Entrevista: Enox de Paiva Maia

Duas edições atrás (edição 89) publicamos uma matéria sobre o policultivo de camarões com a tilápia, baseado numa palestra feita em Fortaleza – CE, pelo presidente da Associação Norteriograndense de Criadores de Camarão, Enox de Paiva Maia. Na ocasião, Enox analisou os resultados dos testes de manejo que foram necessários para ajustar o formato do policultivo que estava implantando em sua fazenda. Os resultados o deixaram convicto de que a diversificação da produção, através do consórcio camarão-tilápia, poderia ser uma boa solução para os problemas que surgiram com o aparecimento da NIM. Um novo encontro com Enox, novamente em Fortaleza, proporcionou um bate-papo com a Panorama da AQÜICULTURA, oportunidade em que Enox voltou a falar dos desdobramentos da sua experiência com o consórcio camarão-tilapia e de outros temas importantes da atualidade da carcinicultura brasileira.


Panorama: O preço internacional do camarão melhorou muito. O setor comemora?Enox: Isso mesmo. O preço do quilo do camarão 80-100 no início do ano era US$ 3,30 e hoje está variando de US$ 4,60 a US$ 4,80, e isso é uma melhora significativa. Mas no início do ano o dólar valia R$ 2,64 e hoje está por volta de RS 2,29. Na prática, por conta do câmbio, essa melhora não foi tão comemorada assim. Por outro lado os custos de produção aumentaram. Tudo subiu de preço, salvo o decréscimo dos custos da ração, em cerca de 4,5%, e da pós-larva em cerca de 22%.

Panorama: Você acredita que essa diminuição expressiva no preço da pós-larva pode refletir na qualidade dos animais?
Enox: Esse é outro problema. Se os insumos aumentam, como é que se faz para abaixar o preço de venda? Ou tem muita “gordura para queimar” ou se está substituindo ingredientes, o que pode refletir na qualidade. Na realidade, acredito que isso já vem refletindo há algum tempo. Principalmente com a supressão do uso da Artemia salina.

Panorama: Mas a artêmia não é um item insubstituível?
Enox: Ainda é insubstituível, mas quantitativamente você pode trabalhar isso. O ideal, por exemplo, é produzir um milhão de pós-larvas com 3 quilos de artêmia, mas se pode produzir com um quilo, até com meio quilo. É possível substituir parte da artêmia por outros ingredientes, como a própria biomassa de artêmia ou ração artificial, que também já existe. Mas ainda não é possível substituir totalmente a artêmia.

Panorama: Quais os demais itens, cujos preços subiram?
Enox: Energia, combustíveis, lubrificantes, salários, encargos sociais. Hoje alguns desses itens, como salários e energia elétrica, passaram a ter um peso maior nos custos de produção, porque praticamente todas as fazendas reduziram as densidades de estocagem, em função da limitação de capital de giro, associado ao problema das enfermidades. Então, eu tinha uma receita “X” e hoje eu tenho uma receita “X menos alguma coisa por hectare”. Os custos de produção por hectare aumentaram e a receita por hectare diminuiu. Isso, associado à desvalorização artificial do dólar frente ao real, é um pacote com conseqüências muito ruins.

Panorama: Qual é a densidade média de povoamento atualmente utilizada pelos produtores?
Enox: Eu acho que atualmente está todo mundo trabalhando com 20 a 30 camarões por m2.

Panorama: E ainda assim trabalhando com bandejas? Você acredita que existe uma densidade em que a badeja passa a ser cara, em termos de mão-de-obra?Enox: Sim. É possível se você trabalhar com densidades baixas, tipo 10 camarões/m2. Entretanto, você pode diminuir o número de bandejas por hectare, reduzindo também a mão-de-obra por hectare. A cada dia que passa a mão-de-obra vem adquirindo uma importância financeira maior nos custos totais de produção.

Panorama: Hoje um homem no campo dá conta de quantos hectares?
Enox: Um homem alimenta cerca de 150 a 200 bandejas, três vezes por dia. São umas 600 bandejas por dia, no máximo. Se você trabalhar com 30 camarões por m2, terá 30 bandejas por hectare e um homem, teoricamente, teria condições de alimentar de 6 a 7 hectares por dia. Essa relação não é proporcional, por que mesmo você diminuindo o número de bandejas por hectare, você tem a extensão a percorrer.

Panorama: Diante de um mercado favorável e com a melhoria nas sobrevivências, como está o ânimo dos produtores?
Enox: A melhora real, em termos de sobrevivência, continua ainda muito pequena. Nos últimos 4 – 5 meses deve ter melhorado cerca de 5%.

Panorama: E isso tem desanimado o produtor?
Enox: Diante disso, os produtores ficam se saber direito se vale a pena investir mais. E existe a expectativa da chegada do inverno, quando sabemos que aumenta a virulência do vírus da NIM. Por outro lado, a demanda por camarão está muito forte. Hoje você não acha camarão pra comprar. Os meses de janeiro, fevereiro e março são tradicionalmente ruins. Mas por conta da febre aftosa e da gripe do frango na Ásia e parte de Europa, a expectativa é que a demanda por frutos do mar aumente ainda mais, o que fará essa demanda se prolongar por um pouco mais de tempo.

Panorama: E o futuro? O que você está prevendo? De que maneira esse quadro de hoje vai evoluir, na sua opinião?
Enox: Eu tenho uma expectativa muito positiva. Primeiro porque trabalhamos com uma atividade que tem capacidade de engajamento num policultivo, muito grande. Por exemplo: o cultivo de tilápias em água salgada hoje já é uma realidade. Isso permitiu o policultivo com camarões e hoje já estamos exportando os primeiros contêineres de tilápia provenientes de policultivo para a Europa.

Panorama da Aqüicultura: Estamos falando da Chitralada, não é? O problema com o fornecimento de alevinos ainda persiste nos dias de hoje?
Enox: Isso, a Chitralada. Tivemos problemas quando fomos fazer os primeiros policultivos de camarão com tilápias, mas hoje não existe problema de fornecimento de alevinos. Naquela época era período de frio. Os Estados do Paraná, São Paulo e Minas Gerais estavam sem produzir e só havia a produção de alguns laboratórios do Nordeste. Dessa forma, muitos policultivos de camarão com tilápia foram prejudicados. Mas hoje existe alevino à vontade e os resultados do policultivo são excelentes! Para se ter idéia, a tilápia mais velha que temos hoje na fazenda tem 129 dias de cultivo e está com cerca de 700 gramas, partindo de alevinos de 1,0 grama.

Panorama: O tamanho de abate que você pretende trabalhar, é esse mesmo, de 700 g?
Enox: Conseguimos um contrato com o Mercado Comum Europeu para mandar tilápias para Portugal. Já enviamos diversas amostras e acabamos de enviar um container. E a demanda é muito forte, porque o gosto da tilápia de água salgada é totalmente diferente do gosto da tilápia criada em água doce. E os europeus estão dispostos a pagar um preço diferenciado, pelo fato de serem tilápias criadas em água salgada. Hoje ainda estamos comercializando no mercado internacional por 1,62 euros, o quilo da tilápia inteira, eviscerada e congelada.

Panorama: Não é o filé? Isso reduz bastante os custos…
Enox: Reduz, entretanto, você tem o custo do frete, já que a tilápia tem um valor bem mais baixo que o camarão, e com isso, o peso do frete nos custos totais de produção da tilápia tem um reflexo mais alto. O mercado português quer peixes de 300 a 400 g depois de eviscerados, perfazendo 30% do container, e tilápias de 400 a 600 g nos 70% restantes do container.

Panorama: Então o seu peixe de 700 g é até grande demais?
Enox: Sim, e no caso o ideal seria trabalhar com peixes menores, até porque, nesse caso, os custos de produção são menores. O interessante nisso tudo é que no policultivo o camarão sai de graça, pois você não usa ração para o camarão se você trabalhar com até 10 camarões por metro quadrado. Além disso, o metabolismo da tilápia promove o alimento natural. O sistema de preparação de um viveiro de camarão é totalmente diferenciado de um viveiro de piscicultura. Esse nível tecnológico aplicado no policultivo reflete no crescimento e na sobrevivência. O crescimento da tilápia em água salgada é muito superior. Em 120 dias, a tilápia de água doce criada em viveiros ou em gaiolas estaria com peso médio ao redor de 250 gramas.

Panorama: Você está usando tanques-rede dentro dos viveiros de camarão?
Enox: 
Não, os peixes estão sendo criados juntos.

Panorama: E são também povoados juntos?
Enox: Podem ser estocados juntos. O problema é com relação às despescas. Temos que aproveitar a época de migração do camarão no viveiro para abrir o viveiro e tirar o camarão. Infelizmente o vannamei só sai do viveiro na última água. E não podemos tirar a tilápia primeiro porque vai arrastar o fundo do viveiro e prejudicar o camarão. Então temos que tirar primeiro o camarão, aproveitando a migração por conta da influência da lua. E vamos tirando camarões de 18 a 25 gramas. Isso, em 120 a 130 dias de cultivo com 10 camarões por metro quadrado.

Panorama: Essa despesca é parcial?
Enox: O objetivo nessa fase é despescar o camarão primeiro. Como estamos num período de lua, o camarão está migrando. Então podemos tirar o camarão com mais facilidade. Pelo menos uns 60% se consegue tirar. O restante somente na despesca final, junto com as tilápias. Daí, a importância do uso das espécies nativas nesse consórcio.

Panorama: Você está fazendo o policultivo com o subitilis?
Enox: No momento não, mas vamos receber uma remessa do subitilis em novembro. Nós estimulamos a Compescal a produzir o subitilis e ela está fazendo.

Panorama: No caso do subitilis, esse comportamento na despesca se difere do vannamei?
Enox: Exatamente. No caso do subitilis, quando você abre a comporta do viveiro, ele vai embora, enquanto o vannamei reluta, saindo somente na última água. Então, dá para fazer um bom trabalho. E a vantagem maior dessa integração é poder quebrar o ciclo da enfermidade, porque se elimina grande parte dos hospedeiros intermediários. Não existe qualquer sintoma de enfermidade, o camarão fica completamente limpo, sem problema e bem alimentado. Chega a crescer 1,5 a 2,0 gramas por semana.

Panorama: Qual a salinidade que você está trabalhando.
Enox: Hoje estamos despescando com 33 ppt.

Panorama: E durante essa engorda, a salinidade variou quanto?
Enox: Quando se começa um cultivo com salinidade baixa, ganha-se muito em termos de crescimento. Por exemplo, os primeiros alevinos de tilápias que utilizamos nos cultivos chegavam a crescer, depois de 7 a 8 semanas, cerca de 118 gramas por semana, ou cerca de 16 gramas por dia. Um crescimento espetacular. Quando a salinidade foi aumentando e os povoamentos continuaram a ser feitos, os alevinos estocados em salinidades mais altas, após 7 a 8 semanas, passaram a ter crescimento de 25 a 30 g semanal, e alguns 6 a 10 g por semana, ao contrário daqueles que tiveram média de crescimento semanal de 60 a 70 gramas…

Panorama: Então, é preferível que a salinidade seja mais baixa no início do cultivo?
Enox: Nas 10 primeiras semanas tem que ser. Eu tenho os gráficos com a representação das curvas de crescimento de peixes estocados em salinidades baixas e estocados em salinidades mais elevadas. Na oitava semana o comportamento de crescimento das curvas é totalmente diferente. O incrível é que mesmo em salinidades de 33, 34, 35 ppt, o crescimento continua com 20 a 28 gramas por semana.

Panorama: O que não era esperado, pois se considerava que essas salinidades fossem excessivas. Onde você está criando?
Enox: Aqui em Beberibe (CE) e o processamento é em Maracanaú. Agora, a salinidade aumenta consideravelmente o nível de estresse do peixe. Então se você não tiver cuidado, o peixe começa a perder escamas e a adquirir ferimentos, sofrem ataques de bactérias e parasitos. Então, normalmente ele fica mais fragilizado. Hoje estamos com salinidade nos canais de 35 ppt. A maioria dos viveiros está nessa faixa, apesar de alguns estarem com salinidades inferiores.