades de negócios que possam atrair pessoas e empresas dispostas a investir no desenvolvimento das atividades realizadas na região.

Durante o V Mercovale a Panorama da AQÜICULTURA teve a oportunidade de entrevistar Albert Bartolomeu de Sousa Rosa, Coordenador do Programa de Aqüicultura da CODEVASF, que falou das potencialidades da região e da sua expectativa de ver o Baixo São Francisco se transformar num grande pólo produtor de pescados.


Panorama – O Sr. poderia nos dizer de que forma aconteceu a aqüicultura dentro da CODEVASF?

Albert Bartolomeu – Aconteceu através do Programa de Desenvolvimento da Aqüicultura e de Fortalecimento do Setor Pesqueiro, que teve início com o advento das grandes obras hidroelétricas no rio São Francisco. Essas barragens provocaram modificações profundas na composição e no comportamento da ictiofauna e reduziram substancialmente os estoques pesqueiros naturais, as oportunidades de emprego aos pescadores artesanais e a oferta de pescado à população ribeirinha do São Francisco. A construção de grandes barragens, como a de Três Marias, em Minas Gerais, e de Sobradinho, na Bahia, criou obstáculos à migração reprodutiva dos peixes e restringiu, acentuadamente, as cheias a jusante dos reservatórios, reduzindo as oportunidades de enchimento das lagoas marginais, que funcionam como berçários para dezenas de espécies de peixes. Já em 1979 a CODEVASF inaugurou sua primeira estação de piscicultura, em Três Marias – MG.

Panorama – Fala-se muito que o nível tecnológico atual da piscicultura brasileira não seria o mesmo sem a ajuda da CODEVASF, principalmente na década de 80. Como isso aconteceu?

Albert Bartolomeu – De fato, até meados da década de 80, a média de produção de alevinos nas pisciculturas de todo o país não atingia 100 mil alevinos por ano. A CODEVASF adquiriu no exterior, adaptou, gerou e disseminou tecnologias de produção de alevinos e de cultivo de peixes; promoveu dezenas de cursos e concedeu estágios a técnicos de diversas instituições públicas e privadas; editou várias publicações técnicas e forneceu matrizes de espécies selecionadas. Graças a esse trabalho de desenvolvimento e de difusão de tecnologia de produção de alevinos, atualmente dezenas de piscicultura no país já produzem mais de um milhão de alevinos por ano. Foi nas estações de piscicultura da CODEVASF, que se obteve, pela primeira vez, a reprodução artificial de 14 espécies de peixes de importância econômica e ecológica para a região, destacando-se, dentre elas, o surubim (Pseudoplatystoma coruscans), o dourado (Salminus brasiliensis) e o pirá (Conorhynchus conirostris).

Panorama – O Sr. poderia falar um pouco sobre essas estações de piscicultura da CODEVASF?

Albert Bartolomeu – As estações de piscicultura da CODEVASF realizam peixamentos em rios e em grandes reservatórios, com o objetivo de recompor a ictiofauna e fortalecer a pesca profissional, que emprega mais de 25 mil pescadores artesanais em todo a bacia. Fornecem também alevinos a produtores rurais, visando incrementar a piscicultura em escala comercial. A CODEVASF dispõe de seis estações de piscicultura ao longo do vale do São Francisco. Em Minas Gerais temos a Estação de Hidrobiologia e Piscicultura de Três Marias, no Município de Três Marias e a Estação de Piscicultura do Gorutuba, no Município de Nova Porteirinha. Na Bahia temos a Estação de Piscicultura de Ceraíma, no Município de Guanambi. Em Pernambuco, temos a Estação de Piscicultura de Bebedouro no Município de Petrolina. Em Sergipe temos a Estação de Piscicultura de Betume, localizada no Município de Neópolis e, por último, no Estado de Alagoas temos a Estação de Piscicultura de Itiúba, localizada no Município de Porto Real do Colégio. Todas as estações juntas têm capacidade para produzir anualmente cerca de 18 milhões de alevinos.

Panorama – De que forma esse esforço da CODEVASF transformou a piscicultura na região do Vale do São Francisco?

Albert Bartolomeu – O Vale do São Francisco cobre uma extensa área distribuída em cinco estados, com uma considerável disponibilidade de água e de terra extremamente adequadas à piscicultura. É por isso mesmo, uma das mais promissoras regiões produtoras de pescado do Brasil. Hoje, a criação de peixes em viveiros escavados em terra já ocupa milhares de hectares e, além disso, o cultivo intensivo de peixes em canais dos projetos de irrigação, públicos e privados, e a utilização de extensas áreas dos grandes reservatórios através do cultivo de peixes em tanques-rede se apresentam como alternativas altamente viáveis no Vale do São Francisco.

Panorama – O Sr. poderia falar mais sobre a expectativa de produção de peixes em tanques-rede dentro dos reservatórios?

Albert Bartolomeu – Esse é um segmento da aqüicultura que deverá se deslanchar, tão logo seja regulamentado o decreto-lei permitindo o aproveitamento de águas públicas para a aqüicultura. No vale do São Francisco, se destacam as Represas de Três Marias, de Sobradinho, Itaparica, Moxotó e Xingó, totalizando 6.343 km² de área inundada. Caso venham a ser aproveitadas apenas 0,1% dessa área, ter-se-á condições de produzir 1,27 milhões de toneladas de pescado, quase o dobro do total da produção brasileira de pescados. Mesmo antes da regulamentação do Decreto-Lei 2869/98, somente nos reservatórios situados no Sub-médio e Baixo São Francisco, já foram instalados mais de 15.000 m³ de tanques-rede.

Panorama – Quais as áreas do Vale do São Francisco que merecem destaque pelo seu potencial para a aqüicultura?

Albert Bartolomeu – No Norte do Estado de Minas Gerais há o Projeto Jaíba, implantado pela CODEVASF, que possui mais de 200 km de canais de irrigação, com capacidade para 1.910.000 m³ d’água, propícios à criação superintensiva de peixes. Nossos cálculos mostram que somente nesta região poderão ser produzidas mais de 15 mil toneladas anuais de pescados que, adicionalmente, aumentarão a fertilidade da água utilizada na lavoura. A produtividade na piscicultura nos canais de irrigação é pelo menos 30 vezes superior à obtida na piscicultura intensiva tradicional. Se seguirmos o curso do rio, encontramos a região de Barreiras, no oeste do Estado da Bahia, com uma abundância de recursos hídricos, além de ser grande produtora de grãos, em especial milho e soja, insumos básicos para elaboração de ração para peixes.

Descendo ainda mais o rio temos Petrolina e Juazeiro, na fronteira dos Estados de Pernambuco e Bahia, com água e solos apropriados e um excelente clima para a piscicultura. Aí existem centenas de reservatórios de compensação parcelar utilizados na fruticultura irrigada, que podem ser perfeitamente aproveitamentos para a criação de peixes, podendo até ser um fator decisivo para o aumento da competitividade das frutas produzidas nos perímetros de irrigação daquela região. Mais abaixo temos a região de Paulo Afonso, ainda no Estado da Bahia, onde já existem mais de 15.000 m3 de tanques-rede e onde está sendo implantado um grande projeto de criação de tilápias em sistema de raceway. A seguir, temos a região do Baixo São Francisco, nos Estados de Sergipe e Alagoas, já próxima à foz do rio São Francisco, no Oceano Atlântico, que possui um excelente clima, relevo e solos adequados à piscicultura, além de uma abundância de água de excelente qualidade. Essa região já conta com mais de 800 hectares de viveiros em produção e existem ainda na região cerca de 13,5 mil hectares de terrenos adequados para o cultivo, dentro dos projetos de irrigação implantados pela CODEVASF, à disposição daqueles que queiram lá se estabelecer, que poderão ainda contar com todo o apoio da CODEVASF e dos governos dos Estados de Sergipe e Alagoas. Acredito que esta região pode se tornar o maior pólo de piscicultura de águas interiores da América Latina.

Panorama – O que o leva a crer que a Região do Baixo São Francisco abrigará o maior pólo de piscicultura da América Latina?

Albert Bartolomeu – Pra começar, a região tem um clima extremamente favorável, com temperaturas que variam ao longo do ano de 22 a 28 oC. Além disso, quem quiser mesmo produzir, encontrará na região uma abundância de água de boa qualidade, com baixo conflito de uso e uma infinidade de serviços estratégicos como o fornecimento de alevinos, fábrica de ração, fábrica de fertilizantes, empresas de terraplenagem, infra-estrutura de estradas, portos, aeroportos, eletrificação rural, telecomunicação; enfim, a região hoje já dispõe de tudo que é necessário para quem estiver realmente interessado em produzir com eficiência. Os estabelecimentos produtores de alevinos instalados na região estão capacitados hoje para produzir 42 milhões de alevinos anuais.

Panorama – Qual o perfil daqueles que podem se instalar na região?

Albert Bartolomeu – Produtores, investidores, empresas processadoras de pescado, frigoríficos, fabricantes de rações, distribuidores de insumos e equipamentos e todos aqueles que fazem parte da cadeia de produção de pescados.

Panorama – De que forma as empresas e os interessados em se instalar na região do Baixo São Francisco podem se dirigir a CODEVASF para obter mais detalhes sobre as facilidades de implantação de seus projetos?

Albert Bartolomeu – Os interessados poderão entrar em contato diretamente conosco, em Brasília, pelo telefone (61) 312-4679 ou fax (61) 312-1553 e e-mail: [email protected] . O nosso site para quem quiser conhecer mais sobre a CODEVASF é www.codevasf.gov.br